Quarta-feira, 30 de Setembro, 2020
Opinião

Quando a ética não é flor que se cheire…

por Dinis de Abreu

O caso do novo secretário de Estado com a tutela da comunicação social é assaz curioso. Nuno Artur Silva foi dono, até há dias, das Produções Fictícias, empresa que incluía a RTP no seu portfólio de clientes, facto que não o inibiu de aceitar  ser administrador daquele operador público, com a responsabilidade dos conteúdos.

Cumprido o primeiro mandato, sem abdicar da participação societária nas Produções Fictícias, o Conselho Geral Independente da estação pública fez saber ao gestor  que  “a sua continuidade na RTP era incompatível com a irresolução do conflito de interesses entre a sua posição na empresa e os seus interesses patrimoniais privados, cuja manutenção não é aceitável”. E não foi reconduzido.

De facto, Nuno Artur Silva continuava a ser dono das Produções Fictícias e do Canal K, embora tivesse cessado funções de administrador da produtora.

Agora, fia mais fino. Nas vésperas de ser indigitado para o Governo, Nuno Artur Silva vendeu as acções da sua empresa a um sobrinho e sentiu-se livre de suspeições, à luz da nova lei das incompatibilidades, cujo regime aplicável lhe passa ao lado.

Trocado por miúdos, isto significa que,  de acordo com a  nova lei da transparência para detentores de cargos públicos, nada impedirá,  doravante,  as Produções Fictícias de celebrar contratos com o Estado ou participar em concursos públicos.

Um alivio, decerto, para o novo governante, que nem se esquivou a considerar, peremptório, que, com a  venda efectuada, e atento “o regime jurídico“ agora em vigor,  já  “não se verificam quaisquer incompatibilidades e impedimentos”  para o exercício do  cargo.

Admitamos que tem razão, até porque a legislação neste particular, depois de estar adormecida durante vários anos, adaptou-se ao “l`air du temps”, para poupar as “famílias” no governo a mais desgostos.  Ou sarilhos.

Mas se já era bizarro (para ficar por aqui) um fornecedor de conteúdos da RTP, “saltar a barreira” e passar a geri-la na mesma área, como se fosse a coisa mais natural desta vida, até o impedirem de continuar, então ir tutelar a mesma casa, de onde saiu por causa de uma situação de reconhecido conflito de interesses, é algo absolutamente kafkiano.

O versátil “ajudante” de António Costa, compondo uma santa ingenuidade que não lhe fica bem, alegou até, em comunicado, que enquanto secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Média, não irá “intervir nas decisões relativas à negociação, celebração e execução de contratos referentes à programação e conteúdos das mesmas”, pois “tais decisões competem aos respectivos conselhos de administração”.

É preciso topete. E não fazer a menor ideia das regras elementares que distinguem a ética da apetência por uma sinecura…. Ou quando a ética não é flor que se cheire!...

Connosco
Wikipedia modifica “layout” e melhora experiência de leitura Ver galeria

Ao longo das últimas duas décadas, a Wikipédia tem servido de fórum para cidadãos de todo o mundo. 

Com mais de 53 milhões de artigos, em 300 línguas, este “site”, de acesso gratuito, tornou-se uma fonte de conhecimento, sobre os mais variados tópicos, mas os seus criadores consideram que há, ainda, espaço para melhorias.

Assim, pela primeira vez em dez anos, a Wikipédia vai alterar o seu “layout”, de forma a refinar a experiência do utilizador.

De acordo com um comunicado de Olga Vasileva, responsável na Wikimedia Foundation, o objectivo é tornar a utilização do “site” mais intuitiva, especialmente para os utilizadores que estão, agora, a iniciar-se na “navegação online”.

“Precisamos de oferecer, não só um excelente conteúdo, mas, igualmente, uma experiência de um ‘site’ moderno, digno de confiança (...) Queremos criar uma página que seja familiar para os nossos utilizadores de longa data, mas simples e intuitiva para os novos visitantes”. 

As alterações incluem um logótipo reconfigurado, barra lateral rebatível, um índice e a extensão da largura da página.


Directora de Informação da BBC contra os "rufias das redes sociais" Ver galeria

A directora de Informação da BBC, Fran Unsworth, considera que os operadores públicos devem resistir à pressão exercida pelos grupos de interesse e noticiar de acordo com os seus próprios valores.

Durante a conferência anual da BBC, no Prix Italia, Unsworth considerou, ainda, que os serviços de informação têm a obrigação de ser plurais, já que os “revolucionários” não representam a voz de todos os cidadãos.

Dito isto, a directora de Informação deu o exemplo do “New York Times”, que pressionou a demissão da editora de opinião Bari Weiss, por esta não corresponder às expectativas dos utilizadores das redes sociais, lamentando o sucedida. 

“No meio do turbilhão, temos de continuar a pensar claramente. Temos de falar uns com os outros e não ceder à pressão dos ‘rufias das redes sociais’... Em última análise, são os editores que editam - não os grupos de interesse". Caso contrário, reiterou Unsworth, a democracia pode estar em risco.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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07
Out
A perspectiva feminina em falta sobre a Covid-19
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
14
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O que são os dados tendenciosos e como corrigi-los
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas