Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Media

França já adoptou a Directiva Europeia sobre "direito vizinho"

O Parlamento francês aprovou, por maioria de 81 votos contra um, o projecto de lei que atribui aos media o direito de negociarem com as plataformas tecnológicas uma remuneração pelo seu uso de extractos de artigos e vídeos. Com esta decisão, a França torna-se o primeiro país europeu a transpor para o seu quadro jurídico o chamado “direito vizinho”, instaurado pela nova Directiva europeia sobre Direitos de Autor, votada em Estrasburgo a 26 de Março.

Segundo o autor do projecto, David Assouline, membro do Senado pelo Partido Socialista, o que se segue vai agora “depender da unidade da Imprensa”, com os editores em melhor relação de força, graças a esta lei. Também Patrick Mignola, do MoDem – Mouvement Démocrate, que foi o relator do texto na Assembleia, afirma:

“Deveríamos ter uma primeira ronda de negociações antes do fim do Verão. Isso viria mostrar que a Imprensa é capaz de se organizar e que os gigantes do digital compreendem que ela é importante para a democracia.”

O grupo de Imprensa Les Echos – Le Parisien encomendou um estudo segundo o qual a “perda de receita” causada pelo domínio do mercado da publicidade pelo duopólio Google – Facebook vai de 250 a 320 milhões de euros por ano, ou seja, “entre 9% a 12% das receitas publicitárias dos motores de busca e das redes sociais”, calculadas em 2,7 mil milhões de euros em 2017. 

“O ‘direito vizinho’ deveria compensá-las. Mas, apesar destes cálculos, a negociação promete ser rude.” 

Segundo Le Monde, que aqui citamos, apesar dos apelos à unidade, já se sentem as dificuldades entre editores. Alterações de pormenor vieram precisar que a repartição da remuneração terá em conta os “investimentos humanos, materiais e financeiros realizados pelos editores e agências de Imprensa”, bem como a sua “contribuição para a informação política e geral”. 

“A ideia é não remunerar os meios de comunicação exclusivamente em função da audiência dos seus extractos de artigos na Google News ou no Facebook, para evitar uma corrida aos clicks e favorecer a Imprensa de qualidade.” 

Mas esta mudança suscitou “a inquietação de ver a Imprensa especializada, ou os magazines, excluídos do ‘direito vizinho’”  - como reconheceu o ministro da Cultura, Franck Riester, no Senado, antes de precisar: 

“Nenhum editor será excluído deste direito, porque os critérios mencionados no texto não podem ser cumulativos ou exaustivos.” 

O artigo que citamos descreve algumas primeiras reacções já escutadas sobre esta matéria, em França, bem como a previsível resistência das plataformas. E conclui: 

“Todos se lembram de que as leis votadas antes da Directiva para instaurar um ‘direito vizinho’ não tinham permitido negociar uma remuneração. Na Espanha, a Google preferiu fechar as Google News e, na Alemanha, a empresa tinha obrigado os editores a concederem uma licença gratuita se queriam figurar neste serviço.” 

“A Directiva votada a nível europeu instaura uma relação de forças diferente”, bem como uma negociação mais colectiva  - pensa David Assouline. 

Mas, “quando tiverem terminado a sua negociação com as plataformas, os editores vão ter ainda de conduzir mais uma, desta vez com os seus jornalistas, que devem, segundo a lei, receber uma parte da remuneração”.

 

Mais informação em Le Monde   e no nosso site

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História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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