Sexta-feira, 10 de Abril, 2020
Media

Onde se defende em Espanha o jornalismo "cor-de-rosa"

O jornalismo “cor-de-rosa” é irresistível para o público, que consome os seus conteúdos em qualquer formato. Os “fait divers” abordam temas que são transversais à sociedade, tais como a morte, o amor, o ciúme, a ambição e o medo que despertam empatia quase imediata.

Este tipo de jornalismo é, contudo, especialmente criticado, agora que as redes sociais abriram um fórum de discussão e de críticas entre profissionais.

 Manuel Marlasca trabalha como repórter “cor-de-rosa” há mais de 30 anos, e é autor de um artigo sobre a descredibilização deste tipo de trabalho, publicado nos "Cuadernos de Periodistas" , uma edição da APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

 Durante os anos da ditadura franquista, os jornais generalistas viviam de crónicas criminais, "porque não se podia falar de política”. Com o fim do regime de Franco, a liberdade de imprensa chegou e as páginas dos “media” encheram-se de assuntos parlamentares, embora o “cor-de-rosa” continuasse a ocupar espaço. 

Hoje, o “fait divers” mobiliza um importante segmento de leitores, o que, em certa medida, decepciona os responsáveis editoriais, que gostariam de valorizar mais os assuntos sérios.


Marlasca reconhece que há motivos para criticar as reportagens “cor-de-rosa” mas considera que quem o faz, muitas vezes, não tem a experiência nem o estatuto para o fazer. O autor destaca que, com o aparecimento da televisão, muito conteúdo informativo se começou a confundir com entretenimento.Os jornalistas passaram a revelar informações litigiosas e perderam a consideração pelos envolvidos, em prole das audiências.

 

“É nos casos que envolvem menores que o jornalista responsável pela cobertura do evento deve praticar a autocensura e ser exigente consigo mesmo, estabelecendo um compromisso com a factualidade”, reitera Marlasca.

 

O autor considera, porém, que os jornalistas da imprensa “tablóide” desempenham tarefas não partilhadas por outros profissionais, ao procurarem dar voz “à dor das famílias”, com “respeito e empatia”. “Estamos disponíveis a qualquer hora e em qualquer dia da semana, porque a morte e a tragédia não tiram férias”.

 

Além disso, esses jornalistas trabalham, directamente, com “fontes extremamente frágeis e exigentes, que não toleram deslizes na relação estabelecida”. “Nenhum outro género jornalístico exige tantos cuidados. Nenhuma outra manchete ou exclusivo pode prejudicar, da mesma forma, uma investigação judicial ou a vida de um suspeito”.

 

“Ser um bom repórter requer muita empatia. Com as fontes, para entender o que está em jogo quando têm acesso a revelações, e com as vítimas, que não deveriam ter que passar por uma segunda vitimização”. Marlasca sublinha, porém, que devem ser impostos limites, visto que, “o profissionalismo exige distância”. 

O jornalista reconhece, ainda, que é essencial ganhar a confiança das autoridades, que, por norma, não têm simpatia por esses profissionais. “Conquistar as forças de autoridade pode demorar anos, mas para perder o seu apoio, basta um pequena incongruência”.


O autor considera, assim, que os bons jornalistas envolvidos em termos “cor-de-rosa” são “exemplares excepcionais na fauna do jornalismo, verdadeiras aves raras”. E sublinha que “poucos reconhecem a escravidão de trabalhar para um género que é, constantemente, questionado e que exige mais dedicação e zelo do que qualquer outro. Muito antes de haver verificação de factos, nós jornalistas de eventos, fomos forçados a conferir as histórias que contamos contra duas, três, ou mais fontes, devido à sensibilidade do conteúdo”.

Marlasca lamenta, então, que os directores dos “media” não contribuam para a “conservação da espécie”, ao substituir os repórteres especializados por “mão-de-obra mais barata”, esperando que o produto final não sofra. “Somos caros, veteranos e dispomos de um punhado de códigos de outros tempos, que não se encaixam bem em redacções modernas”.

Leia a peça na íntegra em Cuadernos de Periodistas


Connosco
Associações apelam em Espanha para governo apoiar os “media” Ver galeria

Em Espanha, os “media” estão a atravessar dificuldades, espoletadas pelas quebras na publicidade e na circulação. Várias associações do sector apelaram, mesmo, ao governo, visando a elaboração de um plano de apoio.

Perante esta situação, a Associação Espanhola de Ética e Filosofia Política, solidária com a situação da imprensa no país, criou um documento de medidas que considera oportunas para a sustentabilidade do sector mediático.


Em resumo, a referida carta diz o seguinte:


“A Associação Espanhola de Ética e Filosofia Política pede ao governo que compense a perda de receitas e dos custos da manutenção de uma actividade essencial, nas actuais circunstâncias.
Semanas depois de terem sido decretadas medidas para a contenção da pandemia da COVID-19, a situação dos media é crítica.

Fundo de informação nos EUA faz doação para apoiar jornais Ver galeria

Os “media” estão a ressentir-se dos efeitos da crise, desencadeada pela epidemia de covid-19. Alguns jornais estão, mesmo, a fechar portas, devido à quebra nas receitas, que impede o pagamento de salários aos colaboradores, deixando várias comunidades sem meios de informação local.

Contudo, têm surgido várias vagasde solidariedade, por parte de entidades que consideram essencial o trabalho jornalístico, numa altura em que a população carece de notícias para se manter informada e segura.

Assim, um conjunto de associações norte-americanas doou 2,5 milhões de dólares ao Fundo de Informação Comunitária de Covid-19, sediado no Estado da Pensilvânia.

Criado pela IPMF -- Independence Public Media Foundation, em conjunto com outras fundações que apoiam os “media”,  o Fundo de Informação Comunitária de Covid-19 irá apoiar uma vasta gama jornais e de organizações comunitárias, que fornecem informações locais sobre a disseminação do vírus.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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18
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09:30 @ Universidade Lusófona
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