Segunda-feira, 23 de Setembro, 2019
Opinião

As limitações do nosso jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

J.-MNobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de notícias fátuas que não exigem qualquer esforço e pouco ou nada contribuem para um conhecimento informado das situações. Mesmo a informação internacional é escassa e, muitas vezes, mal tratada”.

Como jornalista, não tenho uma reacção corporativa às críticas que se fazem ao jornalismo português. Concordo com muitos dos males apontados e lamento-os. Mas é de justiça salientar dois pontos.

Primeiro, a comunicação social portuguesa tem dado contributos importantes para a descoberta de casos de corrupção e outros, bem como trouxe para a praça pública a situação lamentável de muita gente que, de outra forma, continuaria a ser ignorada.

 Isto acontece apesar das limitações que prejudicam o trabalho dos jornalistas. Praticamente todos os media no nosso país – e no estrangeiro também – lutam com problemas financeiros sérios. A publicidade é escassa e os “sites” eletrónicos desses meios não conseguem anúncios financeiramente compensadores. Por isso as redações têm vindo a ser reduzidas ao mínimo: há menos jornalistas e menos recursos para financiar investigações complexas. Ora as solicitações são hoje muito maiores do que eram há poucas décadas atrás: a informação não pára, é permanente.

 O aparecimento da internet e das redes sociais levou a uma baixa brutal de leitores, ouvintes e telespectadores – e de publicidade. E o facto de os “media” tradicionais e os outros concorrerem, todos, em dar notícias 24 horas por dia nos respectivos “sites”, o mais rapidamente possível, não contribui propriamente para analisar e investigar, com tempo e ponderação, inúmeras informações, verdadeiras ou falsas.

Tenho dito várias vezes que o “Washington Post” não teria hoje possibilidades financeiras de fazer uma investigação como a realizada em 1974 ao caso Watergate: dois repórteres do jornal instalaram-se confidencialmente num hotel durante meses, com vários ajudantes. A crise é geral, mas Portugal tem uma população pouco dada à leitura e a ver e ouvir discutir temas sérios. O mercado é pequeno…

 Claro que, mesmo com as limitações existentes, o jornalismo nacional poderia ser melhor. Mas convém não esquecer aquilo de que os consumidores da comunicação social mais apreciam. Na televisão, por exemplo, é o futebol – não propriamente ver jogos, mas assistir a discussões intermináveis sobre “casos” envolvendo árbitros, dirigentes e jogadores. Ou, então, “reality shows” degradantes – começou com o “Big brother”.

Mas o fenómeno não é novidade nem apenas português. Há muito que os jornais “tabloides” britânicos vendem dez vezes mais do que os chamados jornais de referência. Esses tabloides levam o sensacionalismo e a desvergonha a níveis impressionantes. E a Grã-Bretanha é um país culto, mas onde surgem políticos populistas como Boris Johnson...  

Connosco
Estudo revela cepticismo sobre cobrança generalizada de conteúdos Ver galeria

Num relatório da KMPG intitulado “Presente e futuro do sector intermediário”, os empresários de media concordam que, a transição progressiva para um sistema de pagamento de conteúdos é necessária.

No entanto, apenas 38% desses executivos estão convencidos de que a cobrança pelos conteúdos digitais será generalizada nos próximos três anos. Entretanto, 62% acreditam que o modelo aberto e de pagamento coexistirá nesse período.

O relatório vem publicado no site da APM com quem a CPI tem um acordo de parceria.
Segundo o mesmo relatório, as cinco tendências que marcarão a agenda do sector dos media são as seguintes: a busca de um modelo de negócios rentável e sustentável, o potencial da publicidade digital, o compromisso com a qualidade, a análise de dados e alianças entre empresas jornalísticas.
A necessidade proteger o jornalismo do discurso inflamado Ver galeria

Os media e os jornalistas, parecem ter sido dominados pela energia estonteante dos discursos inflamados, da ofensa ao adversário e da mentira persuasiva que apelam á emoção em vez da razão, defende José Antonio Zarzalejos , nos  Cuadernos de Periodismo  da  APM, com a qual o CPI tem um acordo de parceria.

Especialmente, em período de eleições, a transmissão de mensagens “tornou-se um exercício de impostura e num território onde tudo é permitido, incluindo o insulto e a mentira”.

Nesta lógica comunicacional,  a transformação do estrangeiro em inimigo, e da dissidência em dissidente, são procedimentos  na arena política, segundo  o autor.
A receptividade para acolher  argumentos contrários  ou partilhar pensamentos diversos,  de acordo com   Zarzalejos, passou a ser entendido como uma abordagem fraca, sem convicção.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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