Sexta-feira, 24 de Janeiro, 2020
Media

A indústria do “fact-checking” e as suas novas correntes

As eleições presidenciais de 2016 revelaram as disfuncionalidades da imprensa nos Estados Unidos, quando se tornou claro que se estava perante uma crise de desinformação, minada por notícias falsas e por propaganda. Pouco tempo depois, os governos e as plataformas tecnológicas começaram a falar do poder do “fact-checking”, ou a verificação de factos. De acordo com um censo da Duke University, havia 44 agências de verificação de factos em 2014, agora, há 195. 
Essas agências criaram uma nova corrente de negócio, através da correcção de incoerências e do desmascaramento de textos que já foram publicados e que se tornam virais na internet.

Quando a corrente “fact-checking” começou a emergir, na década de 90, algumas plataformas independentes tentaram desmistificar e desmentir mitos urbanos, mas a eleição de Donald Trump fez com que a nova indústria chegasse a outro patamar. 

Há agora um sector dedicado à verificação de factos alimentado por empresas globais como a Google e o Facebook.

A jornalista Emily Bell entrevistou vários especialistas sobre os desenvolvimentos na indústria e relatou os desenvolvimentos e desafios da nova indústria,  num artigo publicado no “Columbia Journalism Review”.


Jornalistas de todo o mundo estão a adoptar novas técnicas e tecnologias para desenvolverem investigação. As publicações vão cada vez mais longe no escrutínio dos factos e tentam apurar as causas de eventos que chocaram o mundo, como a morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi.


O investimento não se faz, contudo, apenas nas redacções dos jornais, já  que algumas das mais importantes empresas “online” se estão a aliar à causa. 


Depois emergirem várias histórias que apontavam as notícas falsas como uma dos motivos para a eleição de Trump, o Facebook juntou-se à International Fact Checking Network, uma organização sem fins lucrativos, com objectivo de analisar a veracidade de histórias partilhadas na rede social.


O projecto pode ser apelativo para uma companhia com as características do Facebook, mas este tipo de acção não é sensível a aspectos do jornalismo que vão para além do “certo” e “errado”, como a empatia e o contexto. A empresa, por exemplo, comprometeu-se a não a analisar o conteúdo partilhado por políticos, mesmo quando estes possam ter violado as regras da empresa.


Para o professor Lucas Graves, da Universidade do Wisconsin, há quase tantos tipos de “fact-checking” como de desinformação, o que constitui um motivo para cepticismo, havendo diferenças entre os que as empresas dizem ser a sua missão e aquilo que realmente fazem. “Os governos e as plataformas tecnológicas apoiam os sector” o que, segundo o professor, “faz levantar muitas questões sobre a missão e os métodos utilizados”.

Segundo Tom Phillips, editor de uma publicação de “fact-checking”, o mundo assistiu, até hoje, a três correntes desta modalidade. A primeira,  baseava-se na revisão de alegações. A segunda, na procura de dados concretos que sustentassem a revisão. E a terceira, que funciona “online”, baseia-se na procura activa de correcções, o que requer a mobilização de muita mão-de-obra. Avizinha-se uma quarta corrente, que consiste na verificação automática.


A verificação automática depende, contudo, da disponibilidade de fontes verificáveis, o que, naturalmente, apenas os humanos sabem filtrar e interpretar.

Um processo automático requeriria a omnipresença de dados e  verificadores, que estariam equipados com ferramentas para interrogar, classificar e retransmitir em resposta ao ciclo de notícias de última hora.

As plataformas de “fact-checking” enfrentam agora um novo desafio, com a informação falsa a ser disseminada, não só em plataformas públicas, mas igualmente  em grupos privados. O processo de verificação desta informação é muito mais complicada, pois é necessário que haja fontes de desinformação direccionadas, efémeras e fechadas, difíceis de encontrar.


Consulte o artigo na íntegra em CJR.
Connosco
Jornalistas europeus a leste não escapam às restrições dos "media"... Ver galeria

A Europa sempre foi considerada segura para a imprensa, mas, nem o velho continente escapa à crescente violência contra os “media”. Um estudo do Reuters Institute indica que os jornalistas europeus estão sob  pressão crescente, particularmente, no Leste do continente.

Nos últimos três anos, foram assassinados três jornalistas europeus, todos por terem reportado casos de corrupção e crime organizado, aos quais não eram alheios os respectivos governos. Foram os casos Daphne Caruana Galizia, em Malta, Ján Kuciak, na Eslováquia, e Viktoria Marinova, na Bulgária.

Os indicadores de liberdade de imprensa apontam para valores preocupantes, especialmente em países como a Polónia, a Hungria e a Eslováquia, onde os “media” são ameaçados por políticos, mas, igualmente  por jornalistas. Neste inquérito, 63% dos jornalistas afirmam já ter sido, publicamente, criticados por uma figura pública, quer directamente, quer através das redes sociais.


... E “comité” de jornalistas elabora “top 10” da censura aos “media” Ver galeria

A Eritreia é o país onde a censura é exercida de uma forma mais implacável, segundo  uma lista divulgada pelo CPJ - Comité para a Protecção dos Jornalistas. Essa lista integra 10 países, e é baseada numa pesquisa da organização sobre leis repressivas e vigilância de jornalistas, incluíndo restrições no acesso à internet e às redes sociais.

A lista abrange apenas os países onde o governo controla, rigidamente, os “media”. As condições para jornalistas e liberdade de imprensa em países como a Síria, Iémen e Somália são, também, extremamente difíceis, quer pela censura do governamental, quer, ainda, devido a conflitos armados. 

Nos três países onde a censura mais se faz sentir - Eritreia, Coreia do Norte e Turquemenistão – os “media” funcionam como porta-voz do Estado, e qualquer tentativa de jornalismo independente só é viável a partir do exterior. Os poucos jornalistas estrangeiros autorizados a entrar nesses países são seguidos, de perto, pelas autoridades. Outros usam uma combinação de medidas contundentes, como assédio e detenção arbitrária, bem como vigilância sofisticada. A Arábia Saudita, China, Vietname e Irão são especialmente adeptos destes comportamentos. 

Segue-se a lista dos “10 mais” em matéria de censura aos “media”:


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
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