Sexta-feira, 5 de Junho, 2020
Media

Os riscos das entrevistas em directo na rádio e televisão

A desinformação continua a ser um problema no jornalismo. As entrevistas em directo esclarecem cada vez menos e os confrontos entre convidados geram programas de natureza mais sensacionalista. Este tipo de jornalismo acaba por confundir mais do que esclarecer, tal como ocorreu em entrevistas recentes da Fox News e da CNN, nas quais os convidados acabaram por dificultar o diálogo e evitar responder às questões colocadas, definindo os tópicos de conversa. 

Michael J. Socolow, professor de comunicação e jornalismo na Universidade do Main, abordou num artigo – publicado inicialmente no The Conversation e agora republicado no NiemanLab – o tema da “desinformação, da evasão e o problema da informação das entrevistas ao vivo na televisão”. 

Como exemplo, Socolow refere as duas entrevistas e salienta que a obrigação jornalística é esclarecer o público e não difundir opiniões ou visões que induzam os telespectadores em erro e que ponham em causa o direito à informação confiável e verificada, que lhes permite exercer as suas responsabilidades democráticas. 

Na Fox News, Chris Wallace questionou Stephen Miller, o conselheiro da Casa Branca, em relação à decisão de Trump utilizar advogados particulares, ao invés de agências do governo, para obter informações do governo ucraniano. Miller mudou de assunto e evitou responder à pergunta, ignorando a insistência de Wallace.  

 

Por sua vez, na CNN a situação repetiu-se. Jake Tepper entrevistou o congressista Jim Jordan no seu programa State of the Union. À medida que a entrevista se aproximava do fim, o congressista começou a ignorar as perguntas de Tapper e a escolher os tópicos de conversa. O jornalista mostrou-se bastante frustrado e salientou o facto de o seu convidado ter evitado várias perguntas.

 

As entrevistas não passaram despercebidas. O comportamento do entrevistador e entrevistados foram criticados pelas audiências, através de clipes nas redes sociais, mas pouco se falou sobre os problemas do formato do programa em si. 

 

As entrevistas ao vivo na televisão, e os seus parâmetros restritos, acabam por falhar no seu dever de informar. Segundo Michael J. Socolow “talvez esteja na hora de reconsiderar o valor jornalístico das entrevistas ao vivo”.

 

A verdade é que as entrevistas nem sempre foram ao vivo. Quando surgiu a radiodifusão, na década de 1920, as entrevistas sem guião eram raras e as redes e as estações de rádio monotorizavam cuidadosamente as emissões, de forma a evitar que algo desagradável ou controverso causasse algum problema. Nesta altura, até os “vox pop” eram muitas vezes premeditados.

 

Durante a Segunda Guerra, as entrevistas eram monotorizadas pelo Departamento da Censura e pelo Departamento de Informação de Guerra, de forma a evitar que segredos militares fossem divulgados.

 

Depois da Guerra, os jornalistas de rádio tentaram começar a colocar questões mais críticas aos entrevistados, mas o anticomunismo que assolava a política norte-americana fez com que as emissoras desconfiassem das respostas, por não estarem previstas no guião. Desta forma, os convidados mais controversos foram evitados e os programas de entrevista tornaram-se mais amigáveis e promocionais.

 

Mesmo os programas mais célebres do Jornalista Edward R. Murrow, como o See it Now Person to Person, evitavam controvérsias e quando as emissões tinham situações mais complexas, eram mostrados em clipes selectivamente editados.

 

Foi em 1956, com Night Beat, um programa local de Nova Iorque, que Mike Wallace – pai de Chris Wallace, jornalista da Fox News – , transformou a entrevista num formato de emissão. Wallace tinha uma abordagem sarcástica, questionadora e crítica. O seu estilo não se adequava ao optimismo vivido na época e o programa acabou.  

 

Contudo, com a falta de credibilidade – causada, em parte, pela desinformação em relação à guerra do Vietname e o crescente cepticismo das audiências numa altura de tumultos –, exigia-se que os noticiários de televisão tivessem entrevistas mais críticas.

 

Foi assim que, em 1968, surgiu o “60 minutos”, que mudou para sempre a televisão norte-americana. O programa teve poucas audiências, inicialmente, mas Wallace tornou-se o inquiridor da televisão americana, expunha as fraquezas de todos, desde os vigaristas ao Presidente.

 

O programa inspirou vários do género e tornou-se um dos mais lucrativos programas de televisão, tudo graças às entrevistas. Com o desenvolvimento da tecnologia satélite, o formato das entrevistas em directo acabou por tornar-se comum.

 

No caso do programa “60 minutos”, raramente eram emitidas entrevistas em directo, pois os produtores tinham noção de que facilitaria a manipulação, pois se um convidado tentasse manipular a informação prestada à audiência, o entrevistador pouco poderia fazer. Contra-argumentar ou discutir poderia gerar simpatia pelo entrevistado e cortar a palavra ou o microfone seria considerado censura, pelo que os programas podem apenas considerar não convidar entrevistados que tentam enganar o público. 

 

Os cidadãos precisam de informações confiáveis e verificadas para poderem exercer as suas responsabilidades democráticas. O jornalista não tem obrigação de disseminar opiniões ou ideias que induzam em erro ou que confundam os telespectadores, a obrigação do jornalismo é, precisamente, o contrário. 

Mais informação em NiemanLab.


 

Connosco
Inteligência artificial inventa "robots" na China e Rússia mas não substitui papel do jornalista Ver galeria

A inteligência artificial está a ser introduzida em todos os sectores e os “media” não são excepção, recorda um editorial do jornal indiano “Policy Times”.

As redacções estão a adoptar sistemas automáticos para verificar factos, encontrar fontes, transcrever entrevistas, e detectar plágios.

Além disso, empresas de tecnologia, como a Microsoft, estão a dispensar os seus jornalistas, substituindo-os por sistemas artificiais, programados para redigir artigos com base em notícias já publicadas.

A equipa que desenvolvia o “site” não escrevia artigos originais, mas exercia controlo editorial, publicando conteúdos e manchetes, para que estas se adequassem ao perfil da plataforma.

Na China e na Rússia, a automatização está, ainda, mais avançada, agora que alguns canais já colocaram “robots” a apresentar os telejornais. Apesar de inovadora, esta iniciativa foi mal recebida pelo público, que estranhou não ter um humano a estabelecer uma “ponte” entre a informação e os cidadãos.


Como o “Monde” desenvolveu um “lifeblog” durante a emergência Ver galeria

Perante a pandemia e o risco de isolamento, muitas publicações desenvolveram novos projectos e adoptaram diversas ferramentas para estabelecer contacto com as audiências, mas, talvez a iniciativa do “Le Monde” tenha sido a mais ambiciosa.

Durante 83 dias, sem interrupções, os jornalistas do “Monde” desenvolveram um “lifeblog”, com actualizações ao minuto, e com um “chat” aberto, onde os leitores deixaram as suas dúvidas e sugestões.

A audiência média diária foi de um milhão.

Findo o projecto, a equipa do jornal preparou um artigo para explicar a fórmula adoptada para o desenvolvimento do “lifeblog” mais longo da  sua história.

De acordo com o jornal, o projecto contou com a colaboração de  45 jornalistas, incluindo correspondentes sediados no estrangeiros.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas