Segunda-feira, 1 de Junho, 2020
Media

A urgência de mudanças nos “media” portugueses vista por António Carrapatoso

Em Portugal, o sector mediático tem vido a ser fustigado, ao longo dos anos, pela recessão económica e pela descrença da população no jornalismo. 

Além disso, este sector tem tido dificuldade em acompanhar a evolução dos tempos e, nas últimas décadas, foram poucas as alterações e inovações registadas.

Estas debilidades ficaram, agora, mais expostas do que nunca, com a pandemia de Covid-19, conforme escreve António Carrapatoso, um dos fundadores e gestor do jornal digital “Observador”, no quadro do sexto aniversário da publicação “online”.

Se, por um lado, a população manifestou um interesse crescente pelo consumo de conteúdo informativo, por outro, o modelo de negócio da imprensa provou-se deficitário, já que, com o afastamento dos anunciantes, muitas publicações viram-se forçadas a entrar em regime de “layoff”, a suspender a impressão, ou, até, a fechar portas.

Para Carrapatoso um dois maiores problemas assenta no facto de não existirem empresas de “media” realmente viáveis ou sustentáveis. Em 2019, relembra, o EBITDA (resultado operacional) das empresas foi negativo, ou seja, parte do sector regista, no seu conjunto, um prejuízo operacional.

Estes fracos resultados manifestam-se, directamente, na qualidade da informação: quando o orçamento é limitado, os projectos jornalísticos de maior dimensão ficam para segundo plano e os “talentos da casa” podem sentir-se impelidos a optar por mudanças na carreira.


Talvez por isso, a imprensa portuguesa se tenha tornado “demasiado dependente” de outras entidades, como o Governo, Bancos ou alguns anunciantes, falhando em consolidar-se enquanto instituição e no cumprimento “do seu mais nobre e indispensável papel de informar”. 


De acordo com o autor, a actual situação explica-se através de “três principais vectores”.  São eles o poder político -- que tenta interferir na estrutura do sector e nas suas actividades informativas e editoriais -- , a falta de uma regulação adequada -- que deveria promover a inovação e uma concorrência aberta e saudável --  e a incapacidade de reestruturação -- já que as empresas têm resistido à alteração de estruturas accionistas ou de poder interno. 


Como tal, para haver uma revitalização da comunicação social, terá de proceder-se a alterações estruturais profundas. 


Para Carrapatoso, isso acontecerá quando o Governo começar a primar por um exemplo “de cultura democrática e de transparência na relação que estabelece” com a imprensa.


Da mesma forma, a regulação dos “media” terá de passar a focar-se no essencial : “na criação de um ambiente de sã concorrência e de estímulo à inovação, assente em legislação/regulamentação mais simples em contemporânea”.


Em terceiro lugar, Carrapatoso defende que cada empresa de comunicação social deverá completar a sua “reestruturação e a redefinição do seu negócio, fornecendo, também, melhores produtos para os seus públicos”, enquanto resistem a “pressões políticas e empresariais indesejáveis”.


“No fundo, será muito importante, para o país, que o espírito e a prática do bom jornalismo, qualificado e independente, que ainda existe entre nós, venha, finalmente, a prevalecer e que um número apreciável de empresas do sector, em verdadeira concorrência, e protagonizando os melhores projectos, venham a tornar-se fortes, saudáveis e auto-sustentáveis”.

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


ver mais >
Opinião
À medida que a pandemia parece mais controlada e o regresso ao trabalho se faz, conforme as regras de desconfinamento gradual, instalou-se uma “guerra mediática” de contornos invulgares, favorecida pela trapalhada da distribuição de apoios anunciados pelo governo, supostamente,  através da compra antecipada de espaço para publicidade institucional. Primeiro assistiu-se a uma “guerra “ privada, entre a Cofina e o...
Numa era digital, marcada por uma constante e acelerada mudança, caracterizada por um globalismo padronizador de culturas e de costumes, muitas indústrias e profissões estão a alterar-se totalmente, ou até mesmo a desaparecer. Tudo isto se passa num ritmo freneticamente acelerado, que nos afoga literalmente num caudal de informação, muitas vezes difícil de filtrar e descodificar em tempo útil. A evolução...
As suas vendas desceram, os clientes atrasaram-se a pagar, os fornecedores pressionam para receber, a tesouraria está apertada? O que fazer? – Claro que vai ver onde se pode cortar custos, ao mesmo tempo que se prepara o retomar de actividades. E um dos primeiros cortes para muitas empresas é na comunicação e na publicidade. “O dinheiro não chega para tudo, tem que se escolher”, pensa quem faz o corte. No fundo consideram que no...
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
Em toda a parte, ou quase, a pandemia causada pelo coronavírus fechou em casa muitos milhões de pessoas, para evitarem ser contaminadas. Um dos efeitos desse confinamento foi terem aumentado as audiências de televisão. Por outro lado, as pessoas precisam de informação, por isso o estado de emergência em Portugal mantém abertos os quiosques, que vendem jornais.   Melhores tempos para a comunicação social? Nem por isso,...
Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas