Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Media

A imprensa livre em debate entre o poder e a transparência

“Sempre houve tentativas para calar a imprensa, já que é próprio dos governos o desejo de censurar a imprensa, em menor ou maior grau, dependendo dos dispositivos constitucionais”, afirmou Paulo Saldiva, na abertura do seminário organizado pela Superintendência de Comunicação Social (SCS) do Brasil e pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de S. Paulo sobre o tema “Liberdade de Imprensa e Democracia”.

O director do IEA chamou à atenção para outro ponto essencial, que é o de confundir informação com a aquisição de conhecimento. “Achava-se que, com o acesso total à informação, a ignorância iria acabar, mas ela veio mais forte do que nunca. Sem uma imprensa livre, vamo-nos perder no mar da ignorância”, afirmou.

Por outro lado, o jornalista Luiz Roberto Serrano, Superintendente da Comunicação Social declarou que, “a hostilidade (á imprensa) está a ser ampliada para outros sectores, atingindo as manifestações culturais, especialmente no cinema e no teatro. Até as universidades são alvos. Temos convivido com ataques pessoais a jornalistas e às suas vidas pessoais. Assistimos, também, a tentativas de cerceamento económico de grandes veículos de informação”.

O encontro foi dividido em dois painéis, com três oradores e moderação de Serrano. Do primeiro painel, intitulado”Há democracia sem imprensa livre?”, fizeram parte o jornalista, professor e colunista da Rádio USP Carlos Eduardo Lins da Silva, a jornalista Marina Amaral, uma das fundadoras da Agência Pública, e Pedro Varoni, director editorial do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e editor responsável pelo Observatório da Imprensa.

Lins da Silva, começou por dizer que “hoje, não sabemos o que será da imprensa e da democracia diante do mundo que estamos vendo.” E acrescentou, “a situação americana serve como balizamento, já que entre 2008 e 2017 o número de jornalistas empregados nos Estados Unidos caiu para metade. Isso mostra como os jornalistas estão a perder espaço”, afirmou, mostrando ainda um outro dado americano: “ há 20 anos atrás, o número dos profissionais de relações públicas era o dobro do número de jornalistas. Hoje, a proporção é de seis RPs para cada jornalista”.


Salientou a necessidade de autocritica da Imprensa, uma vez que na sua opinião muitas vezes, “o problema está dentro da profissão, com a tendência dos jornalistas se considerarem vítimas, o que não é bom para o desenvolvimento da actividade”.


Muitas vezes “os jornalistas são arrogantes, estão distanciados do seu público e falam de uma forma que a sociedade não consegue apreender”.


A jornalista Marina Amaral, abordou o assunto por outro prisma, quando afirmou que,” a ideia do furo – a chamada informação exclusiva -, tão cultivada no passado, pode estar com seus dias contados. Porque o que interessa, de facto, é combater com a verdade os ataques que a imprensa vem sofrendo e ampliar o número de vozes que falam com a sociedade”.


Pedro Varoni, do Observatório da Imprensa, falou sobre o projecto ‘Atlas da Notícia’, onde foi apurado que cerca de 70 milhões de brasileiros vivem num ‘deserto de notícias’, ou seja, as notícias não chegam a essas pessoas”. Mas apresentou uma possível solução - o jornalismo local pode proporcionar um vínculo maior com o processo democrático. Por isso é importante “reforçar o jornalismo local para as comunidades pequenas.”

 

“O jornalismo nunca está do lado do poder. Se isso acontece, alguma coisa está errada”, afirmou João Gabriel de Lima. “As fontes de informação multiplicaram-se e, muitas vezes, são usadas para atacar a imprensa. Faz parte do processo democrático. Porém, muitos governantes usam as redes sociais para minar a credibilidade do jornalismo”.


Segundo editor-executivo do Estadão, isso faria parte de uma estratégia articulada. “A ideia é dizer, ou insinuar, que quando a imprensa ataca membros do governo, ela teria uma agenda oculta político-partidária. Quando se publica algo que desagrada ao governo, isso não seria informação, e sim oposição. E mina-se a credibilidade dessa forma.”


Mas há um antídoto para isso: transparência. “Temos que deixar claro para o leitor qual é a missão do jornalismo, sem partidarismos, sem sectarismo, e como nossas reportagens são feitas. Temos que ser mais honestos com os nossos leitores. Assim, podemos manter a nossa credibilidade”.


Na sequência da ideia de credibilidade e transparência, Vinicius Mota, da Folha, apresentou uma série de reportagens do seu jornal que sofreram ameaças de censura. “Estamos numa sociedade de superpoderosos, como a presidência da república, o congresso, o STF. O jornalismo não tem esse poder, mas precisamos manter nossa independência, mesmo sofrendo com as ‘subtilezas do poder’”, argumentou. Essa “subtileza”, na verdade, seria um eufemismo para o nome que ela tem, de facto: censura. “É como se perguntássemos: quem fiscaliza o fiscal?”.


Eugênio Bucci, Professor da Escola de Comunicações e Artes no Departamento Informação e Cultura, traçou um panorama dos desafios do jornalismo actual - “devemos vencer o preconceito, sobre o financiamento público do jornalismo. Por outro lado, devemos manter a nossa independência, e seguir o caminho da transparência e do esclarecimento”.


“O jornalismo – afirmou – precisa de levar mais em conta a função do esclarecimento, que tem a ver com educação, com a formação tanto de novos leitores como de novos cidadãos. Mas tudo isso ainda está por ser feito”.

(Mais informação no Jornal da Universidade de São Paulo)

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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