Sexta-feira, 17 de Janeiro, 2020
Opinião

Quando a ética não é flor que se cheire…

por Dinis de Abreu

O caso do novo secretário de Estado com a tutela da comunicação social é assaz curioso. Nuno Artur Silva foi dono, até há dias, das Produções Fictícias, empresa que incluía a RTP no seu portfólio de clientes, facto que não o inibiu de aceitar  ser administrador daquele operador público, com a responsabilidade dos conteúdos.

Cumprido o primeiro mandato, sem abdicar da participação societária nas Produções Fictícias, o Conselho Geral Independente da estação pública fez saber ao gestor  que  “a sua continuidade na RTP era incompatível com a irresolução do conflito de interesses entre a sua posição na empresa e os seus interesses patrimoniais privados, cuja manutenção não é aceitável”. E não foi reconduzido.

De facto, Nuno Artur Silva continuava a ser dono das Produções Fictícias e do Canal K, embora tivesse cessado funções de administrador da produtora.

Agora, fia mais fino. Nas vésperas de ser indigitado para o Governo, Nuno Artur Silva vendeu as acções da sua empresa a um sobrinho e sentiu-se livre de suspeições, à luz da nova lei das incompatibilidades, cujo regime aplicável lhe passa ao lado.

Trocado por miúdos, isto significa que,  de acordo com a  nova lei da transparência para detentores de cargos públicos, nada impedirá,  doravante,  as Produções Fictícias de celebrar contratos com o Estado ou participar em concursos públicos.

Um alivio, decerto, para o novo governante, que nem se esquivou a considerar, peremptório, que, com a  venda efectuada, e atento “o regime jurídico“ agora em vigor,  já  “não se verificam quaisquer incompatibilidades e impedimentos”  para o exercício do  cargo.

Admitamos que tem razão, até porque a legislação neste particular, depois de estar adormecida durante vários anos, adaptou-se ao “l`air du temps”, para poupar as “famílias” no governo a mais desgostos.  Ou sarilhos.

Mas se já era bizarro (para ficar por aqui) um fornecedor de conteúdos da RTP, “saltar a barreira” e passar a geri-la na mesma área, como se fosse a coisa mais natural desta vida, até o impedirem de continuar, então ir tutelar a mesma casa, de onde saiu por causa de uma situação de reconhecido conflito de interesses, é algo absolutamente kafkiano.

O versátil “ajudante” de António Costa, compondo uma santa ingenuidade que não lhe fica bem, alegou até, em comunicado, que enquanto secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Média, não irá “intervir nas decisões relativas à negociação, celebração e execução de contratos referentes à programação e conteúdos das mesmas”, pois “tais decisões competem aos respectivos conselhos de administração”.

É preciso topete. E não fazer a menor ideia das regras elementares que distinguem a ética da apetência por uma sinecura…. Ou quando a ética não é flor que se cheire!...

Connosco
Jornalistas sobem ao palco para contar as suas histórias ... Ver galeria

Os jornais deixaram de estar devidamente enraizados no seu lugar, os jornalistas não interagem com a comunidade e as comunidades de leitores estão a desintegrar-se. Uma nova tendência mediática está, contudo, a aproximar, novamente, os jornalistas das audiências. 

A imprensa de alguns países - como a Finlândia, Espanha e França -, está a começar a apostar num formato de "notícias ao vivo", onde os jornalistas estão, literalmente, em cima do palco e conversam com o público sobre as suas histórias, reportagens e vivências, o que está a ajudar o jornalismo a combater a crise de credibilidade. 

O público está pronto a conhecer a pesquisa preliminar dos jornalistas, que se mostram dispostos a partilhar os desenvolvimentos das suas histórias. Ouvir os jornalistas em “carne e osso” humaniza tanto as histórias quanto os escritores e levanta o véu sobre as práticas da redacção. Os participantes dos eventos ficam satisfeitos por terem a oportunidade de fazer perguntas, participar numa discussão e potencialmente influenciar a estratégia editorial.

Em Helsínquia, por exemplo, a “performance” do principal jornal diário está, habitualmente, esgotada. Em Madrid, o "Diário Vivo" oferece "uma noite única em que os jornalistas contam histórias verdadeiras, íntimas e universais pela primeira vez". O público compromete-se a não gravar o evento e, na Finlândia, reúne-se com os jornalistas para "tomar um copo", depois de saírem de cena.


Leitores franceses com reservas em relação aos “media” Ver galeria

Um estudo anual realizado para o diário francês "La Croix", revelou que há um decréscimo no interesse pela actualidade e que os leitores confiam cada vez menos nos "media".

Segundo a pesquisa, apenas 59% dos franceses segue as notícias com interesse "muito elevado" ou "elevado", 41% dizem que estão "muito pouco" ou "bastante pouco" interessados. Esta é a maior queda registada desde que este tipo de inquérito começou a ser realizado, em 1987, o que confirma uma certa apatia.

A confiança nos "media" continua extremamente baixa. Apenas 50% dos franceses considera que as notícias transmitidas na rádio são credíveis e a credibilidade em relação ao conteúdo televisivo é de apenas 40%. Os jornais têm a confiança de 46% das leitores e a internet é considerada o meio de informação menos fidedigno.

O fenómeno parece estar ligado, em parte, ao número de canais de informação, que se multiplica pelas redes sociais, e às notícias que muitas vezes provocam ansiedade e medo.


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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