Sexta-feira, 3 de Abril, 2020
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"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

Numa dessas acções de formação, realizada em Maio de 2019 em Cartagena, Colômbia, Liza Gross contou que o “jornalismo de soluções” nasce de uma profunda reflexão sobre  “o lugar que ocupava o jornalismo na sociedade  - especialmente em democracia -  e qual deveria ser, tendo em conta as mudanças tecnológicas e económicas do ecossistema mediático”. 

Nos últimos cinco anos, e depois de visitar mais de 200 empresas de media, nos EUA, “chegou à conclusão de que muitos jornalistas partilham esta mesma inquietação: tem de haver alguma coisa além de simplesmente fazer uma denúncia”. 

“Conforme explica, o jornlismo de soluções não é mais do que a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais.” 

“Não é jornalismo-cidadão nem jornalismo positivo. Também não se trata de relações públicas, activismo ou publi-reportagens [conteúdos patrocinados]. É uma ferramenta para apresentar aos leitores informação de uma nova forma, e a qualidade dos trabalhos realizados segundo este foco depende da competência dos jornalistas para a utilizarem.” 

“A diferença entre o foco tradicional e o de soluções é procurar a excepção positiva. Se há dez hospitais que não cumprem os requisitos mínimos para atenderem às mães do seu primeiro filho [primíparas], haverá algum que o consegue. Então devemos perguntar: como é que o consegue?”  -  resume Liza Gross.  (...) 

Como afirma noutro texto, sobre os “três mitos comuns” a respeito desta disciplina,  “o jornalismo de soluções não exagera, não promete, baseia-se em evidência, não especula;  por este motivo, por exemplo, eu não faria cobertura com foco em soluções de um programa que se anuncia, mas não tem qualquer evidência de ser bem sucedido”. 

“Pode ser, em teoria, um programa muito prometedor, mas se não sabemos se já deu ou não resultado, não é um tema que se possa cobrir neste momento sob essa modalidade.” 

“Pelo contrário, o verdadeiro foco do jornalismo de soluções está na cobertura de programas ou políticas que já estejam em marcha, o que permite recolher dados e medições que demonstrem a eficácia, ou não, da estratégia implementada como resposta a uma situação adversa.” 

Também sabe denunciar aquilo que está mal ou não funciona, mas não se conforma com isso: 

“É importante sublinhar que o jornalismo de soluções não é relações públicas, não é só a história agradável ou cor-de-rosa, mas, pelo contrário, o foco nas soluções pode ser incómodo, mas sempre útil, orienta-se na busca de mudanças sistémicas, para estudar como uma reposta está a mudar a situação e a conduzir a uma resposta mais positiva.” 

Por último, não se trata apenas de respostas que resultam a cem por cento, mas também de programas que funcionam de modo parcial, só em determinadas circunstâncias, “incluindo respostas que tiveram êxito em algum momento e deixaram de ter por algum motivo.”  (...) 

 

Mais informação  nestes textos  da FNPI,  e os antecedentes deste debate no nosso site.

Connosco
A importância do jornalismo no reforço da transparência Ver galeria

É missão de todos os jornalistas ajudar o público a ver e a compreender os acontecimentos mais relevantes para a sociedade. Faz ainda parte dessa profissão auxiliar as pessoas a distinguir as opiniões, desde as irracionais, instigadas pelo ódio, aos factos jornalisticamente apurados. 

Em tempo de pandemia do novo coronavírus, a informação de qualidade ganha o mesmo grau de importância que o trabalho de médicos e de cientistas. Um novo estudo ou a cura de uma doença deverá ser divulgado e discutido à exaustão por especialistas e terá a divulgação assegurada pelos veículos de comunicação por intermédio dos jornalistas.

Num oportuno artigo publicado no Observatório da Imprensa, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceira, a jornalista Denise Becker reflectiu sobre a importância do papel da imprensa fidedigna, particularmente, numa altura em que figuras políticas desvalorizam os impactos de uma pandemia. 
Segundo a autora, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem deixado a nação perplexa, ao minimizar os efeitos do novo coronavírus, contrariando as recomendações dos médicos, do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde para conter a disseminação da pandemia. Da mesma forma , o Presidente tem tecido duras críticas aos “media”, acusando-os de alarmismo e disseminar o pânico.

A vaga de "infodemia" como consequência do Covid-19 Ver galeria

A história da Humanidade ficou marcada por diversas pandemias, que tiveram consequências profundas. Tais acontecimentos marcaram o imaginário de alguns dos mais proeminentes autores da literatura modernas, que tomam acontecimentos trágicos, e absurdos, como a base das suas obras, reflexões e analogias.

Agora, atravessamos uma situação semelhante, mas com uma infinidade de recursos informativos. Nunca tivemos tantas possibilidades de informação e comunicação disponíveis, em momentos de crise e tensão, e  tantos dados e números que ajudam, sem dúvida, nas nossas tentativas de restabelecer o controle sobre a caótica situação. É a vaga da “infodemia”.

Saber o que acontece, as possibilidades envolvidas, as fórmulas para lidar com o risco e com a doença são factores fundamentais. No entanto, esse avanço em relação a outros tempos e ameaças produz, também, efeitos colaterais.

Perante os actuais acontecimentos  que assolam o mundo, o filósofo José Costa teceu considerações sobre algumas das mais conhecidas metáforas da literatura contemporânea, que fazem “ponte” com essa “infodemia”.  O artigo foi, originalmente, publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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