Segunda-feira, 17 de Fevereiro, 2020
Opinião

Graves ameaças à BBC News

por Francisco Sarsfield Cabral

A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.
Ora a BBC News enfrenta, agora, graves ameaças. As mais sérias das últimas quatro décadas, segundo a sua nova diretora, Frans Unsworth (o seu antecessor demitira-se por causa dessas ameaças). 

Os cortes no orçamento da BBC, em particular na área noticiosa, levam ao despedimento de 450 pessoas. E o primeiro-ministro Boris Johnson é crítico do regime de financiamento da estação, que é em boa parte paga pelo Estado, ou seja, pelo dinheiro dos contribuintes (mas não tem publicidade, ao contrário do que se passa em Portugal com a RTP). Quer isto dizer que o dinheiro disponível para a BBC News ainda poderá diminuir bastante mais nos próximos tempos.

 

Boris Johnson não considera a BBC News politicamente independente. Chamou-lhe, até, Brexit Bashing Corporation, por, na sua opinião, ter sido demasiado crítica do Brexit. O sentimento de que a BBC não é imparcial é predominante entre os conservadores, que também acusam a estação de ser “arrogante e preguiçosa”, nas palavras de um deputado.    

 

É verdade que sondagens indicam que a BBC se dirige sobretudo a pessoas com bom grau de educação e mais ricas do que a média. A nova diretora da BBC News disse que a estação tem que encarar a evolução nas audiências (ou seja, falar mais para classes menos educadas e menos ricas) e que deve dar prioridade ao digital. 

 

Algumas críticas à BBC News poderão, porventura, ser justificadas. Talvez seja demasiado politicamente correta. Não posso fazer um juízo fundamentado sobre tais acusações, pois não oiço nem vejo frequentemente a BBC. Mas receio que Boris queira uma BBC obediente ao poder político, o que seria trágico.

 

A SIC transmitiu, há dias, uma reportagem da BBC sobre os “Luanda Leaks”. Feita em Angola, essa reportagem mostrava o contraste escandaloso entre o poder económico de Isabel dos Santos, à custa do seu povo, e as condições miseráveis em que grande parte desse povo vive. Um trabalho jornalístico sério, acessível a qualquer um e que honra a BBC News. Este exemplo mostrou a qualidade jornalística de uma estação que, mesmo com os cortes orçamentais previstos, permanecerá, de longe, a maior organização noticiosa da Europa, segundo o “Financial Times”  

 

 

Francisco Sarsfield Cabral

Connosco
Imprensa britânica preocupada com regulação do “Ofcom” Ver galeria

A imprensa britânica teme que o controlo de conteúdos “online” pelo Ofcom constitua uma tentativa governamental de condicionar a liberdade de imprensa. O “The Daily Mail”, a título de exemplo, argumenta que a nova lei "pode levar à censura estatal".


Vários outros “media” estão, agora, em campanha para que a regulamentação do Ofcom se cinja a empresas tecnológicas, como o Facebook e o Google, e não se alargue à imprensa “online”. Os directores dos jornais receiam, igualmente, que a acção da entidade reguladora impeça a partilha de algumas das suas notícias mais “chocantes”.


A NMA -- News Media Association, organização que representa a maioria dos jornais britânicos, já expressou, igualmente, o seu desagrado face à proposta governamental e prometeu lutar pela garantia da “isenção explícita, em qualquer legislação, para editores e jornalistas", que são, afinal, mediadores da democracia.

O alastramento do coronavirus pode provocar um "infodemia" Ver galeria

As editoras científicas de todo o mundo concordaram em partilhar, de forma gratuita, informações sobre o novo coronavírus que, de outra forma, estariam escondidas atrás das “paywalls”. Assim, dados cruciais sobre a epidemia estão a ser divulgados mas, segundo a jornalista  Roxana Tabakman , não da melhor forma.

Tabakman é especializada em jornalismo científico e da saúde e, num artigo para o “Observatório da Imprensa” (associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria), teceu críticas às reportagens que têm sido publicadas sobre a doença.

Se, por um lado, há jornalismo sério que contribui para o conhecimento e para a saúde pública, por outro, existem repórteres sensacionalistas que desejam, apenas, conquistar audiências.
O jornalista científico Carlos Orsi descreveu, mesmo, a situação como um “ciclo perverso”: “a cobertura incessante  gera uma sensação de urgência e alimenta uma curiosidade do público que, na ausência de factos novos, não encontra alívio ou satisfação, mas redundância e tédio. Isso incentiva rumores que, por sua vez, justificam a reiteração redundante do que já se sabe".

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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