Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Opinião

Os jornalistas e os incêndios

por Francisco Sarsfield Cabral

Nos terríveis incêndios florestais de 2017 ouviram-se críticas à maneira sensacionalista como a comunicação social, ou parte dela, havia tratado essa tragédia. Julgo que, de facto, demasiadas vezes houve, então, uma exploração algo abusiva do que se estava a passar.

As imagens televisivas de grandes fogos, sobretudo de noite, são muito atractivas. Mas podem induzir potenciais pirómanos a passarem à acção. Claro que os “media” têm obrigação de não ocultar o que se passa, ainda que trágico. Apenas se recomenda alguma contenção e alguma sobriedade.

O mesmo se diga de uma certa insistência, há dois anos, no espectáculo da aflição das pessoas atingidas pelos fogos, muitas delas idosas e em estado psicológico descontrolado – como bem se compreende. Importa saber respeitar as vítimas.

Não realizei qualquer estudo nem vi, ouvi e li tudo o que foi noticiado sobre os grandes incêndios do corrente ano, que, felizmente, não mataram gente. Mas é minha impressão que os jornalistas que cobriram esses fogos foram mais responsáveis e contidos do que em 2017.

 

Claro que, nestas ocasiões, os meios de comunicação social recorrem a comentadores – ou melhor, aos comentadores que conseguem convidar, num período que já é de férias. Naturalmente, nem todos os que comentaram teriam as qualificações necessárias para nos elucidarem sobre um assunto tão controverso e tão dramático.

 

Quem parece não ter apreciado o trabalho dos jornalistas sobre os incêndios florestais de Julho deste ano foi o ministro da Administração Interna. Como escreveu no “site” da Renascença a sua Directora de Informação, Graça Franco, o ministro Eduardo Cabrita, depois de recusar responder às perguntas colocadas pelos “media”, “esperou que as luzes de apagassem e, já com os microfones desligados, mimoseou os repórteres com o epíteto de cobras”.

Como se sabe, o ministro estava irritado com perguntas sobre o extraordinário caso de uns “kits” distribuídos às pessoas, que vivem em aldeias de risco de incêndio, para  conterem uma máscara anti-fumo que... não poderia ser usada em caso de incêndio, por ser inflamável. É, de facto, surrealista.

Citando, ainda Graça Franco: “Eduardo Cabrita tentou dificultar o trabalho dos jornalistas no terreno e, além de os insultar em trabalho, insinuou, como quem dá lições de civismo, desta vez em on, que não estavam a ser nem sérios nem responsáveis. Ironia máxima: o Governo estava a ser confrontado com o facto do Estado ter desbaratado cerca de 300 mil euros dos nossos impostos em dois contratos com uma empresa do marido de uma autarca apoiada pelo PS".  

Acrescento, apenas, que os jornalistas que foram alvo desta atitude inqualificável do ministro souberam ser “sérios e responsáveis”, reportando a agressão ministerial com calma, dignidade e verdade.

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No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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