Segunda-feira, 20 de Janeiro, 2020
Media

Jornalismo "proactivo" para captar de novo leitores desencantados

Vale a pena publicar notícias que ninguém vai ler? E se muitos já não lêem porque não querem? Que podemos nós diante do número crescente dos que intencionalmente evitam os noticiários?
O último relatório do Instituto Reuters, sobre jornalismo digital, diz que o seu número já vai nos 32%.

“Tanto o Reino Unido como os EUA estão sob o efeito de um longo período de noticiário político muitíssimo anormal, devido ao Brexit e à eleição de Donald Trump. O que daqui resulta, se dermos crédito às conclusões do relatório, é um abaixamento do interesse em envolverem-se com quaisquer fontes de notícias.”

Segundo Emily Bell, que aqui citamos do diário britânico The Guardian, “há muitas vezes uma grande diferença entre o que as pessoas dizem que fazem e aquilo que realmente estão a fazer”. Os números das audiências podem não ser todos explicáveis por um declínio de interesse  - também reflectem as mudanças de ranking do motor de busca da Google, ou do algoritmo que alimenta o portal do Facebook.

Mas é verdade que há cada vez mais jornalistas e editores preocupados pela questão de saber como captar de novo a atenção dos que já estão no ponto de rejeitar as notícias.

“Se eu pudesse dispensar toda a minha equipa [que trata] das redes sociais, e substitui-la por uma equipa de envolvimento de audiências, era isso que fazia amanhã”  - disse a Emily Bell um editor com este tipo de preocupação. 

“Editar as notícias, e motivar as audiências no sentido de se interessarem por elas, são [duas coisas] muitas vezes consideradas como, intrinsecamente, a mesma função  - embora as competências necessárias para ambas possam estar em tensão uma com a outra”  - esclarece a autora. 

O site de “jornalismo lento” Tortoise, de que já aqui falámos, anunciou um esforço de alargamento da sua rede de membros por meio de palestras sobre temas definidos, em escolas, centros comunitários e outros espaços como estes. 

Já o Huffington Post tinha feito tournées pelos EUA (e partes do Reino Unido), com um autocarro, logo a seguir às eleições de 2016. The Guardian organizou os seus primeiros eventos de “notícias abertas” aos leitores há mais de uma década, e The New York Times tem o seu espaço próprio para este efeito, ligado ao seu grande edifício no centro de Nova Iorque. 

As revistas The Atlantic e New Yorker, bem como o diário nativo-digital Texas Tribune, têm estado a fazer os seus próprios “festivais de ideias, que constituem não só uma base à qual convidam os seus leitores, para tomarem parte num debate, mas ainda para proporem assinaturas e contribuições voluntárias”. 

Também a rede Solutions Journalism Network tem feito experiências ao nível local, envolvendo directamente as comunidades para falarem de coisas que as afectam, e ajudando assim as redacções “a cobrirem os assuntos de um modo que possa sugerir resultados, mais do que simplesmente esclarecer os problemas”. 

Está assim a desenvolver-se um crescente interesse por um jornalismo “proactivo”, que procura chegar ao contacto com aquelas audiências desinteressadas, evitando “os efeitos diluentes das redes sociais”. 

Mesmo que tenhamos dúvidas sobre o seu resultado  - como conclui Emily Bell -  “estas iniciativas de envolvimento proporcionam, pelo menos, um contacto vivo real com outros seres humanos, abordando não só os problemas do modelo de negócio das empresas de media, mas também alguns dos efeitos de isolamento digital que estão na sua causa”.


O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
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