null, 21 de Julho, 2019
Media

O jornalismo precisa de imaginação para sair do seu labirinto

Abordando a dúvida sobre o futuro do jornalismo, instalada sobre o fecho de tantos meios de comunicação e o despedimento de tantos profissionais, a jornalista Norma Couri responde que sim, que o jornalismo “tem saída” e que “a carreira vale a pena, respondendo à pergunta de pais que insistem em transformar em opacos administradores de empresas uma geração que talvez sonhasse em ser jornalista”.

É verdade que os números são desencorajadores. A autora cita os dados do livro de Rogério Christofoletti (A crise do jornalismo tem solução?)  - do qual aqui também falámos -  e recorda a “previsão” dos que anunciaram “o fim do jornalismo entre 2020 e 2043”:

“Digamos que, de todas as profissões, nenhuma foi atingida tão duramente pela crise económica causada pela tecnologia quanto o jornalismo.”

Mas cita também O mundo da escrita, de Martin Puchner, que afirma que “é a educação, não a tecnologia, que vai assegurar o futuro da literatura”  - e do jornalismo.  “No meio do caos, jornalistas criaram colectivos, enquanto donos de jornais foram buscar o antídoto no próprio veneno, captando assinaturas digitais, como The New York Times.”

Partindo de ambos, Norma Couri  - que aqui citamos do Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria -  recorda os três pontos de uma receita simples: 

Em primeiro lugar, “o que importa é fazer bom jornalismo”: 

“O jornalismo tem regras, segue princípios éticos e requer muita cultura e conhecimento, que inexistem no arsenal de faculdades particulares criadas para despejar hordas de profissionais num mercado despedaçado. Um jornal tem credibilidade porque veicula informações em que as pessoas acreditam.” 

Em segundo, “que cada um se proteja de plataformas gigantes como o Google, que comprou o YouTube, e o Facebook, que abocanhou o Whatsapp”:  “O Big Brother mora ali.”  

 

Por último, combater a erosão da credibilidade lutando pela qualidade do produto: “oferecer às audiências mais do que elas desejam receber, dizer às pessoas o que elas não querem ouvir; num mundo saturado de media, ousar ser um produto de informação, educação e integração  – alimentando o espírito crítico e enaltecendo a relação umbilical entre jornalismo e democracia”. 

“A saída? Christofoletti diz simplesmente que o jornalista tem de ser, antes de tudo, um forte. São necessárias resistência, resiliência, capacidade de adaptação, tenacidade, criatividade para sobreviver e imaginar caminhos.” 

Outro autor invocado por Norma Couri é o jornalista Nirlando Beirão, que escreveu “um dos melhores livros lançados recentemente no Brasil, Meus começos e meu fim”. Dele cita: 

“O leitor tem toda a razão em ignorar o trombetear enfatuado de um editorial que pretende endireitar o mundo e repreender a humanidade. Adoro o jornalismo tido como desimportante, o jornalismo pop, das franjas, da periferia, que é de facto o que retrata nossa época. Um jornalismo que não amordace o sentimento de quem o faz”. 

Afectado por uma doença degenerativa, Nirlando Beirão continua a escrever com a mão direita, “o único ítem da minha anatomia que não me traiu”, os seus artigos semanais na Carta Capital, além deste livro (é autor de vários outros). 

Ele sabe que “o ponto final está me aguardando, com ansiedade justificada”. Mas parar de escrever será “a mais fatal das minhas perdas, pior que a capacidade de amar”.  (...) 

A concluir, e como mais um motivo de esperança numa “saída” para o jornalismo, a autora congratula-se pelo resultado das recentes eleições na ABI – Associação Brasileira de Imprensa, e recorda a sua história, desde a fundação em 1908, quando “o mundo girava a 78 rpm”, até à crise e ao descrédito agora anunciado para a profissão: 

“Lutar pelo jornalismo em torno da Chapa 2, recém eleita na ABI, voltará a nos dar orgulho. A proposta é buscar uma saída digna e reabilitadora  – e quem não acredita, espere para ver. Uma das regras dessa profissão é nunca aceitar não como resposta e reagir contra o arbítrio.”   (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa.

Connosco
A formação académica do jornalismo profisional em debate Ver galeria

A FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España, que reune mais de 19 mil associados, declarou em Junho de 2019 que vai deixar de admitir nesta qualidade jornalistas que não estejam habilitados com um título académico de jornalismo, mesmo que estejam exercendo a profissão. O seu presidente, Nemesio Rodriguez, disse a eldiario.es  que o objectivo era “valorizar o título de jornalista e resolver o problema da intrusão”.

Uma consequência inesperada, entre várias críticas chegadas, foi a desvinculação, da sua pertença à FAPE, decidida pela AECC – Asociación Española de Comunicación Científica, cujos profissionais, especializados na comunicação científica, detêm maioritariamente outras licenciaturas. O seu presidente, Antonio Calvo, declarou que não fazia sentido “continuar a pertencer a uma associação onde não podem entrar metade dos nossos sócios”.

Este episódio reacendeu um debate que se alarga à própria vocação das associações de jornalistas. Sobre ambas as questões, e outras relacionadas, a  Red Ética da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano  organizou um tweet-debate marcado para 18 de Julho, de cujas conclusões daremos conta quando forem publicadas.

Apelo de investigadores contra "fake news" em divulgação científica Ver galeria

Será que a ciência é “distorcida” pelos media, por incapacidade de fazerem uma divulgação rigorosa, ou por qualquer outro motivo?
É para responder a este problema que o colectivo denominado NoFakeScience, composto por duas dezenas de cientistas e especialistas na divulgação de ciência, redigiu e publica no diário francês L’Opinion um texto que apela a um “trabalho de mãos dadas” entre jornalistas e cientistas. Juntaram-se a eles outros 230 grandes nomes da investigação, de todo o mundo, perfazendo assim um total de 250 signatários deste apelo.

“Nesta hora em que a desconfiança nos media e nas instituições chega ao extremo, apelamos a um questionamento profundo de toda a cadeia de informação, para que os temas de natureza científica possam ser restituídos a todos sem deformação sensacionalista nem ideológica, e para que a confiança possa ser, a longo prazo, restaurada entre os cientistas, os meios de comunicação e os cidadãos”  -  afirma o primeiro parágrafo do texto.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
04
Set
Infocomm China
09:00 @ Chengdu, Sichuan Province, China