null, 21 de Julho, 2019
Media

Ecossistema mediático da era industrial dá lugar ao sistema digital

O pensamento que prevalecia nas redacções era o de que “a Web era apenas um novo meio de comunicação, com o qual se iria conviver, ou simplesmente uma plataforma eletrónica de distribuição do jornal tradicional. Da mesma maneira que sobreviveram ao impacto do rádio e da televisão, os jornais agora sobreviveriam ao impacto da Internet”.

Mas os jornais “não entendiam as verdadeiras dimensões das mudanças que estavam por vir”. A futurologia cometia o erro de projectar a evolução do presente em vez de imaginar que todo o contexto seria bem diferente.

É preciso revisitar esses equívocos se queremos “tirar algumas lições da dolorosa experiência americana”. Um dos “futurólogos”, Roger Fidler, cunhou o termo “mediamorfose” para designar a adaptação repetitiva que conseguiria integrar a revolução digital sem vítimas. Mas Rosental Calmon Alves, responsável pelo longo texto que aqui citamos, declara que o que aconteceu foi um “mediacídio”.

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Para o autor, o sufixo que se refere a morte, ou assassínio, é adequado e intencional, porque este “mediacídio” é precisamente “a morte do ecossistema mediático da era industrial, para dar lugar ao sistema mediático da era digital”. 

A nova lógica comunicacional “não é compatível com a estrutura dos meios herdados da era anterior”: 

“Há anos venho falando isso e repetindo a ideia de que passaríamos de uma comunicação mediacêntrica para uma comunicação ‘eucêntrica’, na qual cada um de nós é um meio de comunicação potencial. Passamos da era dos meios de massa à era da massa de meios!”  (...) 

“As redes sociais e plataformas tecnológicas ampliaram ainda mais essas possibilidades e reforçaram os movimentos destrutivos do ecossistema da era industrial, com uma ruptura avassaladora do mercado publicitário. Eis que a minha ideia de massa de meios emerge não só com a proliferação de mais meios digitais, mas também com uma cacofonia perigosa.” 

“Infelizmente, esse novo ecossistema virou terreno fértil para a desinformação, a manipulação de sentimentos. Tem gerado polarização, com formação de tribos virtuais, num fenómeno que os sociólogos chamam em inglês de homophily  – a tendência de se relacionar apenas com pessoas que pensam como você.” 

“O sonho dos efeitos positivos de uma democratização do acesso à informação e à comunicação acabou se tornando um pesadelo, que deu margem à actual onda de populismo e autoritarismo. Exactamente o oposto do que muitos pensavam.”  (...)

Nos Estados Unidos, que conhece bem  - Rosental Alves é há mais de vinte anos professor titular de jornalismo na Universidade de Austin, no Texas -  os jornais deixaram de ser as “verdadeiras máquinas de fazer dinheiro” que tinham sido.

Como conta o autor, houve um tempo em que “a média de lucratividade dos jornais era de 23%, enquanto o sector anunciante que lucrava mais era o farmacêutico, com 19%; o lucro dos outros ficava abaixo dos 10%”.  (...) 

“Quando veio a crise provocada pela TV nos anos 1960, muitos jornais começaram a desaparecer, principalmente porque não fazia mais sentido ter vespertinos. Os telejornais os mataram. Vendo a quebradeira de jornais, o governo interveio. Em 1970, o Congresso aprovou a Lei de Preservação dos Jornais, e o presidente Nixon a promulgou, depois de muita hesitação.”  (...) 

“O tiro saiu pela culatra. As grandes cadeias nacionais foram as que se beneficiaram e, em vez de manter as redacções separadas, os jornais acabaram se juntando, através de compras ou fusões, que levaram a uma monopolização generalizada. No final do século passado, só havia umas trinta áreas metropolitanas nos Estados Unidos que tinham mais de um jornal. Em centenas de outras cidades, só havia um.”  (...) 

Ao longo dos anos 80 e 90 do século findo, os lucros desses novos monopólios continuaram a aumentar extraordinariamente. 

“Também vale lembrar que os principais jornais e cadeias de jornais nos Estados Unidos tinham se tornado empresas de capital aberto, com acções na Bolsa. As famílias proprietárias se encheram de dinheiro com a entrada na Bolsa, mas isso mudou o jogo radicalmente.” 

“Em vez das famílias acostumadas a períodos de vacas magras e de vacas gordas, os jornais agora tinham investidores de Wall Street, sedentos de lucros. Os accionistas têm chamadas a cada três meses para saber como andam os resultados e pressionar por mais lucros. E não tinha mais essa de aguentar os períodos de vacas magras.”  (...) 

A partir de 1995, primeiro a Craiglist (empresa de anúncios classificados grátis, fundada por Craig Newmark), depois a Google, mudaram definitivamente as regras do jogo. 

A Google trazia “um modelo de negócio baseado num novo tipo de publicidade, muito barata e muito eficiente, a partir do uso de dados pessoais que iam recolhendo e que eram usados para entregar apenas anúncios que interessavam ao consumidor; se o anúncio não funcionasse, não só o anunciante não tinha que pagar, mas ele ia sendo rebaixado no ranking até ser expulso”. 

O texto de Rosental Alves descreve depois, com abundância de documentação, a “tempestade perfeita” que se abateu sobre os jornais a partir de 2008: 

“De um lado, a recessão americana, mais uma crise cíclica, circunstancial, as vacas magras a que me referia, que ia passar. E, de outro lado, uma crise estrutural, que não ia passar. Já tinham perdido os classificados e começavam a desaparecer também os display ads, os anúncios grandes. A circulação caía, ainda que este não fosse o problema. O problema eram e são os anúncios, que encontraram outros caminhos.”  (...) 

“Como pioneiro do jornalismo online, eu tenho me espantado com as críticas dos últimos anos ao facto de os jornais terem oferecido gratuitamente seu conteúdo online nos primeiros anos da Internet. Falam como se todos os da minha geração fôssemos uns idiotas que não tivessem pensado em cobrar.” 

“É bom lembrar que isso não é certo. Houve inúmeras tentativas de cobrança no acesso ao conteúdo e praticamente todas fracassaram.”  (...) 

“Parece que o modelo de negócio dos jornais passou a ser baseado no corte de custos. E corte de custos é um modelo de negócio finito. O fim pode estar chegando para muitos jornais. Quase dois mil fecharam nos últimos quinze anos, segundo as contas de minha colega [na Knight Chair] Penny Abernathy, ex-executiva do New York Times e do Wall Street Journal, que há anos vem desenvolvendo um excelente trabalho de análise e monitoramento do mercado de jornais e da criação dos chamados desertos de notícias.”  (...) 

“Lá atrás, por volta de 2008, fundos de investimento de Nova York detectaram os jornais como um sector industrial em decadência, do qual poderiam tirar grandes lucros. A gente conhece as histórias desses especuladores que compram empresas quase quebradas, na bacia das almas, dizem que vão tentar salvá-las, mas acabam com elas e, no processo, se enchem de dinheiro.”  (...) 

“Os fundos de investimento compram os jornais de olho nos imóveis e começam sua estratégia de dilapidação das empresas. O maior desses fundos, ao ver essa oportunidade mais de uma década atrás, formou também uma empresa imobiliária que se especializou em ganhar milhões de dólares negociando os prédios dos jornais. Os fundos, em geral, não dão a menor bola para estratégias digitais porque, ao contrário do que dizem, não estão nada interessados em metas de longo prazo, mas sim no curto e no curtíssimo prazos.”  (...) 

Depois do naufrágio, o autor apresenta exemplos do que pode sobreviver: por exemplo o “jornalismo sem fins de lucros”, na forma de startups noticiosas, nativas digitais, que “nascem para preencher o vazio deixado pelos jornais na cobertura de cidades, regiões ou estados”. Ele próprio está associado a uma das mais bem sucedidas, a do Texas Tribune

O segredo, como conta, é: 

“Primeiro, investir no jornalismo de qualidade, com jornalistas bem pagos, numa redacção comprometida com a inovação. Segundo, uma diversificação das fontes de receita, de maneira a não depender muito de nenhuma especificamente. Terceiro, actuar como se fosse uma companhia qualquer.” 

“Entender que não ter fins lucrativos é apenas uma definição fiscal, ou seja, um status que se beneficia com o facto de não pagar impostos, e saber que nossos doadores não precisam pagar impostos sobre as doações que nos fazem.” 

“Mas também faz parte dessa fórmula de sucesso o facto de que não ficamos de braços cruzados esperando que nos doem. Corremos atrás da grana de que precisamos para financiar o jornalismo de excelência que nossos jornalistas praticam.”  (...)

E o autor conclui:

“Não há uma fórmula mágica, uma panaceia. Como disse antes, o ecossistema mediático em que estamos agora é uma selva, com a enorme biodiversidade dos trópicos.” 

“Estou super-entusiasmado com o potencial do jornalismo sem fins de lucro, diante da falta de possibilidade de lucro nesse novo ecossistema mediático. Mas não estou dizendo que o jornalismo lucrativo comercial vai desaparecer. Estou apenas afirmando que o jornalismo sem fins de lucro vai crescer e ocupar um espaço que não ocupava antes.”  (...)

 

O texto aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
A formação académica do jornalismo profisional em debate Ver galeria

A FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España, que reune mais de 19 mil associados, declarou em Junho de 2019 que vai deixar de admitir nesta qualidade jornalistas que não estejam habilitados com um título académico de jornalismo, mesmo que estejam exercendo a profissão. O seu presidente, Nemesio Rodriguez, disse a eldiario.es  que o objectivo era “valorizar o título de jornalista e resolver o problema da intrusão”.

Uma consequência inesperada, entre várias críticas chegadas, foi a desvinculação, da sua pertença à FAPE, decidida pela AECC – Asociación Española de Comunicación Científica, cujos profissionais, especializados na comunicação científica, detêm maioritariamente outras licenciaturas. O seu presidente, Antonio Calvo, declarou que não fazia sentido “continuar a pertencer a uma associação onde não podem entrar metade dos nossos sócios”.

Este episódio reacendeu um debate que se alarga à própria vocação das associações de jornalistas. Sobre ambas as questões, e outras relacionadas, a  Red Ética da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano  organizou um tweet-debate marcado para 18 de Julho, de cujas conclusões daremos conta quando forem publicadas.

Apelo de investigadores contra "fake news" em divulgação científica Ver galeria

Será que a ciência é “distorcida” pelos media, por incapacidade de fazerem uma divulgação rigorosa, ou por qualquer outro motivo?
É para responder a este problema que o colectivo denominado NoFakeScience, composto por duas dezenas de cientistas e especialistas na divulgação de ciência, redigiu e publica no diário francês L’Opinion um texto que apela a um “trabalho de mãos dadas” entre jornalistas e cientistas. Juntaram-se a eles outros 230 grandes nomes da investigação, de todo o mundo, perfazendo assim um total de 250 signatários deste apelo.

“Nesta hora em que a desconfiança nos media e nas instituições chega ao extremo, apelamos a um questionamento profundo de toda a cadeia de informação, para que os temas de natureza científica possam ser restituídos a todos sem deformação sensacionalista nem ideológica, e para que a confiança possa ser, a longo prazo, restaurada entre os cientistas, os meios de comunicação e os cidadãos”  -  afirma o primeiro parágrafo do texto.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Agenda
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Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
04
Set
Infocomm China
09:00 @ Chengdu, Sichuan Province, China