Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Media

O populismo em expansão ameaça o jornalismo em Itália

De acordo com um relatório da Plataforma do Conselho da Europa para a Protecção do Jornalismo e Segurança dos Jornalistas, a Itália registou o maior aumento de alertas de liberdade de imprensa em 2018. A Itália, a Rússia, Bósnia-Herzegóvina, Azerbaijão e Turquia não responderam às solicitações da Plataforma do Conselho da Europa.

Os jornalistas italianos destacam a violência exercida contra profissionais da informação e a mudança contínua na relação entre política e jornalismo.

A diminuição dos financiamentos destinados a organizações noticiosas, aliada à crise económica do sector, tem trazido grandes desafios ao jornalismo italiano.

Os jornalistas confirmaram, em entrevistas ao IPI, o ambiente de deterioração para a imprensa. Apesar deste registo estar entre os mais problemáticos da Europa Ocidental, muito analistas destacam que o “quadro constitucional, as instituições e a longa tradição democrática do país oferecem um forte protecção”.

De facto, os jornalistas concordam que a sua situação não pode ser comparada à repressão sofrida na Hungria, Polónia, Turquia ou Rússia, mas não escondem as suas apreensões.
A jornalista Giulia Shaughnessy escreveu um artigo, publicado no site do IPI, no qual aborda o tema.

A crise económica e a nova actualidade política têm vindo a gerar um clima cada vez mais adverso em relação à imprensa. Entre Junho de 2018 a Agosto de 2019, o presidente italiano, Sergio Mattarella, interveio doze vezes para defender e reforçar o artigo 21 da Constituição italiana – que garante o direito à liberdade de expressão e liberdade de imprensa –, em resposta aos ataques do governo contra a liberdade de imprensa.

 

O Movimento 5 Estrelas e a Liga utilizaram as redes sociais para comunicar com os eleitores, procurando desacreditar a fiabilidade do jornalismo. Tanto Matteo Salvini como Luigi Di Maio, usaram aquelas redes para propagar as suas mensagens politicas, conseguindo assim evitar as perguntas dos jornalistas. Esta alteração de paradigma conduziu a uma mudança da dinâmica entre jornalistas e políticos.

 

Giulia Shaughnessy refere no artigo que os próprios meios de comunicação italianos “passam cada vez mais tempo a correr atrás de declarações extremistas ou absurdas dos políticos, em vez de cobrirem temas de maior interesse público”.

 

Na última década, também os apoios directos e indirectos, através de financiamentos destinados a organizações noticiosas, diminuiu o valor, que desceu de 170 milhões de euros em 2007 para 62 milhões de euros em 2017.

 

Os cortes anunciados pela anterior coligação iriam afectar ainda mais as organizações locais e paralisar a indústria jornalística. A lei de orçamentos de 2019 prevê uma redução gradual do dinheiro público atribuído aos media nos próximos três anos, com o objectivo de eliminar totalmente esse financiamento até 2022.

 

Entre as maiores dificuldades enfrentadas pelos jornalistas, destacam-se os processos de difamação, que os obrigam a gastar muito tempo e dinheiro para se defenderem.

 

A difamação é uma infracção penal em Itália, pelo que os jornalistas podem enfrentar penas até seis anos de prisão ou ficarem sujeitos ao pagamento de indeminizações avultadas. Este tipo de condicionamento, provoca, amiúde, autocensura, devido à falta de possibilidades de contestar e combater estes processos.

 

Às ameaças legais, juntam-se ainda os ataques físicos. A violência parece ser legitimada pela clara hostilidade demonstrada por parte do Movimento 5 Estrelas e da Liga em relação aos jornalistas.

 

Existem profissionais que têm necessitado de protecção, pois são alvo de tentativas de silenciamento. "Tornou-se um costume para os políticos intimidar e ameaçar qualquer jornalista que faça reportagens sobre certos temas, como imigração, homossexualidade e diversidade em geral", disse Roberto Giulietti, presidente da Federação de Jornalistas italianos.

Mais infromação em International Press Institute.

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
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