Sexta-feira, 3 de Abril, 2020
Opinião

Os jornalistas e os incêndios

por Francisco Sarsfield Cabral

Nos terríveis incêndios florestais de 2017 ouviram-se críticas à maneira sensacionalista como a comunicação social, ou parte dela, havia tratado essa tragédia. Julgo que, de facto, demasiadas vezes houve, então, uma exploração algo abusiva do que se estava a passar.

As imagens televisivas de grandes fogos, sobretudo de noite, são muito atractivas. Mas podem induzir potenciais pirómanos a passarem à acção. Claro que os “media” têm obrigação de não ocultar o que se passa, ainda que trágico. Apenas se recomenda alguma contenção e alguma sobriedade.

O mesmo se diga de uma certa insistência, há dois anos, no espectáculo da aflição das pessoas atingidas pelos fogos, muitas delas idosas e em estado psicológico descontrolado – como bem se compreende. Importa saber respeitar as vítimas.

Não realizei qualquer estudo nem vi, ouvi e li tudo o que foi noticiado sobre os grandes incêndios do corrente ano, que, felizmente, não mataram gente. Mas é minha impressão que os jornalistas que cobriram esses fogos foram mais responsáveis e contidos do que em 2017.

 

Claro que, nestas ocasiões, os meios de comunicação social recorrem a comentadores – ou melhor, aos comentadores que conseguem convidar, num período que já é de férias. Naturalmente, nem todos os que comentaram teriam as qualificações necessárias para nos elucidarem sobre um assunto tão controverso e tão dramático.

 

Quem parece não ter apreciado o trabalho dos jornalistas sobre os incêndios florestais de Julho deste ano foi o ministro da Administração Interna. Como escreveu no “site” da Renascença a sua Directora de Informação, Graça Franco, o ministro Eduardo Cabrita, depois de recusar responder às perguntas colocadas pelos “media”, “esperou que as luzes de apagassem e, já com os microfones desligados, mimoseou os repórteres com o epíteto de cobras”.

Como se sabe, o ministro estava irritado com perguntas sobre o extraordinário caso de uns “kits” distribuídos às pessoas, que vivem em aldeias de risco de incêndio, para  conterem uma máscara anti-fumo que... não poderia ser usada em caso de incêndio, por ser inflamável. É, de facto, surrealista.

Citando, ainda Graça Franco: “Eduardo Cabrita tentou dificultar o trabalho dos jornalistas no terreno e, além de os insultar em trabalho, insinuou, como quem dá lições de civismo, desta vez em on, que não estavam a ser nem sérios nem responsáveis. Ironia máxima: o Governo estava a ser confrontado com o facto do Estado ter desbaratado cerca de 300 mil euros dos nossos impostos em dois contratos com uma empresa do marido de uma autarca apoiada pelo PS".  

Acrescento, apenas, que os jornalistas que foram alvo desta atitude inqualificável do ministro souberam ser “sérios e responsáveis”, reportando a agressão ministerial com calma, dignidade e verdade.

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A importância do jornalismo no reforço da transparência Ver galeria

É missão de todos os jornalistas ajudar o público a ver e a compreender os acontecimentos mais relevantes para a sociedade. Faz ainda parte dessa profissão auxiliar as pessoas a distinguir as opiniões, desde as irracionais, instigadas pelo ódio, aos factos jornalisticamente apurados. 

Em tempo de pandemia do novo coronavírus, a informação de qualidade ganha o mesmo grau de importância que o trabalho de médicos e de cientistas. Um novo estudo ou a cura de uma doença deverá ser divulgado e discutido à exaustão por especialistas e terá a divulgação assegurada pelos veículos de comunicação por intermédio dos jornalistas.

Num oportuno artigo publicado no Observatório da Imprensa, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceira, a jornalista Denise Becker reflectiu sobre a importância do papel da imprensa fidedigna, particularmente, numa altura em que figuras políticas desvalorizam os impactos de uma pandemia. 
Segundo a autora, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem deixado a nação perplexa, ao minimizar os efeitos do novo coronavírus, contrariando as recomendações dos médicos, do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde para conter a disseminação da pandemia. Da mesma forma , o Presidente tem tecido duras críticas aos “media”, acusando-os de alarmismo e disseminar o pânico.

A vaga de "infodemia" como consequência do Covid-19 Ver galeria

A história da Humanidade ficou marcada por diversas pandemias, que tiveram consequências profundas. Tais acontecimentos marcaram o imaginário de alguns dos mais proeminentes autores da literatura modernas, que tomam acontecimentos trágicos, e absurdos, como a base das suas obras, reflexões e analogias.

Agora, atravessamos uma situação semelhante, mas com uma infinidade de recursos informativos. Nunca tivemos tantas possibilidades de informação e comunicação disponíveis, em momentos de crise e tensão, e  tantos dados e números que ajudam, sem dúvida, nas nossas tentativas de restabelecer o controle sobre a caótica situação. É a vaga da “infodemia”.

Saber o que acontece, as possibilidades envolvidas, as fórmulas para lidar com o risco e com a doença são factores fundamentais. No entanto, esse avanço em relação a outros tempos e ameaças produz, também, efeitos colaterais.

Perante os actuais acontecimentos  que assolam o mundo, o filósofo José Costa teceu considerações sobre algumas das mais conhecidas metáforas da literatura contemporânea, que fazem “ponte” com essa “infodemia”.  O artigo foi, originalmente, publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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