Segunda-feira, 17 de Fevereiro, 2020
Opinião

Porque é que (ainda) vale a pena anunciar na imprensa?

por Manuel Falcão

O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos valores médios. Um outro estudo, realizado nos Estados Unidos, indica que os leitores da imprensa diária têm maior capacidade económica e um nível de escolaridade superior. O mesmo trabalho, Media Audience Demographics, indica que de entre os seis meios estudados, os jornais de informação tinham a maior percentagem de consumidores com capacidade económica elevada.


Voltando a Portugal, o mesmo Bareme da Marktest indica que os leitores de imprensa têm um perfil sociodemográfico que indica maior capacidade financeira que a média da população. Com efeito o estudo indica que entre os leitores de imprensa se destacam indivíduos entre 35 e 54 anos, trabalhadores especializados e pequenos proprietários, assim como os indivíduos das classes mais elevadas. Este conjunto é quem tem mais afinidade com o meio, apresentando índices de audiência média de imprensa superiores ao universo, mais 40% no caso dos indivíduos da classe alta. Ainda segundo o mesmo estudo, a audiência média de imprensa neste período foi de 50.3%, ou seja, a percentagem de portugueses que leu ou folheou a última edição de um qualquer título de imprensa estudado no Bareme Imprensa - num total de 4, 3 milhões de pessoas. Analisando com maior detalhe verifica-se que os jornais registaram 2,5 milhões de leitores neste período enquanto as revistas contaram com 3,3 milhões de leitores.

Nos últimos anos têm sido realizados vários estudos à volta desta questão e, de uma forma geral, a conclusão é semelhante: os leitores de jornais têm mais recursos financeiros, maior grau de ensino e mais velhos que os demais consumidores de mídia. No capítulo da idade tem-se verificado que à medida que as edições digitais se aperfeiçoam e vulgarizam, os títulos tradicionais de imprensa têm conseguido, nas suas edições online, atrair um público mais novo.

Se analisarmos com atenção o fluxo noticioso dos diversos mídia constatamos que uma enorme parte das notícias relevantes sobre o funcionamento das nossas sociedades nasce de artigos escritos em jornais, quer em papel quer online. O jornalismo escrito continua a ser um poderso meio de comunicação. Não é por acaso que marcas de prestígio continuam a apostar na imprensa para reforçar a sua notoriedade e para tocarem segmentos que se estão a afastar de outros meios, como a televisão generalista, que hoje em dia já é vista por metade da audiência global de TV.

Por outro lado as empresas detentoras de jornais de refrência têm procurado desenvolver metodologias que garantam maior legibilidade às suas publicações, nomeadamente online, o que tem permitido captar novos públicos. A sofisticação tecnológica colocada nas edições digitais tem permitido canalizar leitores para os temas que são do seu maior interesse, de acordo com os hábitos de leitura verificados. E as campanhas de assinaturas têm trazido também um número crescente de leitores que querem ter acesso às edições integrais e se dispõem a pagar por isso. Estas são boas notícias para o jornalismo, uma actividade cada vez mais ligada à defesa da democracia e à garantia de sociedades plurais. O jornalismo é um garante  da reflexão sobre as políticas que são seguidas, debate sobre as mudanças necessárias, além de ter um papel único como guardião da História e meio de responsabilização dos diversos poderes.

Connosco
Imprensa britânica preocupada com regulação do “Ofcom” Ver galeria

A imprensa britânica teme que o controlo de conteúdos “online” pelo Ofcom constitua uma tentativa governamental de condicionar a liberdade de imprensa. O “The Daily Mail”, a título de exemplo, argumenta que a nova lei "pode levar à censura estatal".


Vários outros “media” estão, agora, em campanha para que a regulamentação do Ofcom se cinja a empresas tecnológicas, como o Facebook e o Google, e não se alargue à imprensa “online”. Os directores dos jornais receiam, igualmente, que a acção da entidade reguladora impeça a partilha de algumas das suas notícias mais “chocantes”.


A NMA -- News Media Association, organização que representa a maioria dos jornais britânicos, já expressou, igualmente, o seu desagrado face à proposta governamental e prometeu lutar pela garantia da “isenção explícita, em qualquer legislação, para editores e jornalistas", que são, afinal, mediadores da democracia.

O alastramento do coronavirus pode provocar um "infodemia" Ver galeria

As editoras científicas de todo o mundo concordaram em partilhar, de forma gratuita, informações sobre o novo coronavírus que, de outra forma, estariam escondidas atrás das “paywalls”. Assim, dados cruciais sobre a epidemia estão a ser divulgados mas, segundo a jornalista  Roxana Tabakman , não da melhor forma.

Tabakman é especializada em jornalismo científico e da saúde e, num artigo para o “Observatório da Imprensa” (associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria), teceu críticas às reportagens que têm sido publicadas sobre a doença.

Se, por um lado, há jornalismo sério que contribui para o conhecimento e para a saúde pública, por outro, existem repórteres sensacionalistas que desejam, apenas, conquistar audiências.
O jornalista científico Carlos Orsi descreveu, mesmo, a situação como um “ciclo perverso”: “a cobertura incessante  gera uma sensação de urgência e alimenta uma curiosidade do público que, na ausência de factos novos, não encontra alívio ou satisfação, mas redundância e tédio. Isso incentiva rumores que, por sua vez, justificam a reiteração redundante do que já se sabe".

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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11
Mar
O cinema e a televisão como "forma de futuro"
15:00 @ Universidade Lusófona
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona