Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Media

Os riscos das entrevistas em directo na rádio e televisão

A desinformação continua a ser um problema no jornalismo. As entrevistas em directo esclarecem cada vez menos e os confrontos entre convidados geram programas de natureza mais sensacionalista. Este tipo de jornalismo acaba por confundir mais do que esclarecer, tal como ocorreu em entrevistas recentes da Fox News e da CNN, nas quais os convidados acabaram por dificultar o diálogo e evitar responder às questões colocadas, definindo os tópicos de conversa. 

Michael J. Socolow, professor de comunicação e jornalismo na Universidade do Main, abordou num artigo – publicado inicialmente no The Conversation e agora republicado no NiemanLab – o tema da “desinformação, da evasão e o problema da informação das entrevistas ao vivo na televisão”. 

Como exemplo, Socolow refere as duas entrevistas e salienta que a obrigação jornalística é esclarecer o público e não difundir opiniões ou visões que induzam os telespectadores em erro e que ponham em causa o direito à informação confiável e verificada, que lhes permite exercer as suas responsabilidades democráticas. 

Na Fox News, Chris Wallace questionou Stephen Miller, o conselheiro da Casa Branca, em relação à decisão de Trump utilizar advogados particulares, ao invés de agências do governo, para obter informações do governo ucraniano. Miller mudou de assunto e evitou responder à pergunta, ignorando a insistência de Wallace.  

 

Por sua vez, na CNN a situação repetiu-se. Jake Tepper entrevistou o congressista Jim Jordan no seu programa State of the Union. À medida que a entrevista se aproximava do fim, o congressista começou a ignorar as perguntas de Tapper e a escolher os tópicos de conversa. O jornalista mostrou-se bastante frustrado e salientou o facto de o seu convidado ter evitado várias perguntas.

 

As entrevistas não passaram despercebidas. O comportamento do entrevistador e entrevistados foram criticados pelas audiências, através de clipes nas redes sociais, mas pouco se falou sobre os problemas do formato do programa em si. 

 

As entrevistas ao vivo na televisão, e os seus parâmetros restritos, acabam por falhar no seu dever de informar. Segundo Michael J. Socolow “talvez esteja na hora de reconsiderar o valor jornalístico das entrevistas ao vivo”.

 

A verdade é que as entrevistas nem sempre foram ao vivo. Quando surgiu a radiodifusão, na década de 1920, as entrevistas sem guião eram raras e as redes e as estações de rádio monotorizavam cuidadosamente as emissões, de forma a evitar que algo desagradável ou controverso causasse algum problema. Nesta altura, até os “vox pop” eram muitas vezes premeditados.

 

Durante a Segunda Guerra, as entrevistas eram monotorizadas pelo Departamento da Censura e pelo Departamento de Informação de Guerra, de forma a evitar que segredos militares fossem divulgados.

 

Depois da Guerra, os jornalistas de rádio tentaram começar a colocar questões mais críticas aos entrevistados, mas o anticomunismo que assolava a política norte-americana fez com que as emissoras desconfiassem das respostas, por não estarem previstas no guião. Desta forma, os convidados mais controversos foram evitados e os programas de entrevista tornaram-se mais amigáveis e promocionais.

 

Mesmo os programas mais célebres do Jornalista Edward R. Murrow, como o See it Now Person to Person, evitavam controvérsias e quando as emissões tinham situações mais complexas, eram mostrados em clipes selectivamente editados.

 

Foi em 1956, com Night Beat, um programa local de Nova Iorque, que Mike Wallace – pai de Chris Wallace, jornalista da Fox News – , transformou a entrevista num formato de emissão. Wallace tinha uma abordagem sarcástica, questionadora e crítica. O seu estilo não se adequava ao optimismo vivido na época e o programa acabou.  

 

Contudo, com a falta de credibilidade – causada, em parte, pela desinformação em relação à guerra do Vietname e o crescente cepticismo das audiências numa altura de tumultos –, exigia-se que os noticiários de televisão tivessem entrevistas mais críticas.

 

Foi assim que, em 1968, surgiu o “60 minutos”, que mudou para sempre a televisão norte-americana. O programa teve poucas audiências, inicialmente, mas Wallace tornou-se o inquiridor da televisão americana, expunha as fraquezas de todos, desde os vigaristas ao Presidente.

 

O programa inspirou vários do género e tornou-se um dos mais lucrativos programas de televisão, tudo graças às entrevistas. Com o desenvolvimento da tecnologia satélite, o formato das entrevistas em directo acabou por tornar-se comum.

 

No caso do programa “60 minutos”, raramente eram emitidas entrevistas em directo, pois os produtores tinham noção de que facilitaria a manipulação, pois se um convidado tentasse manipular a informação prestada à audiência, o entrevistador pouco poderia fazer. Contra-argumentar ou discutir poderia gerar simpatia pelo entrevistado e cortar a palavra ou o microfone seria considerado censura, pelo que os programas podem apenas considerar não convidar entrevistados que tentam enganar o público. 

 

Os cidadãos precisam de informações confiáveis e verificadas para poderem exercer as suas responsabilidades democráticas. O jornalista não tem obrigação de disseminar opiniões ou ideias que induzam em erro ou que confundam os telespectadores, a obrigação do jornalismo é, precisamente, o contrário. 

Mais informação em NiemanLab.


 

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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