Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Media

Jornalistas britânicos aconselhados a evitar "armadilhas"...

Claro que há algumas semelhanças notáveis entre Boris Johnson e Donald Trump  -  tais como o penteado, a parcimónia no uso da verdade e a conflituosidade.  Mas os jornalistas britânicos deviam prestar mais atenção às armadilhas encontradas nos EUA, durante estes três anos de Trump, e separar o que é importante e substancial daquilo que é apenas falso e superficial.

A reflexão, que aqui citamos do diário The Guardian, é da jornalista britânica Emily Bell, docente na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que afirma:

"As presentes circunstâncias políticas bizarras e o fascínio de um líder carismático e controverso proporcionam material de edição fácil, mas também colocam um desafio aos jornalistas políticos."

A autora conta que a notícia importante da semana, nos Estados Unidos, foi o testemunho prestado por Robert Mueller a duas comissões do Congresso, sobre o conteúdo do seu relatório sobre a interferência russa nas eleições presidenciais de 2016. 

“A substância do seu testemunho foi que houve interferência, e que continua a haver. Mesmo que já soubéssemos, isto ainda era assunto importante. No entanto, o modo como foi feita a cobertura das declarações conta uma história diferente. O sucesso da sua apresentação foi julgado em termos da forma e não do conteúdo.”  (...) 

“A cobertura superficial de Mueller deu aos críticos dos media uma oportunidade de, mais uma vez, apontarem a tendência dos jornalistas políticos nos EUA para avaliarem a política como uma produção de teatro, focando-se no drama e na qualidade de bilheteira destes tempos extraordinários, em vez de aprofundarem o seu significado.”  (...) 

Emily Bell cita outro comentário oportuno, neste caso de Kyle Pope, o director da Columbia Journalism Review, que “oferece um bom conselho aos jornalistas independentes, no Reino Unido, na sequência de Trump”: 

“Eu gostaria de encorajar os repórteres do Reino Unido a serem rudemente honestos consigo próprios e com os seus leitores, a respeito de quem é Boris e quais são as suas motivações, e então seguirem em frente. Não deixem que ele se torne o vosso editor, não deixem que seja ele a ditar a agenda noticiosa.”  (...) 

“Fazer mais a cobertura do estilo do que da substância, tolerar profundos conflitos de interesse não declarados, ampliar e repetir coisas que se sabe não serem verdade, em busca de atenção ou vantagem partidária, são historicamente mais uma característica do que uma falha do jornalismo político britânico. São o modelo de negócio de importantes impérios de Imprensa, muito mais agora que estão postos em perigo por um mercado que pode encontrar entretenimento mais barato e com mais facilidade noutro sítio.”  (...) 

“Claro que muitos jornalistas preferiam despedir-se a terem de fazer o seu ofício seguindo o formato de Boris Johnson. Vale a pena repetir, muitas vezes, que o facto de sabermos alguma coisa de substância sobre o nosso actual momento político se deve ao trabalho insistente de investigadores e repórteres que continuam a escavar e a apresentar os aspectos menos divertidos da vida pública.”  (...) 

A concluir, Emily Bell afirma que  “talvez a maior lição que os media britânicos podem tirar da experiência de Trump nos EUA seja a de que o seu trabalho é importante para as pessoas, para além dos seus leitores ou audiência, e que, para esse objectivo, precisa de ser mais rigoroso e mais sério”.  (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra em  The Guardian

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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