Sábado, 23 de Janeiro, 2021
Colectânea

Relatório coloca Portugal a meio da tabela da desinformação

Foi publicado o relatório “Fake News em ano eleitoral – Portugal em linha com a UE” que assinala a entrada definitiva das notícias falsas nas preocupações dos governantes em Portugal.

A posição do país no combate à desinformação parece ser reactiva, limitando-se a apoiar as posições assumidas pela União Europeia, sem acrescentar mais nada. 

O relatório, iniciativa do Obercom, explica o trabalho realizado pela União Europeia e em Portugal para lidar com este desafio, tentando, também, caracterizar o fenómeno.  

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu. 

Segundo os dados apresentados, o país revela, também, um crescimento do consumo de notícias, através das redes sociais, e uma maior falta de confiança nos conteúdos informativos.

O relatório problematiza, ainda, os riscos da desinformação durante as campanhas eleitorais, bem como possíveis soluções para o problema, como é o caso do fact-checking, da literacia mediática ou do jornalismo colaborativo. 

São, também, apresentados os dados do Digital News Report de 2019, que analisam as práticas de consumo de notícias dos portugueses e o seu impacto na desinformação.

A posição de Portugal sobre a desinformação limita-se ao apoio das posições assumidas pela União Europeia. 

 

Note-se, entretanto, que num estudo da ERC, realizado a pedido do presidente da Assembleia da República, foi reconhecida “a dificuldade de intervenção devido à indefinição dos limites do ambiente online e à ausência de competências específicas, reclamando uma maior visibilidade para o número de registo da ERC para que os utilizadores online tenham maior facilidade em identificar as fontes de notícias credíveis”. Assim, a ERC recomendou que o problema fosse abordado e assegurasse maiores poderes ao regulador.

 

Por seu lado, o relatório do Obercom analisou a percepção das fake news em Portugal, concluindo que existem duas ideias erradas: que a desinformação não tem expressão no país e que, a existir, não tem objectivos políticos.

 

A estratégia de desinformação em Portugal é mais centrada na difamação e ataque pessoal, aproximando-se mais do Brasil do que dos países europeus.

 

Os conteúdos de desinformação analisados apresentam “uma menor saliência da questão migratória – ao contrário daquilo que sucede na maioria dos países ocidentais – que contrasta com o maior relevo da corrupção política, nepotismo e promiscuidade dos detentores de cargos públicos”. 

 

Esta conclusão sobre o fenómeno em Portugal tem por base o trabalho realizado pelo MediaLab do ISCTE-IUL, que monitorizou a desinformação no Facebook e no WhatsApp

 

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu, reforçando que a desinformação em Portugal “é uma realidade e tem dimensão suficiente para enviesar percepção da opinião pública acerca da veracidade da informação e assim diminuir a qualidade da nossa democracia”. 

 

Desta forma, os riscos de desinformação, em contexto eleitoral, são reais, mas o estudo defende que “a urgência em intervir não deve conduzir a medidas arbitrárias no plano governamental, típicas de regimes não democráticos. A Freedom House afirma mesmo que tal como «terrorismo» também o termo «fake news» tem sido cooptado por líderes autoritários para justificar repressão a dissidentes”.

 

As campanhas de desinformação em Portugal existem e seguem um modelo de difusão online. A desinformação é difundida através de páginas “enganadoras” de órgãos de comunicação, de grupos nas redes sociais e de perfis falsos. No caso português está, ainda, por confirmar a utilização de processos automatizados por robôs digitais (bots).

 

O relatório revelou, igualmente, que, em Portugal, a confiança em notícias é alta, mas tem diminuído, principalmente na Internet, verificando-se uma menor utilização deste meio como fonte principal de notícias. 

 

Em 2019, a veracidade dos conteúdos online inquieta três em cada quatro portugueses (74.7%), sendo que a mediatização do fenómeno das fake news e a desinformação, surgem como um problema público, minando a confiança nas notícias.

 

A crescente digitalização das práticas de consumo dos portugueses é reflectida no facto de cerca de 4/5 das pessoas utilizarem tanto a Televisão como a Internet como fonte de notícias. A Imprensa e a Rádio apresentam valores que rondam os 35%. 

 

Todavia, apesar do crescimento dos meios digitais face aos tradicionais, a Televisão continua a ser a principal forma de acesso à informação (58%), seguindo-se a Internet (30.9%), a Rádio (5.8%) e, por último, a Imprensa (3.8%).

 

O relatório revela, ainda, uma situação preocupante: existem cada vez mais pessoas a evitar o consumo de notícias, sendo que 65,9% o fazem pelo menos ocasionalmente. 

 

Aproximadamente 40% dos inquiridos demonstrou cansaço face à quantidade de notícias com que se deparam, criticando o tom escolhido no seu tratamento. 

 

O consumo de notícias através das redes sociais verificou, também, um aumento, principalmente através de apps de mensagens, como é o caso do Whatsapp.

 

Facebook é a rede social mais utilizada pelos portugueses (76.9%), sendo a mais usada para consumo de notícias (52.9%). O acesso a notícias através do site ou de aplicações noticiosas registou uma quebra.

 

Assim, as redes sociais são hoje, para mais de ¼ da população (26.3%), a forma de acesso preferida a notícias online, pois apenas 1/5 da população acede como primeira opção a aplicações ou sites de notícias.

 

“Metade dos portugueses inquiridos afirma que consulta fontes alternativas para verificar se um dado acontecimento está a ser noticiado da mesma forma (51.1%), sendo também comum decidir não partilhar uma notícia por desconhecimento acerca da fiabilidade da cobertura noticiosa (43.1%). Ainda assim, um em cada dez portugueses admite não ter qualquer atitude em relação a conteúdos suspeitos.”

 

A organização alerta para o facto de os “conteúdos simplificados numa imagem ou trecho de vídeo, quando não acompanhados da notícia que fornece o contexto, serem em si uma fonte de desinformação que é necessário evitar”.

 

Uma forma de combate contra a desinformação é o fact checking, que existe em dois modelos, o newsroom model e o independent NGO model. A distinção deve-se às diferenças dos sistemas político-mediáticos. 

 

newsroom model representa organizações de fact-checking associadas aos meios de comunicação social previamente existentes (legacy media). O modelo independente NGO model, mais concentrado no sul e leste da Europa, resulta da formação de organizações não governamentais para projectos, tendo uma maior independência editorial.

 

Apesar de constituírem uma excelente forma de fazer face à desinformação, os fact checkers podem ter algumas limitações, devidas a tentativas de instrumentalização por grupos coordenados para credibilizar determinadas notícias, eventualmente de interesse político.

 

Outro meio de combate à desinformação é o aumento da literacia mediática, pois permite desenvolver a capacidade de os cidadãos reconhecerem e identificarem notícias falsas.

 

“Um índice construído para medir a literacia mediática na Europa, usando indicadores de liberdade dos media, educação e confiança, revela que os países nórdicos (Finlândia e Dinamarca) são os mais resilientes ao impacto da desinformação, estando os países dos Balcãs (como a Macedónia ou a Albânia) no extremo oposto. Portugal aparece um pouco acima do meio da tabela, em 15º lugar entre os 35 avaliados, sendo que o pior indicador é a percentagem de população com ensino superior.” 

 

O jornalismo colaborativo é outro caso que também surgiu como resposta ao combate da desinformação. Este tipo de jornalismo promove as relações entre profissionais do sector, através da procura conjunta de soluções para o financiamento e estabilidade económica e de iniciativas comuns.

 

Mais informação em Obercom.

Connosco
Directores dos principais "media" insurgem-se contra vigilância do Ministério Público a jornalistas Ver galeria

Os directores de informação de todos os principais “media” nacionais subscreveram um documento conjunto, em que criticaram a vigilância policial exercida sobre jornalistas.

Num documento onde se invocaram os artigos da Constituição que protegem a Liberdade de Imprensa, assim como as leis que a tutelam e o Estatuto do Jornalista, os responsáveis editoriais insurgiram-se contra o comportamento de magistrados do Ministério Público, que não passou pelo crivo de qualquer magistrado judicial.
O documento foi enviado ao Presidente da República, presidente da Assembleia da República, assim como aos presidentes da 1ª Comissão da AR e aos diferentes Grupos Parlamentares, presidentes do Tribunal Constitucional, Supremo Tribunal de Justiça e Conselho Superior da Magistratura, além da Procuradora-Geral da República, Provedora de Justiça e Bastonário da Ordem dos Advogados.

O texto integral subscrito pelos directores de informação é do seguinte teor:


Kamala Harris foi a “estrela” dos “media” nos EUA Ver galeria

O dia da tomada de posse é considerado um dos maiores eventos mediáticos nos Estados Unidos. Por esta ocasião, correspondentes de todos os cantos do país viajam para Washington D. C para captarem a primeira fotografia oficial no novo Presidente e relatarem os passos da cerimónia.

O Instituto Poynter ressalvou, contudo, que, este ano, alguns “media” norte-americanos desviaram as atenções de Joe Biden para se focarem na primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente: Kamala Harris.

Assim, muitos jornais regionais quiseram certificar-se de que tanto Biden, como Harris, tinham fotografias na primeira página.

O jornal local “San Francisco Chronicle”, por exemplo, deu destaque a Harris e ao segundo cavalheiro, Douglas Emhoff, ao colocar uma foto de ambos no topo da capa.

O mesmo aconteceu com os jornais do Grupo Hearst, no Estado do Connecticut.

De acordo com Wendy Metcalfe, responsável pela empresa de “media”, esta escolha foi feita para reflectir “o sentimento da comunidade”.

O “Tampa Bay Times”, por sua vez, dedicou toda a primeira página à presidência Biden/Harris.

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


ver mais >
Opinião
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Notas breves
José Leite Pereira
1 - Assistir a entrevistas na televisão tornou-se um ato penoso. As entrevistas fizeram-se para que alguém possa transmitir a terceiros o que entende dever ser transmitido. Ao jornalista cabe o papel de intermediário e intérprete do que julga ser a curiosidade do público. A entrevista é um ato de esclarecimento. Diferente de um texto de opinião ou de uma comunicação pura e simples exatamente por causa da presença do...
Agenda
27
Jan
Investigação e Escrita de Não-ficção
11:00 @ Cenjor -- Sessões síncronas "online"
01
Fev
Iniciação à Fotografia
10:00 @ Cenjor
23
Fev
Westminster Forum Projects: O futuro da BBC
10:00 @ Conferência "online"
28
Set
World News Media Congress
09:00 @ Taipei, Taiwan