Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
Media

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

A questão “que incomoda”, finalmente, é posta dos dois lados. Há jornalistas a perguntarem por que são odiados e agredidos, e há manifestantes a perguntarem por que são todos descritos como arruaceiros. 

Matthieu, um condutor de pesados, descreve a continuidade do movimento, mais organizado e com participação em reuniões municipais, “para que os cidadãos deixem de ter medo de nós”: 

“Continuamos activos, mas de modo diferente”  -  afirma. E, segundo Claude, uma reformada, “temos de continuar a fazer ver que não somos invisíveis”. 

A apresentação de Florence Aubenas foi bem recebida, com uma das participantes a cumprimentá-la: “Você é a honra da sua profissão. Obrigado por denunciar as desigualdades!” 

Não foi tão fácil com Céline Pigalle, da BFM-TV, a quem um dos manifestantes lançou: 

“A senhora não conhece nada dos gilets jaunes! Está no alto da sua nuvem, como os políticos! Vocês ‘estão-se nas tintas’ para nós! No campo, não vimos ninguém!” 

Céline Pigalle aguentou o embate e fez um esforço de explicação, “reconhecendo erros, indicando que a BFM-TV trabalha no registo de imagem, admitindo um trabalho ‘demasiadamente pouco cauteloso’, com emissões em directo ‘por vezes hipnóticas e infelizes’.” 

Mas contou também que a chuva de críticas contra o trabalho da sua estação  “veio de todos os lados: do governo, dos outros jornalistas e dos gilets jaunes”: 

“Com 70% de audiência no Outono, éramos um dos últimos sítios onde se podiam encontrar espectadores com horizontes muito diferentes. Já ninguém quer ver senão a sua própria opinião.”  (...) 

“A actualidade social dos gilets jaunes teria esclarecido as grelhas de leitura truncadas, tanto parisienses como jornalísticas”  - segundo o texto de Le Monde

Como admite a sua repórter Florence Aubenas: 

“Para nós, o primeiro reflexo era procurar um dirigente e os elementos aglutinadores. Azar nosso, não havia.”  (...)

 

Mais informação em  Le Monde

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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