Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Media

A vaga de "infodemia" como consequência do Covid-19

A história da Humanidade ficou marcada por diversas pandemias, que tiveram consequências profundas. Tais acontecimentos marcaram o imaginário de alguns dos mais proeminentes autores da literatura modernas, que tomam acontecimentos trágicos, e absurdos, como a base das suas obras, reflexões e analogias.

Agora, atravessamos uma situação semelhante, mas com uma infinidade de recursos informativos. Nunca tivemos tantas possibilidades de informação e comunicação disponíveis, em momentos de crise e tensão, e  tantos dados e números que ajudam, sem dúvida, nas nossas tentativas de restabelecer o controle sobre a caótica situação. É a vaga da “infodemia”.

Saber o que acontece, as possibilidades envolvidas, as fórmulas para lidar com o risco e com a doença são factores fundamentais. No entanto, esse avanço em relação a outros tempos e ameaças produz, também, efeitos colaterais.

Perante os actuais acontecimentos  que assolam o mundo, o filósofo José Costa teceu considerações sobre algumas das mais conhecidas metáforas da literatura contemporânea, que fazem “ponte” com essa “infodemia”.  O artigo foi, originalmente, publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

“É uma ideia que talvez faça rir, mas a única maneira de lutar contra a peste é a honestidade.” Essas são palavras do médico Bernard Rieux, personagem principal do romance “A peste”, publicado em 1947 pelo filósofo Albert Camus. 

A história narra a chegada e os efeitos de uma peste na cidade de Oran, na Argélia, na década de 1940, relatando as tensões de uma vida ameaçada pela invisibilidade violenta da epidemia.

O franco-argelino Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957, aborda as diversas reações humanas frente à ameaça na cidade isolada em quarentena, entre elas o medo, o egoísmo mais mesquinho e a irracionalidade que brota em cenários de tanta incerteza e ameaça. 

Quando vivenciamos tempos de pandemia, compartilhamos os assombros daqueles que vivem na cidade de Oran. O desespero que sentimos face à contaminação deixam-nos “pouco à vontade na vida”. Nesse sentido, de maneira geral, o reconhecimento de nossa fragilidade na incerteza em relação ao que virá são os traços distintivos da vida durante a pandemia. 

Juntamente com a  pandemia, vivenciamos, contudo, tempos de “infodemia”, uma superabundância de informações, algumas precisas, outras não, que estimulam os sentimentos mais profundos. 

Na demanda pela segurança e estabilidade, procuramos, constantemente, mais certezas, mais possibilidades de organizar o caótico cenário, seja através das redes sociais, seja através de meios de comunicação. E isso espoleta, ainda mais, a ansiedade.

Ao acompanhar os boletins, com o número de casos suspeitos, de mortos e de curados, criamos mais tensões e expectativas. As notícias falsas e a desinformação podem contaminar o ecossistema informativo. Dados e informações questionáveis podem ser utilizados com o objectivo de estimular reacções ou angariar apoio para algum tipo de posicionamento. 

Para o autor é, então, imperioso aprender a lidar com esse paradoxo. É difícil prever como podemos reagir, mas o fundamental aqui parece ser seguir o conselho de Rieux: ser honesto e cuidadoso, conscientes de que o desespero pode trazer à tona o pior de nós mesmos. 

Um dia, a peste vai passar e a epidemia vai embora. Quando isso acontecer, lembrar-nos-emos do que fizemos e de como reagimos. A melhor expectativa que podemos ter, aqui, é que a epidemia não estimule as nossas reacções mais violentas nem nos entregue ao terror, o que empalidece a nossa razão. Um risco de fundo é que a peste (nesse caso, a metafórica) possa instalar-se sem que nós tenhamos consciência disso.

Leia o artigo original em Observatório da Imprensa

 

Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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