A situação delicada dos “media” costuma ser abordada segundo uma narrativa comum: à crise financeira de 2008, que afectou todos os sectores da sociedade, aliou-se a descredibilização da imprensa e os ataques, constantes, ao papel dos jornalistas, o que pôs em risco a sobrevivência da imprensa.
Nessa narrativa, a era digital é “acusada” de ameaçar o modelo de negócio dos jornais, que tiveram dificuldade em obter receitas, já que os artigos noticiosos passaram a estar disponíveis, gratuitamente, na internet.
A deterioração da imprensa não é, contudo, um fenómeno recente, reiterou o jornalista Jacob Weisberg, num artigo publicado no “Foreign Affairs” e reproduzido nos “Cuadernos de Periodistas”, editados pela APM -- associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Da mesma forma, a “saúde” das democracias está, há vários anos, sob ameaça, já que uma imprensa mais frágil pressupõe a debilitação da pluralidade dos “media” e, consequentemente, um sufrágio menos informado.
Numa tentativa de traçar quais serão os próximos passos dos “media” , Weisberg tratou de recolher testemunhos sobre as histórias dos jornais anglo-americanos, apontando alguns casos de sucesso e “fazendo luz” sobre uma possível fórmula para reverter a crise do sector.
Como recorda Weisberg, o jornalismo atingiu a sua “época dourada” entre as décadas de 1960 e 1970. Durante este período os jornalistas eram encarados como verdadeiros heróis, os detentores do quarto poder, que esmiuçavam questões disruptivas como a Guerra do Vietname.
Os repórteres alcançaram, assim, um certo prestígio.
Na década de 1980, porém, este fenómeno teve um efeito “boomerang”, com as forças políticas a começarem a questionar as acções dos “media”.
Tudo isto dificultou a gestão das redacções nas décadas seguintes. Se, por um lado, os editores tinham que lidar com os egos dos colaboradores de maior prestígio, por outro, o Governo começou a minar a credibilidade dos jornais.
Ao mesmo tempo, a emergência da Internet e das redes sociais fez com que gerir um jornal passasse a ser algo mais abstracto, uma luta em todas as frentes.
Weisberg toma o exemplo de Alan Rusbridger, que descreveu as suas experiências enquanto editor de um título, num período de pressão e descontrolo crescentes.
Rusbridger assumiu o leme do “Guardian” em 1995 e comprometeu-se com a Internet, mesmo quando não era claro o que isso significaria. Em vez de se concentrar na potencial perturbação do negócio, Rusbridger viu uma oportunidade para o jornalismo.
O “Guardian”, originalmente sediado em Manchester, e apenas um dos dez principais jornais britânicos em termos de circulação, podia, agora, chegar a um público global.
Como responsável de negócios, a reputação da Rusbridger é, no entanto, mais questionável. O jornalista foi ridicularizado por assumir que, enquanto não houvesse uma forma clara de um jornal ser jornalisticamente sólido e financeiramente rentável, a empresa teria de viver com grandes perdas.
Mas, em retrospectiva, considera o autor, pode dizer-se que a sua visão foi justificada. Hoje, o “Guardian” é um dos títulos mais importantes do mundo, o que não teria sido possível caso Rusbridger não tivesse dedicado os seus esforços à Internet da forma como o fez.
Ora, se no final da década de 90 a prosperidade dos jornais dependia da inovação e do sacrifício, hoje, o sucesso de um título assenta na sua qualidade e na profundidade com que esmiúça o panorama político.
Isto porque o insultos do Trump aos “media” fizeram com que os leitores começassem a demonstrar uma maior disposição para pagarem por conteúdos fidedignos.
Os insultos verbais nocivos do Trump aos “media”, tiveram um efeito quase contraditório, fazendo com que as audiências passassem a prezar melhor o jornalismo.
Para Weisberg, é ainda demasiado cedo para dizer que a crise do jornalismo e da credibilidade são “águas passadas”.
Ainda não existe um modelo empresarial replicável para todos os “media”, mas, o que parece estar a funcionar é uma variedade de meios híbridos, sem fins lucrativos, que preenchem a lacunas de cobertura.
O que as empresas dos jornais mais inovadores parecem ter em comum é alguma forma de apoio financeiro, combinado com a capacidade de agir.
Assim, para Weisberg, cada meio tem de encontrar o seu nicho para sobreviver, razão pela qual a próxima geração de gestores de “media” terá, não só, de dominar a filosofia moral, mas, igualmente, o mundo do negócio.
Leia o artigo original em “Cuadernos de Periodistas”
A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.
Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.
Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.
Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.
Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.
No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.
Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.
Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.
Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.
Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.
Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.
A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.
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