Terça-feira, 29 de Setembro, 2020
Colectânea

Propaga-se a hostilidade contra a liberdade de expressão

A liberdade de expressão está sob ataque um pouco por todo o mundo, e os seus principais alvos são os media independentes e os jornalistas que persistem em manter a ética da profissão.
A situação é, naturalmente, muito pior em regimes que se assumem como ditaduras de partido único, mas os últimos anos têm mostrado que este “clima de ódio” não conhece fronteiras geográficas nem de modelo político. “O assustador é que a situação se degrada em sociedades que até pouco tempo atrás eram consideradas democracias elogiáveis.”

O mais recente relatório de liberdade de Imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras “revela que mesmo em países nórdicos, como a Noruega e Suécia, que lideram a lista, têm sido registados ataques a jornalistas ou meios de comunicação por parte de políticos ou organizações, com variados níveis de agressividade”.

“Em países onde líderes populistas e autoritários chegaram ao governo ou ampliaram a sua margem de poder, como na Áustria, Itália, Hungria, Polónia, Filipinas e Turquia, as coisas vêm se agravando muito e rapidamente.”

A reflexão é de Carlos Eduardo Lins da Silva, no número mais recente da edição brasileira da Columbia Journalism Review, publicada pelo Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O autor começa por assumir que nesta matéria, infelizmente, os governos das duas maiores potências económicas, a China e os Estados Unidos, coincidem, ainda que com meios diferentes, na partilha desta atitude. 

“A China está se especializando em exportar tecnologia de vigilância para controlar actividades de cidadãos que se opõem ao governo e principalmente jornalistas. Tal expertise chinesa já está sendo usada pela Tailândia, Vietnam, Sri Lanka, Irão, Zâmbia e Zimbabue.” 

“Os Estados Unidos, que caíram dois pontos na tabela dos RSF (estão agora em 45° lugar), são um caso à parte, porque até 2016, apesar dos seus próprios problemas com a liberdade de expressão nunca terem sido pequenos, o seu governo costumava denunciar situações mais graves no mundo.” 

“Na administração de Donald Trump, Washington deixou de se preocupar com violações de direitos humanos, mesmo as mais ostensivas, por parte dos outros, e vem cometendo as suas próprias em escala crescente, como o aprisionamento de crianças filhas de imigrantes que entraram ilegalmente no país.” (...) 

O autor recorda neste ponto a “campanha de ódio sem precedentes” conduzida pelo Presidente Trump “especificamente em relação à Imprensa independente”, deixando o alerta: 

“Como a maioria dos fãs de Trump é também adepta do uso de armas, não é improvável que algum dia essa hostilidade se transforme em tragédia. Em Junho, um homem armado invadiu a redação do Capital Gazette, em Annapolis, e matou cinco pessoas. A motivação do assassino não foi política ou partidária.” 

“Aparentemente desequilibrado mental, o invasor não gostou do que o jornal escreveu a respeito dele anos atrás. Não se pode atribuir a Trump ou aos seus aliados esses homicídios, mas o clima de intolerância a informações veiculadas pode ter contribuído para a decisão do criminoso em agir.” (...) 

Carlos Lins da Silva faz depois uma “ronda” pelos casos piores em matéria de liberdade de expressão, mencionando a Turquia, o Afeganistão, o México (com 11 jornalistas assassinados, o segundo país mais letal para a profissão, logo atrás da Síria) e outros. 

Relata casos de intimidação policial no Brasil, e escreve sobre a questão da confidencialidade das fontes (que não é protegida nos EUA, onde “vários jornalistas já cumpriram pena de prisão por resguardar identidade de quem lhes passou informações”). 

Sobre o modelo económico de sustento dos media, refere um caso em que, nos EUA, se experimenta o subsídio estadual (do governo de Nova Jersey) a Universidades que terão a responsabilidade de apoiar meios de comunicação. 

“Há precedentes nos Estados Unidos, como as redes de rádio NPR e de TV PBS. Mas a desconfiança de possível interferência política no destino dos recursos está sempre latente em todas as situações.” (...) 

O ponto final do seu trabalho é uma resenha sobre o que tem sido feito  - também nos Estados Unidos – na área das empresas de media sem fins lucrativos.

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa.

Connosco
Directora de Informação da BBC contra os "rufias das redes sociais" Ver galeria

A directora de Informação da BBC, Fran Unsworth, considera que os operadores públicos devem resistir à pressão exercida pelos grupos de interesse e noticiar de acordo com os seus próprios valores.

Durante a conferência anual da BBC, no Prix Italia, Unsworth considerou, ainda, que os serviços de informação têm a obrigação de ser plurais, já que os “revolucionários” não representam a voz de todos os cidadãos.

Dito isto, a directora de Informação deu o exemplo do “New York Times”, que pressionou a demissão da editora de opinião Bari Weiss, por esta não corresponder às expectativas dos utilizadores das redes sociais, lamentando o sucedida. 

“No meio do turbilhão, temos de continuar a pensar claramente. Temos de falar uns com os outros e não ceder à pressão dos ‘rufias das redes sociais’... Em última análise, são os editores que editam - não os grupos de interesse". Caso contrário, reiterou Unsworth, a democracia pode estar em risco.


“Media” franceses publicam carta de apoio ao “Charlie Hebdo” Ver galeria

Cerca de uma centena de “media” franceses publicaram uma carta aberta de apoio à revista “Charlie Hebdo”, em resposta a um apelo do director da publicação, Riss. Aliás, as antigas instalações da revista voltaram a testemunhar a violência: em 25 de Setembro, quatro pessoas ficaram feridas, naquele local, noutro ataque desta vez com arma branca.
O suspeito, um jovem paquistanês de 18 anos, que confessou a autoria do crime, confirmou que visava o "Charlie Hebdo", por este ter procedido à republicação dos "cartoons" sobre Maomé.

Em declarações à agência noticiosa France-Presse, Riss afirmou que a revista satírica francesa tinha sido, efectivamente,“mais uma vez ameaçada por organizações terroristas”, em pleno julgamento dos atentados de Janeiro de 2015, visando, igualmente, “todos os meios de comunicação e, mesmo, o Presidente”.

“Achámos necessário sugerir aos ‘media’ que pensassem na resposta colectiva que merecia ser dada a esta situação”, explicou.

Na carta aberta, intitulada “Juntos, vamos defender a liberdade”, os órgãos de comunicação social apelaram, então,  à defesa da imprensa.  “Hoje, em 2020, alguns de vós estão a receber ameaças de morte nas redes sociais quando expõem opiniões. Os meios de comunicação social são, abertamente, visados por organizações terroristas internacionais. Os Estados exercem pressões sobre os jornalistas franceses [considerados] ‘culpados’ de publicarem artigos críticos”, pode ler-se no documento.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
07
Out
A perspectiva feminina em falta sobre a Covid-19
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
14
Out
O que são os dados tendenciosos e como corrigi-los
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas