Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Media

História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

Andrés Rodríguez tornou-se, portanto, empresário, aprendeu por si, procurou soluções na Internet. Já tinha, do seu tempo na Prisa, a experiência de ter trazido para Espanha a revista Rolling Stone. Dirigiu-se então à Hearst e propôs que lhe dessem a licença da Esquire

“Tive a sorte de confiarem em mim, por várias razões, entre as quais pelo meu entusiasmo, porque lhes disse que, se ma dessem, eu sabia fazê-la.”  

Os responsáveis tomaram-no a sério e arriscaram, mas tornando claro que não investiam o dinheiro que lhe faltava para o arranque. Andrés Rodríguez empenhou a casa e começou, “com muito pouco dinheiro  e de forma inconsciente, mas seguro de mim mesmo”: 

“Em dois anos a revista já era rentável e, em treze, fizémos a Esquire  e a Harper’s Bazaar, temos a Forbes, temos títulos próprios como a Tapas, estou no conselho do diário El Español...  Agora sou editor, empresário, já sei pedir linhas de crédito, ganhar e perder dinheiro;  cometi erros, corrigi alguns...  Mas sou reconhecido como editor e, agora, os fornecedores de papel ou a impressora não nos pedem pagamento adiantado.”  (...) 

Reconhece o problema dos novos hábitos de consumo, o facto da diminuição dos tempos de leitura no papel, mas acrescenta:

“Já vivi nos tempos em que tudo ia bem, está perfeito e dormimos sossegados, mas o sector não avança. A vida começa fora da zona de conforto. Não sou masoquista, mas penso que o que está a acontecer agora faz-nos melhorar.”  (...) 

Do seu ponto de vista, o factor decisivo tem a ver com a compreensão da “comunidade” dos leitores a que se dirige um título:

“O que é uma revista? É uma marca que identifica uma comunidade, à qual se enviam constantemente inputs para que continue viva. Se fizermos bem a gestão, teremos anunciantes. É isso uma revista, e não mudou nada. O trabalho do editor é identificar uma comunidade, criar uma marca e relacionar-se com eles.”  (...) 

“Nós, editores, temos de saber como é a comunidade e o que precisa de nós. O trabalho é o mesmo: que a marca seja reconhecida, que seja rentável (que não gastemos mais do que cobramos), e pôr em contacto as comunidades com os anunciantes.”  (...) 

“Eu creio que o editor, que é quem decide [o que fornece] à comunidade, está mais vivo do que nunca e tem mais trabalho do que nunca, porque a comunidade quer relação durante as 24 horas e com toda a espécie de ferramentas. O trabalho é apaixonante. Não podemos deixar de editar em papel porque é aquilo que nos torna editores.”  (...) 

Finalmente, sobre a questão delicada de saber realmente o que lhes interessa e temos para dar aos leitores, Andrés Rodríguez responde: 

“Se dermos apenas aquilo que nos pede a comunidade, não trazemos nada de novo. Editar é dar à comunidade [dos leitores] uma coisa que não sabem que querem. É como lançar um anzol: se atiramos muito à frente, perdemos; se é muito perto, não trazemos nada porque já o têm. É uma das magias deste ofício.”  (...)

 

A entrevista aqui citada, na íntegra em Media-tics.

Connosco
"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

Jornalistas britânicos aconselhados a evitar "armadilhas"... Ver galeria

Claro que há algumas semelhanças notáveis entre Boris Johnson e Donald Trump  -  tais como o penteado, a parcimónia no uso da verdade e a conflituosidade.  Mas os jornalistas britânicos deviam prestar mais atenção às armadilhas encontradas nos EUA, durante estes três anos de Trump, e separar o que é importante e substancial daquilo que é apenas falso e superficial.

A reflexão, que aqui citamos do diário The Guardian, é da jornalista britânica Emily Bell, docente na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que afirma:

"As presentes circunstâncias políticas bizarras e o fascínio de um líder carismático e controverso proporcionam material de edição fácil, mas também colocam um desafio aos jornalistas políticos."

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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