Terça-feira, 29 de Setembro, 2020
Estudo

Relatório coloca Portugal a meio da tabela da desinformação

Foi publicado o relatório “Fake News em ano eleitoral – Portugal em linha com a UE” que assinala a entrada definitiva das notícias falsas nas preocupações dos governantes em Portugal.

A posição do país no combate à desinformação parece ser reactiva, limitando-se a apoiar as posições assumidas pela União Europeia, sem acrescentar mais nada. 

O relatório, iniciativa do Obercom, explica o trabalho realizado pela União Europeia e em Portugal para lidar com este desafio, tentando, também, caracterizar o fenómeno.  

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu. 

Segundo os dados apresentados, o país revela, também, um crescimento do consumo de notícias, através das redes sociais, e uma maior falta de confiança nos conteúdos informativos.

O relatório problematiza, ainda, os riscos da desinformação durante as campanhas eleitorais, bem como possíveis soluções para o problema, como é o caso do fact-checking, da literacia mediática ou do jornalismo colaborativo. 

São, também, apresentados os dados do Digital News Report de 2019, que analisam as práticas de consumo de notícias dos portugueses e o seu impacto na desinformação.

A posição de Portugal sobre a desinformação limita-se ao apoio das posições assumidas pela União Europeia. 

 

Note-se, entretanto, que num estudo da ERC, realizado a pedido do presidente da Assembleia da República, foi reconhecida “a dificuldade de intervenção devido à indefinição dos limites do ambiente online e à ausência de competências específicas, reclamando uma maior visibilidade para o número de registo da ERC para que os utilizadores online tenham maior facilidade em identificar as fontes de notícias credíveis”. Assim, a ERC recomendou que o problema fosse abordado e assegurasse maiores poderes ao regulador.

 

Por seu lado, o relatório do Obercom analisou a percepção das fake news em Portugal, concluindo que existem duas ideias erradas: que a desinformação não tem expressão no país e que, a existir, não tem objectivos políticos.

 

A estratégia de desinformação em Portugal é mais centrada na difamação e ataque pessoal, aproximando-se mais do Brasil do que dos países europeus.

 

Os conteúdos de desinformação analisados apresentam “uma menor saliência da questão migratória – ao contrário daquilo que sucede na maioria dos países ocidentais – que contrasta com o maior relevo da corrupção política, nepotismo e promiscuidade dos detentores de cargos públicos”. 

 

Esta conclusão sobre o fenómeno em Portugal tem por base o trabalho realizado pelo MediaLab do ISCTE-IUL, que monitorizou a desinformação no Facebook e no WhatsApp

 

Os dados do Google e do Twitter situam Portugal numa posição intermédia no quadro da desinformação a nível europeu, reforçando que a desinformação em Portugal “é uma realidade e tem dimensão suficiente para enviesar percepção da opinião pública acerca da veracidade da informação e assim diminuir a qualidade da nossa democracia”. 

 

Desta forma, os riscos de desinformação, em contexto eleitoral, são reais, mas o estudo defende que “a urgência em intervir não deve conduzir a medidas arbitrárias no plano governamental, típicas de regimes não democráticos. A Freedom House afirma mesmo que tal como «terrorismo» também o termo «fake news» tem sido cooptado por líderes autoritários para justificar repressão a dissidentes”.

 

As campanhas de desinformação em Portugal existem e seguem um modelo de difusão online. A desinformação é difundida através de páginas “enganadoras” de órgãos de comunicação, de grupos nas redes sociais e de perfis falsos. No caso português está, ainda, por confirmar a utilização de processos automatizados por robôs digitais (bots).

 

O relatório revelou, igualmente, que, em Portugal, a confiança em notícias é alta, mas tem diminuído, principalmente na Internet, verificando-se uma menor utilização deste meio como fonte principal de notícias. 

 

Em 2019, a veracidade dos conteúdos online inquieta três em cada quatro portugueses (74.7%), sendo que a mediatização do fenómeno das fake news e a desinformação, surgem como um problema público, minando a confiança nas notícias.

 

A crescente digitalização das práticas de consumo dos portugueses é reflectida no facto de cerca de 4/5 das pessoas utilizarem tanto a Televisão como a Internet como fonte de notícias. A Imprensa e a Rádio apresentam valores que rondam os 35%. 

 

Todavia, apesar do crescimento dos meios digitais face aos tradicionais, a Televisão continua a ser a principal forma de acesso à informação (58%), seguindo-se a Internet (30.9%), a Rádio (5.8%) e, por último, a Imprensa (3.8%).

 

O relatório revela, ainda, uma situação preocupante: existem cada vez mais pessoas a evitar o consumo de notícias, sendo que 65,9% o fazem pelo menos ocasionalmente. 

 

Aproximadamente 40% dos inquiridos demonstrou cansaço face à quantidade de notícias com que se deparam, criticando o tom escolhido no seu tratamento. 

 

O consumo de notícias através das redes sociais verificou, também, um aumento, principalmente através de apps de mensagens, como é o caso do Whatsapp.

 

Facebook é a rede social mais utilizada pelos portugueses (76.9%), sendo a mais usada para consumo de notícias (52.9%). O acesso a notícias através do site ou de aplicações noticiosas registou uma quebra.

 

Assim, as redes sociais são hoje, para mais de ¼ da população (26.3%), a forma de acesso preferida a notícias online, pois apenas 1/5 da população acede como primeira opção a aplicações ou sites de notícias.

 

“Metade dos portugueses inquiridos afirma que consulta fontes alternativas para verificar se um dado acontecimento está a ser noticiado da mesma forma (51.1%), sendo também comum decidir não partilhar uma notícia por desconhecimento acerca da fiabilidade da cobertura noticiosa (43.1%). Ainda assim, um em cada dez portugueses admite não ter qualquer atitude em relação a conteúdos suspeitos.”

 

A organização alerta para o facto de os “conteúdos simplificados numa imagem ou trecho de vídeo, quando não acompanhados da notícia que fornece o contexto, serem em si uma fonte de desinformação que é necessário evitar”.

 

Uma forma de combate contra a desinformação é o fact checking, que existe em dois modelos, o newsroom model e o independent NGO model. A distinção deve-se às diferenças dos sistemas político-mediáticos. 

 

newsroom model representa organizações de fact-checking associadas aos meios de comunicação social previamente existentes (legacy media). O modelo independente NGO model, mais concentrado no sul e leste da Europa, resulta da formação de organizações não governamentais para projectos, tendo uma maior independência editorial.

 

Apesar de constituírem uma excelente forma de fazer face à desinformação, os fact checkers podem ter algumas limitações, devidas a tentativas de instrumentalização por grupos coordenados para credibilizar determinadas notícias, eventualmente de interesse político.

 

Outro meio de combate à desinformação é o aumento da literacia mediática, pois permite desenvolver a capacidade de os cidadãos reconhecerem e identificarem notícias falsas.

 

“Um índice construído para medir a literacia mediática na Europa, usando indicadores de liberdade dos media, educação e confiança, revela que os países nórdicos (Finlândia e Dinamarca) são os mais resilientes ao impacto da desinformação, estando os países dos Balcãs (como a Macedónia ou a Albânia) no extremo oposto. Portugal aparece um pouco acima do meio da tabela, em 15º lugar entre os 35 avaliados, sendo que o pior indicador é a percentagem de população com ensino superior.” 

 

O jornalismo colaborativo é outro caso que também surgiu como resposta ao combate da desinformação. Este tipo de jornalismo promove as relações entre profissionais do sector, através da procura conjunta de soluções para o financiamento e estabilidade económica e de iniciativas comuns.

 

Mais informação em Obercom.

Connosco
Directora de Informação da BBC contra os "rufias das redes sociais" Ver galeria

A directora de Informação da BBC, Fran Unsworth, considera que os operadores públicos devem resistir à pressão exercida pelos grupos de interesse e noticiar de acordo com os seus próprios valores.

Durante a conferência anual da BBC, no Prix Italia, Unsworth considerou, ainda, que os serviços de informação têm a obrigação de ser plurais, já que os “revolucionários” não representam a voz de todos os cidadãos.

Dito isto, a directora de Informação deu o exemplo do “New York Times”, que pressionou a demissão da editora de opinião Bari Weiss, por esta não corresponder às expectativas dos utilizadores das redes sociais, lamentando o sucedida. 

“No meio do turbilhão, temos de continuar a pensar claramente. Temos de falar uns com os outros e não ceder à pressão dos ‘rufias das redes sociais’... Em última análise, são os editores que editam - não os grupos de interesse". Caso contrário, reiterou Unsworth, a democracia pode estar em risco.


“Media” franceses publicam carta de apoio ao “Charlie Hebdo” Ver galeria

Cerca de uma centena de “media” franceses publicaram uma carta aberta de apoio à revista “Charlie Hebdo”, em resposta a um apelo do director da publicação, Riss. Aliás, as antigas instalações da revista voltaram a testemunhar a violência: em 25 de Setembro, quatro pessoas ficaram feridas, naquele local, noutro ataque desta vez com arma branca.
O suspeito, um jovem paquistanês de 18 anos, que confessou a autoria do crime, confirmou que visava o "Charlie Hebdo", por este ter procedido à republicação dos "cartoons" sobre Maomé.

Em declarações à agência noticiosa France-Presse, Riss afirmou que a revista satírica francesa tinha sido, efectivamente,“mais uma vez ameaçada por organizações terroristas”, em pleno julgamento dos atentados de Janeiro de 2015, visando, igualmente, “todos os meios de comunicação e, mesmo, o Presidente”.

“Achámos necessário sugerir aos ‘media’ que pensassem na resposta colectiva que merecia ser dada a esta situação”, explicou.

Na carta aberta, intitulada “Juntos, vamos defender a liberdade”, os órgãos de comunicação social apelaram, então,  à defesa da imprensa.  “Hoje, em 2020, alguns de vós estão a receber ameaças de morte nas redes sociais quando expõem opiniões. Os meios de comunicação social são, abertamente, visados por organizações terroristas internacionais. Os Estados exercem pressões sobre os jornalistas franceses [considerados] ‘culpados’ de publicarem artigos críticos”, pode ler-se no documento.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
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A perspectiva feminina em falta sobre a Covid-19
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
14
Out
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13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
15
Out
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10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas