null, 21 de Julho, 2019
Media

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

Maria Ressa recorda o incício da sua carreira de jornalista nos anos 80 do século findo, quando fazia a cobertura da transição de governos autocráticos para democracias, achando hoje “bizarro” lembrar a euforia desse tempo: 

“As Filipinas cunharam a expressão pelople power, com manifestações que enchiam a capital para derrubarem, de modo pacífico, um regime violento. O movimento alastrou à Tailândia, à Coreia do Sul, à Indonésia. Como eu trabalhava para a CNN, ia descrevendo a mudança política à medida que acontecia.”  (...) 

“Décadas depois, estou em choque com o que se passa no meu país. Estamos a voltar ao governo de um ditador agressivo, a assistir à erosão das nossas liberdades, a habituar-nos ao assassínio. Nas Filipinas, 97% das pessoas estão no Facebook, que é a nossa Internet. Como o governo e os seus representantes enchem as redes sociais de propaganda, uma mentira contada um milhão de vezes torna-se verdade.” 

“Duterte ataca directamente os jornalistas. Primeiro tratou do Philipine Daily Inquirer, o maior jornal de língua inglesa, pondo processos aos seus proprietários. Depois voltou-se contra a [rede de televisão] ABS-CBN, a maior nas Filipinas, ameaçando não renovar a sua concessão. O site Rappler foi o seu terceiro alvo.” 

Como conta Maria Ressa, as mesmas ameaças de corte da concessão, contra o Rappler, começaram em Julho de 2017, a pretexto de que seria “completamente detido por americanos”, o que não é verdade  - “a maioria dos accionistas são jornalistas filipinos”. 

Ao longo do ano de 2018 e até agora, “nós resistimos, mas os ataques têm sido esmagadores”: 

“Em catorze meses, tivémos onze processos e investigações; nesta Primavera, tive de pagar fiança oito vezes; e num período de cinco semanas fui presa por duas vezes.” (...) 

Este assédio legal toma-lhe 90% do tempo. “No dia seguinte às eleições de Maio, fui acusada de difamação online na parte da manhã, e compareci por fraude financeira noutro da parte da tarde.” 

Duterte impede os jornalistas do Rappler de estarem presentes em qualquer dos seus eventos. Num comício de campanha, o jornalista enviado foi expulso, e Maria Ressa levou o caso ao Supremo Tribunal, acusando o governo de asfixiar a liberdade de Imprensa. 

Dessa vez em que esteve presa, em Fevereiro, o seu pensamento, que relata no artigo aqui citado, foi:

“Quanto mais fizerem isto, mais eu fico com conhecimento em primeira mão do modo como abusam do poder. Quanto mais tentarem intimidar-me, com mais certeza fico de que tenho de continuar a lutar.”

 

O artigo de Maria Ressa, na íntegra, na Columbia Journalism Review.

Mais informação em The Guardian  e no nosso site.

Connosco
A formação académica do jornalismo profisional em debate Ver galeria

A FAPE – Federación de Asociaciones de Periodistas de España, que reune mais de 19 mil associados, declarou em Junho de 2019 que vai deixar de admitir nesta qualidade jornalistas que não estejam habilitados com um título académico de jornalismo, mesmo que estejam exercendo a profissão. O seu presidente, Nemesio Rodriguez, disse a eldiario.es  que o objectivo era “valorizar o título de jornalista e resolver o problema da intrusão”.

Uma consequência inesperada, entre várias críticas chegadas, foi a desvinculação, da sua pertença à FAPE, decidida pela AECC – Asociación Española de Comunicación Científica, cujos profissionais, especializados na comunicação científica, detêm maioritariamente outras licenciaturas. O seu presidente, Antonio Calvo, declarou que não fazia sentido “continuar a pertencer a uma associação onde não podem entrar metade dos nossos sócios”.

Este episódio reacendeu um debate que se alarga à própria vocação das associações de jornalistas. Sobre ambas as questões, e outras relacionadas, a  Red Ética da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano  organizou um tweet-debate marcado para 18 de Julho, de cujas conclusões daremos conta quando forem publicadas.

Apelo de investigadores contra "fake news" em divulgação científica Ver galeria

Será que a ciência é “distorcida” pelos media, por incapacidade de fazerem uma divulgação rigorosa, ou por qualquer outro motivo?
É para responder a este problema que o colectivo denominado NoFakeScience, composto por duas dezenas de cientistas e especialistas na divulgação de ciência, redigiu e publica no diário francês L’Opinion um texto que apela a um “trabalho de mãos dadas” entre jornalistas e cientistas. Juntaram-se a eles outros 230 grandes nomes da investigação, de todo o mundo, perfazendo assim um total de 250 signatários deste apelo.

“Nesta hora em que a desconfiança nos media e nas instituições chega ao extremo, apelamos a um questionamento profundo de toda a cadeia de informação, para que os temas de natureza científica possam ser restituídos a todos sem deformação sensacionalista nem ideológica, e para que a confiança possa ser, a longo prazo, restaurada entre os cientistas, os meios de comunicação e os cidadãos”  -  afirma o primeiro parágrafo do texto.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
04
Set
Infocomm China
09:00 @ Chengdu, Sichuan Province, China