Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
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"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

Numa dessas acções de formação, realizada em Maio de 2019 em Cartagena, Colômbia, Liza Gross contou que o “jornalismo de soluções” nasce de uma profunda reflexão sobre  “o lugar que ocupava o jornalismo na sociedade  - especialmente em democracia -  e qual deveria ser, tendo em conta as mudanças tecnológicas e económicas do ecossistema mediático”. 

Nos últimos cinco anos, e depois de visitar mais de 200 empresas de media, nos EUA, “chegou à conclusão de que muitos jornalistas partilham esta mesma inquietação: tem de haver alguma coisa além de simplesmente fazer uma denúncia”. 

“Conforme explica, o jornlismo de soluções não é mais do que a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais.” 

“Não é jornalismo-cidadão nem jornalismo positivo. Também não se trata de relações públicas, activismo ou publi-reportagens [conteúdos patrocinados]. É uma ferramenta para apresentar aos leitores informação de uma nova forma, e a qualidade dos trabalhos realizados segundo este foco depende da competência dos jornalistas para a utilizarem.” 

“A diferença entre o foco tradicional e o de soluções é procurar a excepção positiva. Se há dez hospitais que não cumprem os requisitos mínimos para atenderem às mães do seu primeiro filho [primíparas], haverá algum que o consegue. Então devemos perguntar: como é que o consegue?”  -  resume Liza Gross.  (...) 

Como afirma noutro texto, sobre os “três mitos comuns” a respeito desta disciplina,  “o jornalismo de soluções não exagera, não promete, baseia-se em evidência, não especula;  por este motivo, por exemplo, eu não faria cobertura com foco em soluções de um programa que se anuncia, mas não tem qualquer evidência de ser bem sucedido”. 

“Pode ser, em teoria, um programa muito prometedor, mas se não sabemos se já deu ou não resultado, não é um tema que se possa cobrir neste momento sob essa modalidade.” 

“Pelo contrário, o verdadeiro foco do jornalismo de soluções está na cobertura de programas ou políticas que já estejam em marcha, o que permite recolher dados e medições que demonstrem a eficácia, ou não, da estratégia implementada como resposta a uma situação adversa.” 

Também sabe denunciar aquilo que está mal ou não funciona, mas não se conforma com isso: 

“É importante sublinhar que o jornalismo de soluções não é relações públicas, não é só a história agradável ou cor-de-rosa, mas, pelo contrário, o foco nas soluções pode ser incómodo, mas sempre útil, orienta-se na busca de mudanças sistémicas, para estudar como uma reposta está a mudar a situação e a conduzir a uma resposta mais positiva.” 

Por último, não se trata apenas de respostas que resultam a cem por cento, mas também de programas que funcionam de modo parcial, só em determinadas circunstâncias, “incluindo respostas que tiveram êxito em algum momento e deixaram de ter por algum motivo.”  (...) 

 

Mais informação  nestes textos  da FNPI,  e os antecedentes deste debate no nosso site.

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

Jornalistas britânicos aconselhados a evitar "armadilhas"... Ver galeria

Claro que há algumas semelhanças notáveis entre Boris Johnson e Donald Trump  -  tais como o penteado, a parcimónia no uso da verdade e a conflituosidade.  Mas os jornalistas britânicos deviam prestar mais atenção às armadilhas encontradas nos EUA, durante estes três anos de Trump, e separar o que é importante e substancial daquilo que é apenas falso e superficial.

A reflexão, que aqui citamos do diário The Guardian, é da jornalista britânica Emily Bell, docente na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que afirma:

"As presentes circunstâncias políticas bizarras e o fascínio de um líder carismático e controverso proporcionam material de edição fácil, mas também colocam um desafio aos jornalistas políticos."

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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