Segunda-feira, 17 de Fevereiro, 2020
Media

Onde se defende em Espanha o jornalismo "cor-de-rosa"

O jornalismo “cor-de-rosa” é irresistível para o público, que consome os seus conteúdos em qualquer formato. Os “fait divers” abordam temas que são transversais à sociedade, tais como a morte, o amor, o ciúme, a ambição e o medo que despertam empatia quase imediata.

Este tipo de jornalismo é, contudo, especialmente criticado, agora que as redes sociais abriram um fórum de discussão e de críticas entre profissionais.

 Manuel Marlasca trabalha como repórter “cor-de-rosa” há mais de 30 anos, e é autor de um artigo sobre a descredibilização deste tipo de trabalho, publicado nos "Cuadernos de Periodistas" , uma edição da APM, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

 Durante os anos da ditadura franquista, os jornais generalistas viviam de crónicas criminais, "porque não se podia falar de política”. Com o fim do regime de Franco, a liberdade de imprensa chegou e as páginas dos “media” encheram-se de assuntos parlamentares, embora o “cor-de-rosa” continuasse a ocupar espaço. 

Hoje, o “fait divers” mobiliza um importante segmento de leitores, o que, em certa medida, decepciona os responsáveis editoriais, que gostariam de valorizar mais os assuntos sérios.


Marlasca reconhece que há motivos para criticar as reportagens “cor-de-rosa” mas considera que quem o faz, muitas vezes, não tem a experiência nem o estatuto para o fazer. O autor destaca que, com o aparecimento da televisão, muito conteúdo informativo se começou a confundir com entretenimento.Os jornalistas passaram a revelar informações litigiosas e perderam a consideração pelos envolvidos, em prole das audiências.

 

“É nos casos que envolvem menores que o jornalista responsável pela cobertura do evento deve praticar a autocensura e ser exigente consigo mesmo, estabelecendo um compromisso com a factualidade”, reitera Marlasca.

 

O autor considera, porém, que os jornalistas da imprensa “tablóide” desempenham tarefas não partilhadas por outros profissionais, ao procurarem dar voz “à dor das famílias”, com “respeito e empatia”. “Estamos disponíveis a qualquer hora e em qualquer dia da semana, porque a morte e a tragédia não tiram férias”.

 

Além disso, esses jornalistas trabalham, directamente, com “fontes extremamente frágeis e exigentes, que não toleram deslizes na relação estabelecida”. “Nenhum outro género jornalístico exige tantos cuidados. Nenhuma outra manchete ou exclusivo pode prejudicar, da mesma forma, uma investigação judicial ou a vida de um suspeito”.

 

“Ser um bom repórter requer muita empatia. Com as fontes, para entender o que está em jogo quando têm acesso a revelações, e com as vítimas, que não deveriam ter que passar por uma segunda vitimização”. Marlasca sublinha, porém, que devem ser impostos limites, visto que, “o profissionalismo exige distância”. 

O jornalista reconhece, ainda, que é essencial ganhar a confiança das autoridades, que, por norma, não têm simpatia por esses profissionais. “Conquistar as forças de autoridade pode demorar anos, mas para perder o seu apoio, basta um pequena incongruência”.


O autor considera, assim, que os bons jornalistas envolvidos em termos “cor-de-rosa” são “exemplares excepcionais na fauna do jornalismo, verdadeiras aves raras”. E sublinha que “poucos reconhecem a escravidão de trabalhar para um género que é, constantemente, questionado e que exige mais dedicação e zelo do que qualquer outro. Muito antes de haver verificação de factos, nós jornalistas de eventos, fomos forçados a conferir as histórias que contamos contra duas, três, ou mais fontes, devido à sensibilidade do conteúdo”.

Marlasca lamenta, então, que os directores dos “media” não contribuam para a “conservação da espécie”, ao substituir os repórteres especializados por “mão-de-obra mais barata”, esperando que o produto final não sofra. “Somos caros, veteranos e dispomos de um punhado de códigos de outros tempos, que não se encaixam bem em redacções modernas”.

Leia a peça na íntegra em Cuadernos de Periodistas


Connosco
Imprensa britânica preocupada com regulação do “Ofcom” Ver galeria

A imprensa britânica teme que o controlo de conteúdos “online” pelo Ofcom constitua uma tentativa governamental de condicionar a liberdade de imprensa. O “The Daily Mail”, a título de exemplo, argumenta que a nova lei "pode levar à censura estatal".


Vários outros “media” estão, agora, em campanha para que a regulamentação do Ofcom se cinja a empresas tecnológicas, como o Facebook e o Google, e não se alargue à imprensa “online”. Os directores dos jornais receiam, igualmente, que a acção da entidade reguladora impeça a partilha de algumas das suas notícias mais “chocantes”.


A NMA -- News Media Association, organização que representa a maioria dos jornais britânicos, já expressou, igualmente, o seu desagrado face à proposta governamental e prometeu lutar pela garantia da “isenção explícita, em qualquer legislação, para editores e jornalistas", que são, afinal, mediadores da democracia.

O alastramento do coronavirus pode provocar um "infodemia" Ver galeria

As editoras científicas de todo o mundo concordaram em partilhar, de forma gratuita, informações sobre o novo coronavírus que, de outra forma, estariam escondidas atrás das “paywalls”. Assim, dados cruciais sobre a epidemia estão a ser divulgados mas, segundo a jornalista  Roxana Tabakman , não da melhor forma.

Tabakman é especializada em jornalismo científico e da saúde e, num artigo para o “Observatório da Imprensa” (associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria), teceu críticas às reportagens que têm sido publicadas sobre a doença.

Se, por um lado, há jornalismo sério que contribui para o conhecimento e para a saúde pública, por outro, existem repórteres sensacionalistas que desejam, apenas, conquistar audiências.
O jornalista científico Carlos Orsi descreveu, mesmo, a situação como um “ciclo perverso”: “a cobertura incessante  gera uma sensação de urgência e alimenta uma curiosidade do público que, na ausência de factos novos, não encontra alívio ou satisfação, mas redundância e tédio. Isso incentiva rumores que, por sua vez, justificam a reiteração redundante do que já se sabe".

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...
Agenda
11
Mar
O cinema e a televisão como "forma de futuro"
15:00 @ Universidade Lusófona
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona