Quinta-feira, 14 de Novembro, 2019
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Não podemos criar realidades paralelas causadas pelos algoritmos...

É verdade que a Internet trouxe um aumento de conexões entre pessoas e a “facilidade de proliferação de conteúdos e debates sem o espaço físico. Olhando essas palavras, parece um cenário maravilhoso; mas não podemos tratar com normalidade o actual contexto.”

“Todos os dias ficamos exaustos com o festival de memes agressivos e discursos emocionais em busca de likes, ocupando os lugares de possíveis discussões mais aprofundadas, que poderiam tratar os problemas reais de maneira mais racional, fora da bolha digital e sem ideias populistas direccionadas só a nichos indisponíveis ao diálogo.”

Finalmente, esse aumento de conexões “aumentou a proliferação de ódio no mundo virtual, com o risco da violência ser transferida para o mundo real”.

A reflexão é do jornalista Lucas Souza Dorta, no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

“O problema”  - como afirma o autor -  “é que estamos ficando mais sensíveis ao contraditório, mesmo que o grau de discordância seja mínimo”.  No fundo, todos temos tendência para procurar “o que é mais próximo dos nossos gostos”: 

“Até na vida real costumamos ter mais convívio com conteúdos e indivíduos próximos das nossas ideias e afinidades, mas, no mundo fora das telas dos computadores, as ‘bolhas’ são mais fáceis de serem furadas.” 

Na vida real vemos realidades diferentes e damo-nos conta de que “o mundo não é o grupinho do WhatsApp ou a timeline do Facebook e do Twitter que nos prende durante boa parte do quotidiano. Lá fora é que nos damos conta da complexidade dos agrupamentos e em boa parte dos ambientes entendemos que nem tudo é como a gente deseja e nem todos têm o mesmo estilo de vida e de personalidade por causa de diferentes factores de convivência, repertórios e ensinamentos”. 

“Infelizmente, está sendo comum ver grupos parecidos, com discordâncias mínimas, brigarem entre si, com ambos tentando impor suas ideias de forma beligerante. Já é possível observar o fenómeno da formação de ‘bolhas’ dentro dos próprios grupos, que passam a se dividir e formar subgrupos com alto grau de intolerância entre seres humanos com ideais parecidos e pequenas diferenças.”  (...) 

Em sociedades governadas por coligações de partidos diferentes, “os debates mais quentes fazem parte da rotina e devem continuar fazendo, pois são importantes para os contrapesos da democracia”: 

“O problema é que, no ambiente virtual, a cultura do confronto, da distorção e imposição de ideias, vem se tornando regra e, consequentemente, pode acabar sendo modelo para o mundo real. Isso é incentivado pelo excesso de segmentação e de algoritmos das redes sociais.”  (...) 

Lucas Souza Dorta defende como essencial termos em conta o contraditório, “até para sabermos os motivos de discordarmos ou concordarmos com algo e tornarmos a troca de ideias mais transparente e menos agressiva”, escapando do “excessivo discurso de ódio que contaminou a Internet”: 

“O modo caps lock [escrever em maiúsculas] e a gritaria roubaram o lugar daqueles que teriam mais qualidade para acrescentar nos debates, mesmo que fosse de um jeito popular.” 

“Essa ‘algoritmização’ da vida está fazendo sucesso na política e são comuns cenas de parlamentares filmando-se em momentos inoportunos em busca de likes. Há o incentivo de ambientes hostis que causam uma interdependência entre o internauta fanático e a figura que fala para seu público por meio de qualquer aplicativo ou aparelho tecnológico.” 

“Não podemos criar realidades paralelas causadas pelos algoritmos, porque poderá chegar um momento da humanidade em que não saberemos diferenciar o real do virtual e vamos mentir para nós mesmos em busca da satisfação pessoal. No futuro, há o risco de existir uma distopia com o ser humano enxergando somente o que ele quer ver, distorcendo factos comprovados em nome de alguma paixão ou bem maior.”  (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa

Connosco
A internet alterou o paradigma do jornalismo Ver galeria

Os jornalistas de todo o mundo enfrentam os mesmos problemas de forma semelhante.

A internet alterou o paradigma do jornalismo, fazendo com que saísse da esfera isolada, oferecendo o potencial para aumentar o seu público.

Apesar de a informação se disseminar à velocidade de um clique, o jornalismo continua a ser uma tribo. Todos os ataques e desafios enfrentados pelos jornalistas, têm aproximado os profissionais do sector.

A rápida disseminação da desinformação, alimentada pela tecnologia; o aumento do autoritarismo como resposta ao agravamento da desigualdade; e o crescente medo das mudanças demográficas em países ao redor do mundo, são alterações que trazem constantes desafios.

De todos os desafios, a proliferação da desinformação tem sido fulcral na transformação da realidade jornalística.

No pós-eleições americanas, os jornalistas viram-se obrigados a lidar com factos surpreendentes, entre os quais a circunstância de a Rússia tentar disseminar histórias enganosas, com o objectivo de influenciar as eleições e misturar a informação com as “fake news”.

A desinformação, actualmente, encontra-se espalhada pelo mundo e o jornalismo arrisca-se a ser arrastado para o caos.

O artigo de Kyle Pope aborda a temática no seu artigo publicado no site Columbia Journalism Review.

Publicidade digital pode enfrentar uma crise de crescimento Ver galeria

A trajectória do jornal americano The New York Times é um exemplo de sucesso na transição para o meio digital.

Os dados publicados para o terceiro trimestre mostraram um sólido crescimento superior a 273 mil assinantes nos media digitais, mas a receita de publicidade digital caiu 5,4%, depois de vários anos de aumentos apreciáveis.

A previsão para o quarto trimestre é ainda pior, reflectindo uma quebra de 15%. 

Segundo o eMarketer, em 2018, gastou-se, em todo o mundo, 273 mil milhões de dólares em anúncios digitais, dos quais o Google arrecadou 116 mil milhões de dólares e o Facebook 54,4 mil milhões. Poderá haver uma concertação e manipulação da publicidade online por parte do Facebook, Google e Amazon?

Cada vez mais as plataformas tecnológicas são absorvidas pelos anúncios digitais, um mercado que está a originar bolhas crescentes. A publicidade deixou de ser uma arte para passar a ser exclusivamente um negócio, cujo único objectivo é captar a atenção dos possíveis consumidores.

Miguel Ormaetxea, editor do Media-Tics, fez uma análise aos modelos publicitários na imprensa mundial e espanhola.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
O caso do novo secretário de Estado com a tutela da comunicação social é assaz curioso. Nuno Artur Silva foi dono, até há dias, das Produções Fictícias, empresa que incluía a RTP no seu portfólio de clientes, facto que não o inibiu de aceitar  ser administrador daquele operador público, com a responsabilidade dos conteúdos. Cumprido o primeiro mandato, sem abdicar da...
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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