Quarta-feira, 2 de Dezembro, 2020
Media

A era digital veio complicar a narrativa jornalística

A era digital e a revolução tecnológica vieram alterar o panorama do jornalismo. Se, anteriormente, os jornalistas apenas tinham de  preocupar-se com o conteúdo produzido na redacção onde trabalhavam, hoje, terão de manter-se competitivos com outras plataformas, e escrever com base nos artigos de outros jornais.

Muitos jornalistas, da chamada “velha guarda”, ainda não  conseguiram adaptar-se à nova realidade, e continuam a depender de uma cultura profissional baseada num jornalismo linear e sequencial, o que impede, por vezes, a tão desejada diversidade dos formatos de apresentação informativa.

O jornalista Carlos Castilho, especializado em “media” digitais, escreveu um artigo para o “Observatório da Imprensa”, no qual reflecte sobre a urgência de adaptação aos novos modelos. 

De acordo com Castilho, hoje, o  jornalismo tende a ser praticado num conjunto de plataformas integradas, onde o sucesso de uma depende do êxito das demais. As novas tecnologias de informação e da comunicação geraram, igualmente, uma violenta concorrência pela atenção dos leitores.

A narrativa jornalística, antes submetida a uma “camisa de forças”, pelas limitações das tecnológicas, pode, agora, assumir diferentes formas. Alguns projectos jornalísticos já exploram, inclusive, a apresentação de dados, factos e eventos em formato de jogos “online”.

Da mesma forma, o jornalista deixou de ser a referência exclusiva em matéria de desenvolvimento de narrativas. Actualmente, os profissionais estão condicionados por novos actores nos processos informativos, entre os quais programadores, gestores de redes sociais e produtores de conteúdo multimédia. Todos esses agentes passaram a interferir, directa ou indirectamente, no desenvolvimento de um discurso jornalística, limitando o papel do repórter ou editor.

A herança da era analógica do jornalismo levou muita “boa gente”  a apostar, inocentemente, na integração de redes sociais, no “site” dos “media”, afirma Castilho. O objectivo era conduzir o público do Facebook a conteúdos noticiosos, mas a iniciativa fracassou.

Muitos jornais acharam, que se incorporassem o Facebook à sua plataforma de publicação de notícias, o fluxo de visitantes aumentaria. O esquema não funcionou, visto que as partes envolvidas estavam mais interessadas em captar leitores, do que numa cooperação editorial. Além disso, estava em causa a questão financeira e a divisão da faturação publicitária.

Para produzirem notícias e disputarem a atenção do público, os editores devem, agora, montar uma página “web”, criar uma conta no Twitter, ter um conta no Facebook e no YouTube. A notícia deverá ser distribuída entre plataformas, em versões diferentes, para aproveitar as vantagens disponibilizadas por cada uma delas. Assim, o exercício do jornalismo na era digital tende a ser  mais complexo, visto que as notícias já não são lineares.

Se, por um lado, a complexidade noticiosa vai exigir muita sensibilidade social e capacidade de ligar informações, por outro, o resultado do trabalho dos profissionais envolvidos na produção de uma notícia terá a capacidade de gerar um envolvimento muito maior do que na era do papel. 

Connosco
Crescimento das assinaturas digitais não compensa as perdas na circulação impressa Ver galeria

A pandemia veio agravar a crise dos “media”, já que modificou os hábitos de consumo dos cidadãos e demonstrou a necessidade de alterar o modelo de negócio tradicional, assente, sobretudo, em receitas publicitárias.

Perante este novo contexto, o Obercom analisou as diferenças registadas, entre 2019 e 2020, na imprensa portuguesa, de forma a traçar um possível futuro para o sector, tendo em conta a aceleração das marcas digitais.

Para tal, foram analisadas doze publicações -- “Correio da Manhã”, “Jornal de Notícias”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso”, “Visão”, “Sábado”, “Jornal de Negócios”, “Jornal Económico”, “Record”, “O Jogo” e “Courrier Internacional”.

Em primeira instância, constatou-se que, tanto o volume de circulação paga, como o volume de tiragens, tem sofrido quedas sustentadas ao longo dos últimos anos. O volume de tiragens também diminuiu, acompanhando o ritmo de quebra das vendas em banca.

Em relação ao índice de Eficiência das publicações -- que resulta do rácio entre tiragens e circulação impressa paga -- verifica-se que os semanários “Expresso” e “Visão” são aqueles que apresentam os valores mais altos. Em posição contrária estão o “Jornal Económico” e o “Jornal de Negócios”.

No que respeita ao digital, o crescimento das assinaturas não tem sido suficiente para colmatar as perdas no papel.

Movimento de jornalistas franceses contra nova Lei de Segurança Ver galeria

Nos últimos meses, a liberdade de imprensa em França tornou-se um tema de debate, devido à aprovação da Lei de Segurança Global, recordou o jornalista Rui Martins num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Entre outros pontos, a Lei de Segurança Global estabelece restrições à divulgação de imagens dos membros das forças policiais e militares, o que, para os franceses, constitui um acto de censura.

Segundo indicou Martins, este “controlo de imagem”, previsto no artigo 24, é subtil e mal intencionado, já que visa proteger as autoridades, em caso de utilização excessiva da força.

Até porque, de acordo com o documento, será punido o fotógrafo, o operador de imagem ou o cidadão que captar e difundir imagens das forças da autoridade. A pena pode ir até aos 45 mil euros e um ano de prisão.

Além disso, não havendo prova visual, os autores de tais denúncias poderiam ser processados.

Perante este quadro, um grupo de editores executivos franceses reafirmou, em comunicado, o seu compromisso com a lei da liberdade de imprensa de 1881 e garantem que estarão vigilantes para assegurar o seu cumprimento.

A defesa do anonimato dos polícias franceses foi, ainda, questionada pelas próprias televisões francesas, que mostraram imagens de agentes ingleses e alemães, com suas identificações bem visíveis nos próprios uniformes.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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