Quinta-feira, 14 de Novembro, 2019
Media

O jornalismo precisa de imaginação para sair do seu labirinto

Abordando a dúvida sobre o futuro do jornalismo, instalada sobre o fecho de tantos meios de comunicação e o despedimento de tantos profissionais, a jornalista Norma Couri responde que sim, que o jornalismo “tem saída” e que “a carreira vale a pena, respondendo à pergunta de pais que insistem em transformar em opacos administradores de empresas uma geração que talvez sonhasse em ser jornalista”.

É verdade que os números são desencorajadores. A autora cita os dados do livro de Rogério Christofoletti (A crise do jornalismo tem solução?)  - do qual aqui também falámos -  e recorda a “previsão” dos que anunciaram “o fim do jornalismo entre 2020 e 2043”:

“Digamos que, de todas as profissões, nenhuma foi atingida tão duramente pela crise económica causada pela tecnologia quanto o jornalismo.”

Mas cita também O mundo da escrita, de Martin Puchner, que afirma que “é a educação, não a tecnologia, que vai assegurar o futuro da literatura”  - e do jornalismo.  “No meio do caos, jornalistas criaram colectivos, enquanto donos de jornais foram buscar o antídoto no próprio veneno, captando assinaturas digitais, como The New York Times.”

Partindo de ambos, Norma Couri  - que aqui citamos do Observatório da Imprensa, com o qual mantemos um acordo de parceria -  recorda os três pontos de uma receita simples: 

Em primeiro lugar, “o que importa é fazer bom jornalismo”: 

“O jornalismo tem regras, segue princípios éticos e requer muita cultura e conhecimento, que inexistem no arsenal de faculdades particulares criadas para despejar hordas de profissionais num mercado despedaçado. Um jornal tem credibilidade porque veicula informações em que as pessoas acreditam.” 

Em segundo, “que cada um se proteja de plataformas gigantes como o Google, que comprou o YouTube, e o Facebook, que abocanhou o Whatsapp”:  “O Big Brother mora ali.”  

 

Por último, combater a erosão da credibilidade lutando pela qualidade do produto: “oferecer às audiências mais do que elas desejam receber, dizer às pessoas o que elas não querem ouvir; num mundo saturado de media, ousar ser um produto de informação, educação e integração  – alimentando o espírito crítico e enaltecendo a relação umbilical entre jornalismo e democracia”. 

“A saída? Christofoletti diz simplesmente que o jornalista tem de ser, antes de tudo, um forte. São necessárias resistência, resiliência, capacidade de adaptação, tenacidade, criatividade para sobreviver e imaginar caminhos.” 

Outro autor invocado por Norma Couri é o jornalista Nirlando Beirão, que escreveu “um dos melhores livros lançados recentemente no Brasil, Meus começos e meu fim”. Dele cita: 

“O leitor tem toda a razão em ignorar o trombetear enfatuado de um editorial que pretende endireitar o mundo e repreender a humanidade. Adoro o jornalismo tido como desimportante, o jornalismo pop, das franjas, da periferia, que é de facto o que retrata nossa época. Um jornalismo que não amordace o sentimento de quem o faz”. 

Afectado por uma doença degenerativa, Nirlando Beirão continua a escrever com a mão direita, “o único ítem da minha anatomia que não me traiu”, os seus artigos semanais na Carta Capital, além deste livro (é autor de vários outros). 

Ele sabe que “o ponto final está me aguardando, com ansiedade justificada”. Mas parar de escrever será “a mais fatal das minhas perdas, pior que a capacidade de amar”.  (...) 

A concluir, e como mais um motivo de esperança numa “saída” para o jornalismo, a autora congratula-se pelo resultado das recentes eleições na ABI – Associação Brasileira de Imprensa, e recorda a sua história, desde a fundação em 1908, quando “o mundo girava a 78 rpm”, até à crise e ao descrédito agora anunciado para a profissão: 

“Lutar pelo jornalismo em torno da Chapa 2, recém eleita na ABI, voltará a nos dar orgulho. A proposta é buscar uma saída digna e reabilitadora  – e quem não acredita, espere para ver. Uma das regras dessa profissão é nunca aceitar não como resposta e reagir contra o arbítrio.”   (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa.

Connosco
A internet alterou o paradigma do jornalismo Ver galeria

Os jornalistas de todo o mundo enfrentam os mesmos problemas de forma semelhante.

A internet alterou o paradigma do jornalismo, fazendo com que saísse da esfera isolada, oferecendo o potencial para aumentar o seu público.

Apesar de a informação se disseminar à velocidade de um clique, o jornalismo continua a ser uma tribo. Todos os ataques e desafios enfrentados pelos jornalistas, têm aproximado os profissionais do sector.

A rápida disseminação da desinformação, alimentada pela tecnologia; o aumento do autoritarismo como resposta ao agravamento da desigualdade; e o crescente medo das mudanças demográficas em países ao redor do mundo, são alterações que trazem constantes desafios.

De todos os desafios, a proliferação da desinformação tem sido fulcral na transformação da realidade jornalística.

No pós-eleições americanas, os jornalistas viram-se obrigados a lidar com factos surpreendentes, entre os quais a circunstância de a Rússia tentar disseminar histórias enganosas, com o objectivo de influenciar as eleições e misturar a informação com as “fake news”.

A desinformação, actualmente, encontra-se espalhada pelo mundo e o jornalismo arrisca-se a ser arrastado para o caos.

O artigo de Kyle Pope aborda a temática no seu artigo publicado no site Columbia Journalism Review.

Publicidade digital pode enfrentar uma crise de crescimento Ver galeria

A trajectória do jornal americano The New York Times é um exemplo de sucesso na transição para o meio digital.

Os dados publicados para o terceiro trimestre mostraram um sólido crescimento superior a 273 mil assinantes nos media digitais, mas a receita de publicidade digital caiu 5,4%, depois de vários anos de aumentos apreciáveis.

A previsão para o quarto trimestre é ainda pior, reflectindo uma quebra de 15%. 

Segundo o eMarketer, em 2018, gastou-se, em todo o mundo, 273 mil milhões de dólares em anúncios digitais, dos quais o Google arrecadou 116 mil milhões de dólares e o Facebook 54,4 mil milhões. Poderá haver uma concertação e manipulação da publicidade online por parte do Facebook, Google e Amazon?

Cada vez mais as plataformas tecnológicas são absorvidas pelos anúncios digitais, um mercado que está a originar bolhas crescentes. A publicidade deixou de ser uma arte para passar a ser exclusivamente um negócio, cujo único objectivo é captar a atenção dos possíveis consumidores.

Miguel Ormaetxea, editor do Media-Tics, fez uma análise aos modelos publicitários na imprensa mundial e espanhola.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
O caso do novo secretário de Estado com a tutela da comunicação social é assaz curioso. Nuno Artur Silva foi dono, até há dias, das Produções Fictícias, empresa que incluía a RTP no seu portfólio de clientes, facto que não o inibiu de aceitar  ser administrador daquele operador público, com a responsabilidade dos conteúdos. Cumprido o primeiro mandato, sem abdicar da...
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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