null, 24 de Janeiro, 2021
Opinião

O mau jornalismo é como a má moeda

por Graça Franco

Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo?

Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais. Daí que se torne um bocadinho irritante que o conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas se refugie numa espécie de “recordatórias”, enviadas às direções de informação, ora sob a forma de notas ora sob a forma de cartas abertas a pretexto da Covid-19 para, em menos de um mês, alertar repetidamente para que as direções de informação, dos vários meios, velem pelo escrupuloso cumprimento das mais básicas regras da profissão por parte dos seus jornalistas. 


É caso para perguntar: esta repetida pedagogia deve-se exactamente a quê? Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? 

Não querem chamar os “bois pelos nomes” e temem que acabemos todos num pântano onde nos afogamos coletivamente reciclados com o lixo das redes sociais? Se sim, cabe informar então que, lamentavelmente, descobriram tarde e o risco é grande. Cada vez maior. Nisso têm toda a razão. No jornalismo como na economia “a má moeda” acaba por eliminar “a boa moeda”. Não é novo e já está a acontecer. 

E o público foge e começa a estar farto? Pois. E começa a tomar a parte pelo todo? Sem dúvida. Daí o desafio: não ceder. Não ceder. Não ceder. Escrutinar ainda mais. Não cair na voracidade de ser sempre os primeiros. Não dar voz ao falso, para corrigir de imediato. Em “fact check” logo a seguir as próprias notícias. 

Deixar que o público (que pode ser ignorante mas raramente é totalmente parvo) acabe a distinguir as “fake news” das “news”. Lembram-se do “acredite se vir no Expresso!”. Pois, por cá já vão 83 anos de rádio, a escrever-se com dois RRs. Erramos. Claro. Mas é a excepção. Para isso fartamo-nos de trabalhar. Com muito gozo. 

E é assim a maioria? Acreditamos. E mesmo sendo assim, a profissão corre riscos? Evidentemente. E a culpa é mesmo nossa. É. Mas, a cada um a sua parte. Aqui não nos apetece carregar às costas a culpa de todos. Bem basta a nossa justa parte. Porque, repito, longe de nós estar isentos de culpas nos erros cometidos diariamente no trabalho que é por definição difícil de nos aproximarmos o mais possível do conteúdo e do tom certo. 

A 23 de Março, em plena crise “covíiica” confesso que me passou ao lado a primeira nota do conselho deontológico. Lemos em diagonal a mensagem. Melhor, devemos ter tido aquela visão positiva e achado que valia a pena fazer um alerta geral para recordar que entre mortos e feridos é conveniente não exagerar. A mim especialmente passou-me totalmente ao lado. 

Todos nós sabemos que o estilo tablóide, genialmente praticado em Portugal, sobretudo na fórmula televisiva, entre tanta desgraça encontra o clima ideal para puxar às audiências. À comoção óbvia. Ao pânico generalizado. À lágrima fácil. E ao equilíbrio quase impossível entre emoção genuína e sensacionalismo abominável. Quase sempre a balança inclina-se para o lado errado. 

O sindicato e o nosso conselho deontológico têm razões para que lhe soem aos ouvidos todos os alarmes. Vale a pena alertar que não vale tudo? Claro.
 

A Comissão de Carteira talvez possa, também, por uma vez, levantar-se do seu cadeirão e fazer “zapping” para, aqui e ali, ver se as regras do jornalismo não estão a ser estraçalhadas. Talvez já seja altura. Com “covid”, ou sem ele, a dita Comissão servir para mais alguma coisa que não seja cobrar, como diria Durão Barroso, uma “pipa de massa” por cada dia de atraso na renovação dos títulos profissionais e registar a sua suspensão. Mas que tenho eu a ver com isso? Tudo. Porque não somos todos iguais e é efectivamente irritante que quem faz do atropelo profissão não seja, pelo menos, identificado claramente nas “recordatórias”. 

Claro que ao conselho deontológico não cabe o papel da ERC. Embora desta também não se veja o que anda a fazer dos seus poderes de penalização dos infractores. É, todavia, manifesto que qualquer intenção de interromper a inércia não passa por ela. Nem agora, nem nunca valha a verdade. Tenho mesmo a vaga impressão de que, naquele órgão “buroco-sentadinho” tudo o que seja agitar as águas é mais cadastro do que currículo. 

Gente como Mário Mesquita, a quem devo como professor e depois como diretor, nos primeiros cinco anos da minha carreira, muito do que aprendi e ainda hoje sou, parecem tolerados como uma espécie de sapo engolido pela própria máquina a contragosto. Não se lhes vê a força nem se lhes sente o génio. À casa aplica-se a máxima chinesa:” prego que se destaca, deve ser martelado”. 

Não gosto de tanta passividade na regulação do setor. Pergunto, a mim própria, porque é que de repente também não gosto de tanta pró-atividade sindical. De ver, esta espécie de bicos de pés permanente, dos educadores ético-deontológicos. Sobretudo, pergunto-me porque me irritou, sem outro motivo aparente, esta carta aberta de segunda-feira, e não a primeira “recordatória”. 

Primeiro, comecei por pensar (mea culpa, mea culpa, mea culpa…) que ali havia coisa. Talvez um excesso de interiorização do discurso da infatigável DGS. O que raio é isto, outra vez? Será que alguém anda aí a empolar o número de mortos? A confrontar, em excesso, autarquias e sites governamentais à caça de contradições? A fomentar divisões em tempo de “união nacional”. Ou seja, temi que se tratasse de uma versão “soft” ao mais puro estilo de “suspenda-se lá por um bocadinho a democracia” e já que a oposição foi de férias reduza-se lá esta mania de “fomentar” o cultivo das fontes alternativas. Supus que o apelo era sobretudo a que, em uníssono, passássemos a falar, a uma só voz, como a Dra. Graça Freitas. Com este mau pensamento estive à beira do chilique. Depois, respirei fundo e percebi que estava a inventar teorias conspirativas influenciada pelo ambiente “covidico”. A mensagem enviada não apelava a nada disso. 

O fim do alerta do conselho deontológico era mesmo o oposto. Tratava-se, tão só, de por uma segunda vez, voltar a dizer o já dito. Repetir que cabe mesmo às direções de informação, dos vários órgãos de comunicação, impor o óbvio: a não exploração da desgraça alheia. A não criação de um clima de medo e pânico injustificado junto de uma população já de si fragilizada como nunca esteve até aqui. 

Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Sem querermos arvorar-nos em educadores do povo nem em profetas da desgraça. Uma chamada de atenção aos jornalistas para que sejamos isso mesmo. Jornalistas. 

Nem pregadores, nem magos, nem uma espécie de Caretos à solta, fora do sítio e do tempo a dançar por entre ruas desertas a espalhar o medo e alimentando-nos do cheiro a morte. Nem agentes de segurança, nem servidores de causa nenhuma, simples prestadores de puro serviço público sem fingir que isso se confunde com a caça às audiências, ou seja, com o “interesse do público”. Sim, para quem não saiba os jornalistas são sempre parte da protecção civil. Não precisam ser requisitados para o efeito. 

Porque me irritou então tanto a segunda mensagem do conselho deontológico recebida a dizer mais ou menos isso? Apenas porque não somos todos iguais. Não precisamos todos de puxões de orelhas ou o equivalente. Não reivindicamos nenhum atestado de bom comportamento (não me entendam mal…). Não queremos. Dispensamos. Mas também dispensamos receber recadinhos na caixa de correio que nos parecem bater à porta errada. 

Da próxima ou dizem os nomes e as coisas, para ficarmos mais esclarecidos, ou chamam as coisas pelos nomes e só os faltosos enviam as carapuças. 

Por esta ainda passa. E já agora desculpem qualquer coisinha… que o teletrabalho é difícil para todos e três empresas, um estudante do 12º ano, e um estagiário confinado, a coexistir no mesmo espaço, tanto tempo, pode sempre toldar-nos a lucidez. Obrigada pela recordatória, querido Conselho. Mas talvez chegue, não? 

Connosco
Directores dos principais "media" insurgem-se contra vigilância do Ministério Público a jornalistas Ver galeria

Os directores de informação de todos os principais “media” nacionais subscreveram um documento conjunto, em que criticaram a vigilância policial exercida sobre jornalistas.

Num documento onde se invocaram os artigos da Constituição que protegem a Liberdade de Imprensa, assim como as leis que a tutelam e o Estatuto do Jornalista, os responsáveis editoriais insurgiram-se contra o comportamento de magistrados do Ministério Público, que não passou pelo crivo de qualquer magistrado judicial.
O documento foi enviado ao Presidente da República, presidente da Assembleia da República, assim como aos presidentes da 1ª Comissão da AR e aos diferentes Grupos Parlamentares, presidentes do Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal de Justiça e Conselho Superior da Magistratura, além da Procuradora-Geral da República, Provedora de Justiça e Bastonário da Ordem dos Advogados.

O texto integral subscrito pelos directores de informação é do seguinte teor:


Kamala Harris foi a “estrela” dos “media” nos EUA Ver galeria

O dia da tomada de posse é considerado um dos maiores eventos mediáticos nos Estados Unidos. Por esta ocasião, correspondentes de todos os cantos do país viajam para Washington D. C para captarem a primeira fotografia oficial no novo Presidente e relatarem os passos da cerimónia.

O Instituto Poynter ressalvou, contudo, que, este ano, alguns “media” norte-americanos desviaram as atenções de Joe Biden para se focarem na primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente: Kamala Harris.

Assim, muitos jornais regionais quiseram certificar-se de que tanto Biden, como Harris, tinham fotografias na primeira página.

O jornal local “San Francisco Chronicle”, por exemplo, deu destaque a Harris e ao segundo cavalheiro, Douglas Emhoff, ao colocar uma foto de ambos no topo da capa.

O mesmo aconteceu com os jornais do Grupo Hearst, no Estado do Connecticut.

De acordo com Wendy Metcalfe, responsável pela empresa de “media”, esta escolha foi feita para reflectir “o sentimento da comunidade”.

O “Tampa Bay Times”, por sua vez, dedicou toda a primeira página à presidência Biden/Harris.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Investigação e Escrita de Não-ficção
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10:00 @ Cenjor
23
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Westminster Forum Projects: O futuro da BBC
10:00 @ Conferência "online"
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09:00 @ Taipei, Taiwan