Sexta-feira, 5 de Junho, 2020
Media

A imprensa livre em debate entre o poder e a transparência

“Sempre houve tentativas para calar a imprensa, já que é próprio dos governos o desejo de censurar a imprensa, em menor ou maior grau, dependendo dos dispositivos constitucionais”, afirmou Paulo Saldiva, na abertura do seminário organizado pela Superintendência de Comunicação Social (SCS) do Brasil e pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de S. Paulo sobre o tema “Liberdade de Imprensa e Democracia”.

O director do IEA chamou à atenção para outro ponto essencial, que é o de confundir informação com a aquisição de conhecimento. “Achava-se que, com o acesso total à informação, a ignorância iria acabar, mas ela veio mais forte do que nunca. Sem uma imprensa livre, vamo-nos perder no mar da ignorância”, afirmou.

Por outro lado, o jornalista Luiz Roberto Serrano, Superintendente da Comunicação Social declarou que, “a hostilidade (á imprensa) está a ser ampliada para outros sectores, atingindo as manifestações culturais, especialmente no cinema e no teatro. Até as universidades são alvos. Temos convivido com ataques pessoais a jornalistas e às suas vidas pessoais. Assistimos, também, a tentativas de cerceamento económico de grandes veículos de informação”.

O encontro foi dividido em dois painéis, com três oradores e moderação de Serrano. Do primeiro painel, intitulado”Há democracia sem imprensa livre?”, fizeram parte o jornalista, professor e colunista da Rádio USP Carlos Eduardo Lins da Silva, a jornalista Marina Amaral, uma das fundadoras da Agência Pública, e Pedro Varoni, director editorial do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e editor responsável pelo Observatório da Imprensa.

Lins da Silva, começou por dizer que “hoje, não sabemos o que será da imprensa e da democracia diante do mundo que estamos vendo.” E acrescentou, “a situação americana serve como balizamento, já que entre 2008 e 2017 o número de jornalistas empregados nos Estados Unidos caiu para metade. Isso mostra como os jornalistas estão a perder espaço”, afirmou, mostrando ainda um outro dado americano: “ há 20 anos atrás, o número dos profissionais de relações públicas era o dobro do número de jornalistas. Hoje, a proporção é de seis RPs para cada jornalista”.


Salientou a necessidade de autocritica da Imprensa, uma vez que na sua opinião muitas vezes, “o problema está dentro da profissão, com a tendência dos jornalistas se considerarem vítimas, o que não é bom para o desenvolvimento da actividade”.


Muitas vezes “os jornalistas são arrogantes, estão distanciados do seu público e falam de uma forma que a sociedade não consegue apreender”.


A jornalista Marina Amaral, abordou o assunto por outro prisma, quando afirmou que,” a ideia do furo – a chamada informação exclusiva -, tão cultivada no passado, pode estar com seus dias contados. Porque o que interessa, de facto, é combater com a verdade os ataques que a imprensa vem sofrendo e ampliar o número de vozes que falam com a sociedade”.


Pedro Varoni, do Observatório da Imprensa, falou sobre o projecto ‘Atlas da Notícia’, onde foi apurado que cerca de 70 milhões de brasileiros vivem num ‘deserto de notícias’, ou seja, as notícias não chegam a essas pessoas”. Mas apresentou uma possível solução - o jornalismo local pode proporcionar um vínculo maior com o processo democrático. Por isso é importante “reforçar o jornalismo local para as comunidades pequenas.”

 

“O jornalismo nunca está do lado do poder. Se isso acontece, alguma coisa está errada”, afirmou João Gabriel de Lima. “As fontes de informação multiplicaram-se e, muitas vezes, são usadas para atacar a imprensa. Faz parte do processo democrático. Porém, muitos governantes usam as redes sociais para minar a credibilidade do jornalismo”.


Segundo editor-executivo do Estadão, isso faria parte de uma estratégia articulada. “A ideia é dizer, ou insinuar, que quando a imprensa ataca membros do governo, ela teria uma agenda oculta político-partidária. Quando se publica algo que desagrada ao governo, isso não seria informação, e sim oposição. E mina-se a credibilidade dessa forma.”


Mas há um antídoto para isso: transparência. “Temos que deixar claro para o leitor qual é a missão do jornalismo, sem partidarismos, sem sectarismo, e como nossas reportagens são feitas. Temos que ser mais honestos com os nossos leitores. Assim, podemos manter a nossa credibilidade”.


Na sequência da ideia de credibilidade e transparência, Vinicius Mota, da Folha, apresentou uma série de reportagens do seu jornal que sofreram ameaças de censura. “Estamos numa sociedade de superpoderosos, como a presidência da república, o congresso, o STF. O jornalismo não tem esse poder, mas precisamos manter nossa independência, mesmo sofrendo com as ‘subtilezas do poder’”, argumentou. Essa “subtileza”, na verdade, seria um eufemismo para o nome que ela tem, de facto: censura. “É como se perguntássemos: quem fiscaliza o fiscal?”.


Eugênio Bucci, Professor da Escola de Comunicações e Artes no Departamento Informação e Cultura, traçou um panorama dos desafios do jornalismo actual - “devemos vencer o preconceito, sobre o financiamento público do jornalismo. Por outro lado, devemos manter a nossa independência, e seguir o caminho da transparência e do esclarecimento”.


“O jornalismo – afirmou – precisa de levar mais em conta a função do esclarecimento, que tem a ver com educação, com a formação tanto de novos leitores como de novos cidadãos. Mas tudo isso ainda está por ser feito”.

(Mais informação no Jornal da Universidade de São Paulo)

Connosco
Inteligência artificial inventa "robots" na China e Rússia mas não substitui papel do jornalista Ver galeria

A inteligência artificial está a ser introduzida em todos os sectores e os “media” não são excepção, recorda um editorial do jornal indiano “Policy Times”.

As redacções estão a adoptar sistemas automáticos para verificar factos, encontrar fontes, transcrever entrevistas, e detectar plágios.

Além disso, empresas de tecnologia, como a Microsoft, estão a dispensar os seus jornalistas, substituindo-os por sistemas artificiais, programados para redigir artigos com base em notícias já publicadas.

A equipa que desenvolvia o “site” não escrevia artigos originais, mas exercia controlo editorial, publicando conteúdos e manchetes, para que estas se adequassem ao perfil da plataforma.

Na China e na Rússia, a automatização está, ainda, mais avançada, agora que alguns canais já colocaram “robots” a apresentar os telejornais. Apesar de inovadora, esta iniciativa foi mal recebida pelo público, que estranhou não ter um humano a estabelecer uma “ponte” entre a informação e os cidadãos.


Como o “Monde” desenvolveu um “lifeblog” durante a emergência Ver galeria

Perante a pandemia e o risco de isolamento, muitas publicações desenvolveram novos projectos e adoptaram diversas ferramentas para estabelecer contacto com as audiências, mas, talvez a iniciativa do “Le Monde” tenha sido a mais ambiciosa.

Durante 83 dias, sem interrupções, os jornalistas do “Monde” desenvolveram um “lifeblog”, com actualizações ao minuto, e com um “chat” aberto, onde os leitores deixaram as suas dúvidas e sugestões.

A audiência média diária foi de um milhão.

Findo o projecto, a equipa do jornal preparou um artigo para explicar a fórmula adoptada para o desenvolvimento do “lifeblog” mais longo da  sua história.

De acordo com o jornal, o projecto contou com a colaboração de  45 jornalistas, incluindo correspondentes sediados no estrangeiros.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas