Segunda-feira, 24 de Fevereiro, 2020
Opinião

As limitações do nosso jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

J.-MNobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de notícias fátuas que não exigem qualquer esforço e pouco ou nada contribuem para um conhecimento informado das situações. Mesmo a informação internacional é escassa e, muitas vezes, mal tratada”.

Como jornalista, não tenho uma reacção corporativa às críticas que se fazem ao jornalismo português. Concordo com muitos dos males apontados e lamento-os. Mas é de justiça salientar dois pontos.

Primeiro, a comunicação social portuguesa tem dado contributos importantes para a descoberta de casos de corrupção e outros, bem como trouxe para a praça pública a situação lamentável de muita gente que, de outra forma, continuaria a ser ignorada.

 Isto acontece apesar das limitações que prejudicam o trabalho dos jornalistas. Praticamente todos os media no nosso país – e no estrangeiro também – lutam com problemas financeiros sérios. A publicidade é escassa e os “sites” eletrónicos desses meios não conseguem anúncios financeiramente compensadores. Por isso as redações têm vindo a ser reduzidas ao mínimo: há menos jornalistas e menos recursos para financiar investigações complexas. Ora as solicitações são hoje muito maiores do que eram há poucas décadas atrás: a informação não pára, é permanente.

 O aparecimento da internet e das redes sociais levou a uma baixa brutal de leitores, ouvintes e telespectadores – e de publicidade. E o facto de os “media” tradicionais e os outros concorrerem, todos, em dar notícias 24 horas por dia nos respectivos “sites”, o mais rapidamente possível, não contribui propriamente para analisar e investigar, com tempo e ponderação, inúmeras informações, verdadeiras ou falsas.

Tenho dito várias vezes que o “Washington Post” não teria hoje possibilidades financeiras de fazer uma investigação como a realizada em 1974 ao caso Watergate: dois repórteres do jornal instalaram-se confidencialmente num hotel durante meses, com vários ajudantes. A crise é geral, mas Portugal tem uma população pouco dada à leitura e a ver e ouvir discutir temas sérios. O mercado é pequeno…

 Claro que, mesmo com as limitações existentes, o jornalismo nacional poderia ser melhor. Mas convém não esquecer aquilo de que os consumidores da comunicação social mais apreciam. Na televisão, por exemplo, é o futebol – não propriamente ver jogos, mas assistir a discussões intermináveis sobre “casos” envolvendo árbitros, dirigentes e jogadores. Ou, então, “reality shows” degradantes – começou com o “Big brother”.

Mas o fenómeno não é novidade nem apenas português. Há muito que os jornais “tabloides” britânicos vendem dez vezes mais do que os chamados jornais de referência. Esses tabloides levam o sensacionalismo e a desvergonha a níveis impressionantes. E a Grã-Bretanha é um país culto, mas onde surgem políticos populistas como Boris Johnson...  

Connosco
Faleceu Vasco Pulido Valente cronista singular de imprensa Ver galeria

Faleceu o historiador, escritor, ensaísta e  cronista de imprensa, enquanto comentador político, Vasco Pulido Valente. A informação foi confirmada ao jornal “Público” e ao “Observador” por fonte familiar. 

 Vasco Pulido Valente, distinguiu-se como colunista com textos repartidos por vários jornais, e pela acidez irónica que cultivava nos seus comentários, invariavelmente cáusticos e certeiros em relação a não poucos actores do espaço político-partidário.

 O nome que o tornou célebre (e temido), era o pseudónimo de Vasco Valente Correia Guedes, que nasceu em Lisboa a 21 de Novembro de 1941. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa e tirou um doutoramento em História pela Universidade de Oxford. No final da década de 60, uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian permitiu-lhe estudar em Inglaterra, onde se doutorou, sendo um devoto de uma certa cultura académica, típica de Oxford.


Guia para um discurso jornalístico simplificado... Ver galeria

As “hard news” podem tornar-se pouco atractivas para os leitores, devido à linguagem formal e à utilização de conceitos desconhecidos pela maioria do “comum dos mortais”. 

Por muito que os jornalistas se esforcem para fazer passar a mensagem de forma clara, muitas vezes trabalham em “contra-relógio”, o que torna difícil a tarefa de escrever de maneira apelativa. Foi a pensar nesses profissionais que a jornalista Roy Peter Clark elaborou um pequeno guia, publicado na revista “Poynter”. 

Para a autora, o mais importante é escrever como quem conversa com um amigo num bar. É crucial utilizar linguagem simplificada, dar exemplos e explicar conceitos. Assim, poderá ser útil falar sobre o conteúdo, ainda que em monólogo, e só depois escrevê-lo.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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