Quinta-feira, 14 de Novembro, 2019
Media

Ecossistema mediático da era industrial dá lugar ao sistema digital

O pensamento que prevalecia nas redacções era o de que “a Web era apenas um novo meio de comunicação, com o qual se iria conviver, ou simplesmente uma plataforma eletrónica de distribuição do jornal tradicional. Da mesma maneira que sobreviveram ao impacto do rádio e da televisão, os jornais agora sobreviveriam ao impacto da Internet”.

Mas os jornais “não entendiam as verdadeiras dimensões das mudanças que estavam por vir”. A futurologia cometia o erro de projectar a evolução do presente em vez de imaginar que todo o contexto seria bem diferente.

É preciso revisitar esses equívocos se queremos “tirar algumas lições da dolorosa experiência americana”. Um dos “futurólogos”, Roger Fidler, cunhou o termo “mediamorfose” para designar a adaptação repetitiva que conseguiria integrar a revolução digital sem vítimas. Mas Rosental Calmon Alves, responsável pelo longo texto que aqui citamos, declara que o que aconteceu foi um “mediacídio”.

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Para o autor, o sufixo que se refere a morte, ou assassínio, é adequado e intencional, porque este “mediacídio” é precisamente “a morte do ecossistema mediático da era industrial, para dar lugar ao sistema mediático da era digital”. 

A nova lógica comunicacional “não é compatível com a estrutura dos meios herdados da era anterior”: 

“Há anos venho falando isso e repetindo a ideia de que passaríamos de uma comunicação mediacêntrica para uma comunicação ‘eucêntrica’, na qual cada um de nós é um meio de comunicação potencial. Passamos da era dos meios de massa à era da massa de meios!”  (...) 

“As redes sociais e plataformas tecnológicas ampliaram ainda mais essas possibilidades e reforçaram os movimentos destrutivos do ecossistema da era industrial, com uma ruptura avassaladora do mercado publicitário. Eis que a minha ideia de massa de meios emerge não só com a proliferação de mais meios digitais, mas também com uma cacofonia perigosa.” 

“Infelizmente, esse novo ecossistema virou terreno fértil para a desinformação, a manipulação de sentimentos. Tem gerado polarização, com formação de tribos virtuais, num fenómeno que os sociólogos chamam em inglês de homophily  – a tendência de se relacionar apenas com pessoas que pensam como você.” 

“O sonho dos efeitos positivos de uma democratização do acesso à informação e à comunicação acabou se tornando um pesadelo, que deu margem à actual onda de populismo e autoritarismo. Exactamente o oposto do que muitos pensavam.”  (...)

Nos Estados Unidos, que conhece bem  - Rosental Alves é há mais de vinte anos professor titular de jornalismo na Universidade de Austin, no Texas -  os jornais deixaram de ser as “verdadeiras máquinas de fazer dinheiro” que tinham sido.

Como conta o autor, houve um tempo em que “a média de lucratividade dos jornais era de 23%, enquanto o sector anunciante que lucrava mais era o farmacêutico, com 19%; o lucro dos outros ficava abaixo dos 10%”.  (...) 

“Quando veio a crise provocada pela TV nos anos 1960, muitos jornais começaram a desaparecer, principalmente porque não fazia mais sentido ter vespertinos. Os telejornais os mataram. Vendo a quebradeira de jornais, o governo interveio. Em 1970, o Congresso aprovou a Lei de Preservação dos Jornais, e o presidente Nixon a promulgou, depois de muita hesitação.”  (...) 

“O tiro saiu pela culatra. As grandes cadeias nacionais foram as que se beneficiaram e, em vez de manter as redacções separadas, os jornais acabaram se juntando, através de compras ou fusões, que levaram a uma monopolização generalizada. No final do século passado, só havia umas trinta áreas metropolitanas nos Estados Unidos que tinham mais de um jornal. Em centenas de outras cidades, só havia um.”  (...) 

Ao longo dos anos 80 e 90 do século findo, os lucros desses novos monopólios continuaram a aumentar extraordinariamente. 

“Também vale lembrar que os principais jornais e cadeias de jornais nos Estados Unidos tinham se tornado empresas de capital aberto, com acções na Bolsa. As famílias proprietárias se encheram de dinheiro com a entrada na Bolsa, mas isso mudou o jogo radicalmente.” 

“Em vez das famílias acostumadas a períodos de vacas magras e de vacas gordas, os jornais agora tinham investidores de Wall Street, sedentos de lucros. Os accionistas têm chamadas a cada três meses para saber como andam os resultados e pressionar por mais lucros. E não tinha mais essa de aguentar os períodos de vacas magras.”  (...) 

A partir de 1995, primeiro a Craiglist (empresa de anúncios classificados grátis, fundada por Craig Newmark), depois a Google, mudaram definitivamente as regras do jogo. 

A Google trazia “um modelo de negócio baseado num novo tipo de publicidade, muito barata e muito eficiente, a partir do uso de dados pessoais que iam recolhendo e que eram usados para entregar apenas anúncios que interessavam ao consumidor; se o anúncio não funcionasse, não só o anunciante não tinha que pagar, mas ele ia sendo rebaixado no ranking até ser expulso”. 

O texto de Rosental Alves descreve depois, com abundância de documentação, a “tempestade perfeita” que se abateu sobre os jornais a partir de 2008: 

“De um lado, a recessão americana, mais uma crise cíclica, circunstancial, as vacas magras a que me referia, que ia passar. E, de outro lado, uma crise estrutural, que não ia passar. Já tinham perdido os classificados e começavam a desaparecer também os display ads, os anúncios grandes. A circulação caía, ainda que este não fosse o problema. O problema eram e são os anúncios, que encontraram outros caminhos.”  (...) 

“Como pioneiro do jornalismo online, eu tenho me espantado com as críticas dos últimos anos ao facto de os jornais terem oferecido gratuitamente seu conteúdo online nos primeiros anos da Internet. Falam como se todos os da minha geração fôssemos uns idiotas que não tivessem pensado em cobrar.” 

“É bom lembrar que isso não é certo. Houve inúmeras tentativas de cobrança no acesso ao conteúdo e praticamente todas fracassaram.”  (...) 

“Parece que o modelo de negócio dos jornais passou a ser baseado no corte de custos. E corte de custos é um modelo de negócio finito. O fim pode estar chegando para muitos jornais. Quase dois mil fecharam nos últimos quinze anos, segundo as contas de minha colega [na Knight Chair] Penny Abernathy, ex-executiva do New York Times e do Wall Street Journal, que há anos vem desenvolvendo um excelente trabalho de análise e monitoramento do mercado de jornais e da criação dos chamados desertos de notícias.”  (...) 

“Lá atrás, por volta de 2008, fundos de investimento de Nova York detectaram os jornais como um sector industrial em decadência, do qual poderiam tirar grandes lucros. A gente conhece as histórias desses especuladores que compram empresas quase quebradas, na bacia das almas, dizem que vão tentar salvá-las, mas acabam com elas e, no processo, se enchem de dinheiro.”  (...) 

“Os fundos de investimento compram os jornais de olho nos imóveis e começam sua estratégia de dilapidação das empresas. O maior desses fundos, ao ver essa oportunidade mais de uma década atrás, formou também uma empresa imobiliária que se especializou em ganhar milhões de dólares negociando os prédios dos jornais. Os fundos, em geral, não dão a menor bola para estratégias digitais porque, ao contrário do que dizem, não estão nada interessados em metas de longo prazo, mas sim no curto e no curtíssimo prazos.”  (...) 

Depois do naufrágio, o autor apresenta exemplos do que pode sobreviver: por exemplo o “jornalismo sem fins de lucros”, na forma de startups noticiosas, nativas digitais, que “nascem para preencher o vazio deixado pelos jornais na cobertura de cidades, regiões ou estados”. Ele próprio está associado a uma das mais bem sucedidas, a do Texas Tribune

O segredo, como conta, é: 

“Primeiro, investir no jornalismo de qualidade, com jornalistas bem pagos, numa redacção comprometida com a inovação. Segundo, uma diversificação das fontes de receita, de maneira a não depender muito de nenhuma especificamente. Terceiro, actuar como se fosse uma companhia qualquer.” 

“Entender que não ter fins lucrativos é apenas uma definição fiscal, ou seja, um status que se beneficia com o facto de não pagar impostos, e saber que nossos doadores não precisam pagar impostos sobre as doações que nos fazem.” 

“Mas também faz parte dessa fórmula de sucesso o facto de que não ficamos de braços cruzados esperando que nos doem. Corremos atrás da grana de que precisamos para financiar o jornalismo de excelência que nossos jornalistas praticam.”  (...)

E o autor conclui:

“Não há uma fórmula mágica, uma panaceia. Como disse antes, o ecossistema mediático em que estamos agora é uma selva, com a enorme biodiversidade dos trópicos.” 

“Estou super-entusiasmado com o potencial do jornalismo sem fins de lucro, diante da falta de possibilidade de lucro nesse novo ecossistema mediático. Mas não estou dizendo que o jornalismo lucrativo comercial vai desaparecer. Estou apenas afirmando que o jornalismo sem fins de lucro vai crescer e ocupar um espaço que não ocupava antes.”  (...)

 

O texto aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
A internet alterou o paradigma do jornalismo Ver galeria

Os jornalistas de todo o mundo enfrentam os mesmos problemas de forma semelhante.

A internet alterou o paradigma do jornalismo, fazendo com que saísse da esfera isolada, oferecendo o potencial para aumentar o seu público.

Apesar de a informação se disseminar à velocidade de um clique, o jornalismo continua a ser uma tribo. Todos os ataques e desafios enfrentados pelos jornalistas, têm aproximado os profissionais do sector.

A rápida disseminação da desinformação, alimentada pela tecnologia; o aumento do autoritarismo como resposta ao agravamento da desigualdade; e o crescente medo das mudanças demográficas em países ao redor do mundo, são alterações que trazem constantes desafios.

De todos os desafios, a proliferação da desinformação tem sido fulcral na transformação da realidade jornalística.

No pós-eleições americanas, os jornalistas viram-se obrigados a lidar com factos surpreendentes, entre os quais a circunstância de a Rússia tentar disseminar histórias enganosas, com o objectivo de influenciar as eleições e misturar a informação com as “fake news”.

A desinformação, actualmente, encontra-se espalhada pelo mundo e o jornalismo arrisca-se a ser arrastado para o caos.

O artigo de Kyle Pope aborda a temática no seu artigo publicado no site Columbia Journalism Review.

Publicidade digital pode enfrentar uma crise de crescimento Ver galeria

A trajectória do jornal americano The New York Times é um exemplo de sucesso na transição para o meio digital.

Os dados publicados para o terceiro trimestre mostraram um sólido crescimento superior a 273 mil assinantes nos media digitais, mas a receita de publicidade digital caiu 5,4%, depois de vários anos de aumentos apreciáveis.

A previsão para o quarto trimestre é ainda pior, reflectindo uma quebra de 15%. 

Segundo o eMarketer, em 2018, gastou-se, em todo o mundo, 273 mil milhões de dólares em anúncios digitais, dos quais o Google arrecadou 116 mil milhões de dólares e o Facebook 54,4 mil milhões. Poderá haver uma concertação e manipulação da publicidade online por parte do Facebook, Google e Amazon?

Cada vez mais as plataformas tecnológicas são absorvidas pelos anúncios digitais, um mercado que está a originar bolhas crescentes. A publicidade deixou de ser uma arte para passar a ser exclusivamente um negócio, cujo único objectivo é captar a atenção dos possíveis consumidores.

Miguel Ormaetxea, editor do Media-Tics, fez uma análise aos modelos publicitários na imprensa mundial e espanhola.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
O caso do novo secretário de Estado com a tutela da comunicação social é assaz curioso. Nuno Artur Silva foi dono, até há dias, das Produções Fictícias, empresa que incluía a RTP no seu portfólio de clientes, facto que não o inibiu de aceitar  ser administrador daquele operador público, com a responsabilidade dos conteúdos. Cumprido o primeiro mandato, sem abdicar da...
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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