Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Mundo

Manual para um jornalista de investigação deslindar redes de crime

Os jornalistas que investigam redes criminosas estão habituados a contornar os gatekeepers para trazer a público a forma como pessoas com poder movimentam os seus capitais através de intermediários e entre fronteiras. Na 11ª Conferência Global de Jornalismo Investigativo, que decorreu recentemente, especialistas partilharam algumas ideias de como provar alguns destes esquemas.

O apoio a redes internacionais de criminosos pode ser feito por organizações ou empresas legitimas. Assim, há organizações que movimentam o capital envolvido e ameaçam processar os jornalistas que descobrem estes segredos.

Bancos, empresas de contabilidade, prestadores e serviços de luxo – entidades também a servir como fonte de informação para uma estória –, todos protegem os seus clientes do escrutínio.

Megan Clement é jornalista e editora em temas como género, direitos humanos, desenvolvimento social e política social. Num artigo do Global Investigative Journalism Network, a jornalista aborda como investigar as redes criminosas de lavagem de capitais.

David Cay Johnston, vencedor do Prémio Pulitzer, disse que muitas vezes tudo se resume a encontrar o documento certo. Johnston explica que a primeira pergunta a colocar deve ser: “quem teve de fazer um registo do que eu procuro?”. Esses tipos de registos são mantidos por diferentes tipos de empresas legitimas.

 

Os bancos são as organizações legitimas mais óbvias a serem analisadas, quando se trata de investigar irregularidades financeiras – grande parte do dinheiro deverá passar por elas. Mas os bancos podem parecer “alvos difíceis”, diz Miranda Patrucic, que descobriu várias operações de lavagem de dinheiro na Europa e na Ásia Central, com o Projecto de Denúncia de Crime Organizado e Corrupção. Para Patrucic simplesmente fazer a mesma pergunta várias vezes pode encaminhar o jornalista até à história que deve ser contada.

 

As escolas privadas também podem ser uma forma de receber pagamentos de paraísos fiscais, tal como Garside descobriu numa das suas investigações. A jornalista identificou 50 instituições de ensino no Reino Unido que recebiam pagamentos. As escolas de elite faziam parte de uma série de empresas da indústria de serviços de luxo e recebiam dinheiro de “empresas fachada”, desde negociadores de arte a concessionários automóveis.

 

Para seguir o dinheiro, Garside e os colegas colocaram os números das contas bancárias – que suspeitavam ser de escolas particulares –, que apareceram nos documentos, numa pesquisa online de IBAN para confirmar para onde iam os pagamentos. Depois, utilizaram o Wayback Machine para comparar os valores transmitidos com as taxas que as escolas cobravam.

 

No artigo, são ainda facultadas sugestões do painel sobre como encontrar informações importantes sobre empresas legitimas que ajudam a mascarar actividades criminosas, como por exemplo:

 

- Funcionários aposentados – segundo Johnston, os antigos reguladores da indústria, que está a ser investigada, são "as pessoas mais úteis que se podem ter como fonte para tentar rastrear dinheiro e empresas criminosas";

- Registos de propriedades – a pesquisa de activos através de sites que tenham acesso a listas de propriedades;

- Conferências – Patrucic refere que conhece um jornalista que passa o tempo a assistir a conferências de contabilidade, pois quer ter a certeza de que todos no sector têm o seu cartão, para que possam denunciar alguma irregularidade ou entregar documentos relevantes;

- As investigações particulares dos jornalistas - Patrucic salientou que ao trabalhar em várias investigações importantes, desde os Panama Papers até a Troika Laundromat, certos nomes e empresas surgiram repetidas vezes, pelo que mantém um registo de todos os nomes de empresas, advogados e directores que investiga;

- Processos judiciais – Possivelmente, jornalistas que investigam pessoas poderosas e grandes empresas, podem ter acções judiciais de prevenção para evitar ou abafar determinadas investigações. Este tipo de processos pode ser uma fonte útil de investigação.

Mais informação em Global Investigative Journalism Network.

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
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