
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo?
Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais. Daí que se torne um bocadinho irritante que o conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas se refugie numa espécie de “recordatórias”, enviadas às direções de informação, ora sob a forma de notas ora sob a forma de cartas abertas a pretexto da Covid-19 para, em menos de um mês, alertar repetidamente para que as direções de informação, dos vários meios, velem pelo escrupuloso cumprimento das mais básicas regras da profissão por parte dos seus jornalistas.
É caso para perguntar: esta repetida pedagogia deve-se exactamente a quê? Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo?
Não querem chamar os “bois pelos nomes” e temem que acabemos todos num pântano onde nos afogamos coletivamente reciclados com o lixo das redes sociais? Se sim, cabe informar então que, lamentavelmente, descobriram tarde e o risco é grande. Cada vez maior. Nisso têm toda a razão. No jornalismo como na economia “a má moeda” acaba por eliminar “a boa moeda”. Não é novo e já está a acontecer.
E o público foge e começa a estar farto? Pois. E começa a tomar a parte pelo todo? Sem dúvida. Daí o desafio: não ceder. Não ceder. Não ceder. Escrutinar ainda mais. Não cair na voracidade de ser sempre os primeiros. Não dar voz ao falso, para corrigir de imediato. Em “fact check” logo a seguir as próprias notícias.
Deixar que o público (que pode ser ignorante mas raramente é totalmente parvo) acabe a distinguir as “fake news” das “news”. Lembram-se do “acredite se vir no Expresso!”. Pois, por cá já vão 83 anos de rádio, a escrever-se com dois RRs. Erramos. Claro. Mas é a excepção. Para isso fartamo-nos de trabalhar. Com muito gozo.
E é assim a maioria? Acreditamos. E mesmo sendo assim, a profissão corre riscos? Evidentemente. E a culpa é mesmo nossa. É. Mas, a cada um a sua parte. Aqui não nos apetece carregar às costas a culpa de todos. Bem basta a nossa justa parte. Porque, repito, longe de nós estar isentos de culpas nos erros cometidos diariamente no trabalho que é por definição difícil de nos aproximarmos o mais possível do conteúdo e do tom certo.
A 23 de Março, em plena crise “covíiica” confesso que me passou ao lado a primeira nota do conselho deontológico. Lemos em diagonal a mensagem. Melhor, devemos ter tido aquela visão positiva e achado que valia a pena fazer um alerta geral para recordar que entre mortos e feridos é conveniente não exagerar. A mim especialmente passou-me totalmente ao lado.
Todos nós sabemos que o estilo tablóide, genialmente praticado em Portugal, sobretudo na fórmula televisiva, entre tanta desgraça encontra o clima ideal para puxar às audiências. À comoção óbvia. Ao pânico generalizado. À lágrima fácil. E ao equilíbrio quase impossível entre emoção genuína e sensacionalismo abominável. Quase sempre a balança inclina-se para o lado errado.
O sindicato e o nosso conselho deontológico têm razões para que lhe soem aos ouvidos todos os alarmes. Vale a pena alertar que não vale tudo? Claro.
A Comissão de Carteira talvez possa, também, por uma vez, levantar-se do seu cadeirão e fazer “zapping” para, aqui e ali, ver se as regras do jornalismo não estão a ser estraçalhadas. Talvez já seja altura. Com “covid”, ou sem ele, a dita Comissão servir para mais alguma coisa que não seja cobrar, como diria Durão Barroso, uma “pipa de massa” por cada dia de atraso na renovação dos títulos profissionais e registar a sua suspensão. Mas que tenho eu a ver com isso? Tudo. Porque não somos todos iguais e é efectivamente irritante que quem faz do atropelo profissão não seja, pelo menos, identificado claramente nas “recordatórias”.
Claro que ao conselho deontológico não cabe o papel da ERC. Embora desta também não se veja o que anda a fazer dos seus poderes de penalização dos infractores. É, todavia, manifesto que qualquer intenção de interromper a inércia não passa por ela. Nem agora, nem nunca valha a verdade. Tenho mesmo a vaga impressão de que, naquele órgão “buroco-sentadinho” tudo o que seja agitar as águas é mais cadastro do que currículo.
Gente como Mário Mesquita, a quem devo como professor e depois como diretor, nos primeiros cinco anos da minha carreira, muito do que aprendi e ainda hoje sou, parecem tolerados como uma espécie de sapo engolido pela própria máquina a contragosto. Não se lhes vê a força nem se lhes sente o génio. À casa aplica-se a máxima chinesa:” prego que se destaca, deve ser martelado”.
Não gosto de tanta passividade na regulação do setor. Pergunto, a mim própria, porque é que de repente também não gosto de tanta pró-atividade sindical. De ver, esta espécie de bicos de pés permanente, dos educadores ético-deontológicos. Sobretudo, pergunto-me porque me irritou, sem outro motivo aparente, esta carta aberta de segunda-feira, e não a primeira “recordatória”.
Primeiro, comecei por pensar (mea culpa, mea culpa, mea culpa…) que ali havia coisa. Talvez um excesso de interiorização do discurso da infatigável DGS. O que raio é isto, outra vez? Será que alguém anda aí a empolar o número de mortos? A confrontar, em excesso, autarquias e sites governamentais à caça de contradições? A fomentar divisões em tempo de “união nacional”. Ou seja, temi que se tratasse de uma versão “soft” ao mais puro estilo de “suspenda-se lá por um bocadinho a democracia” e já que a oposição foi de férias reduza-se lá esta mania de “fomentar” o cultivo das fontes alternativas. Supus que o apelo era sobretudo a que, em uníssono, passássemos a falar, a uma só voz, como a Dra. Graça Freitas. Com este mau pensamento estive à beira do chilique. Depois, respirei fundo e percebi que estava a inventar teorias conspirativas influenciada pelo ambiente “covidico”. A mensagem enviada não apelava a nada disso.
O fim do alerta do conselho deontológico era mesmo o oposto. Tratava-se, tão só, de por uma segunda vez, voltar a dizer o já dito. Repetir que cabe mesmo às direções de informação, dos vários órgãos de comunicação, impor o óbvio: a não exploração da desgraça alheia. A não criação de um clima de medo e pânico injustificado junto de uma população já de si fragilizada como nunca esteve até aqui.
Dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade. Sem querermos arvorar-nos em educadores do povo nem em profetas da desgraça. Uma chamada de atenção aos jornalistas para que sejamos isso mesmo. Jornalistas.
Nem pregadores, nem magos, nem uma espécie de Caretos à solta, fora do sítio e do tempo a dançar por entre ruas desertas a espalhar o medo e alimentando-nos do cheiro a morte. Nem agentes de segurança, nem servidores de causa nenhuma, simples prestadores de puro serviço público sem fingir que isso se confunde com a caça às audiências, ou seja, com o “interesse do público”. Sim, para quem não saiba os jornalistas são sempre parte da protecção civil. Não precisam ser requisitados para o efeito.
Porque me irritou então tanto a segunda mensagem do conselho deontológico recebida a dizer mais ou menos isso? Apenas porque não somos todos iguais. Não precisamos todos de puxões de orelhas ou o equivalente. Não reivindicamos nenhum atestado de bom comportamento (não me entendam mal…). Não queremos. Dispensamos. Mas também dispensamos receber recadinhos na caixa de correio que nos parecem bater à porta errada.
Da próxima ou dizem os nomes e as coisas, para ficarmos mais esclarecidos, ou chamam as coisas pelos nomes e só os faltosos enviam as carapuças.
Por esta ainda passa. E já agora desculpem qualquer coisinha… que o teletrabalho é difícil para todos e três empresas, um estudante do 12º ano, e um estagiário confinado, a coexistir no mesmo espaço, tanto tempo, pode sempre toldar-nos a lucidez. Obrigada pela recordatória, querido Conselho. Mas talvez chegue, não?
A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.
Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.
Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.
Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.
Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.
No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.
Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.
Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.
Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.
Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.
Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.
Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.
A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.
Faz cinco anos que começámos este site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.
O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária.
Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.
O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.
Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.