Quinta-feira, 14 de Novembro, 2019
Media

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

Maria Ressa recorda o incício da sua carreira de jornalista nos anos 80 do século findo, quando fazia a cobertura da transição de governos autocráticos para democracias, achando hoje “bizarro” lembrar a euforia desse tempo: 

“As Filipinas cunharam a expressão pelople power, com manifestações que enchiam a capital para derrubarem, de modo pacífico, um regime violento. O movimento alastrou à Tailândia, à Coreia do Sul, à Indonésia. Como eu trabalhava para a CNN, ia descrevendo a mudança política à medida que acontecia.”  (...) 

“Décadas depois, estou em choque com o que se passa no meu país. Estamos a voltar ao governo de um ditador agressivo, a assistir à erosão das nossas liberdades, a habituar-nos ao assassínio. Nas Filipinas, 97% das pessoas estão no Facebook, que é a nossa Internet. Como o governo e os seus representantes enchem as redes sociais de propaganda, uma mentira contada um milhão de vezes torna-se verdade.” 

“Duterte ataca directamente os jornalistas. Primeiro tratou do Philipine Daily Inquirer, o maior jornal de língua inglesa, pondo processos aos seus proprietários. Depois voltou-se contra a [rede de televisão] ABS-CBN, a maior nas Filipinas, ameaçando não renovar a sua concessão. O site Rappler foi o seu terceiro alvo.” 

Como conta Maria Ressa, as mesmas ameaças de corte da concessão, contra o Rappler, começaram em Julho de 2017, a pretexto de que seria “completamente detido por americanos”, o que não é verdade  - “a maioria dos accionistas são jornalistas filipinos”. 

Ao longo do ano de 2018 e até agora, “nós resistimos, mas os ataques têm sido esmagadores”: 

“Em catorze meses, tivémos onze processos e investigações; nesta Primavera, tive de pagar fiança oito vezes; e num período de cinco semanas fui presa por duas vezes.” (...) 

Este assédio legal toma-lhe 90% do tempo. “No dia seguinte às eleições de Maio, fui acusada de difamação online na parte da manhã, e compareci por fraude financeira noutro da parte da tarde.” 

Duterte impede os jornalistas do Rappler de estarem presentes em qualquer dos seus eventos. Num comício de campanha, o jornalista enviado foi expulso, e Maria Ressa levou o caso ao Supremo Tribunal, acusando o governo de asfixiar a liberdade de Imprensa. 

Dessa vez em que esteve presa, em Fevereiro, o seu pensamento, que relata no artigo aqui citado, foi:

“Quanto mais fizerem isto, mais eu fico com conhecimento em primeira mão do modo como abusam do poder. Quanto mais tentarem intimidar-me, com mais certeza fico de que tenho de continuar a lutar.”

 

O artigo de Maria Ressa, na íntegra, na Columbia Journalism Review.

Mais informação em The Guardian  e no nosso site.

Connosco
A internet alterou o paradigma do jornalismo Ver galeria

Os jornalistas de todo o mundo enfrentam os mesmos problemas de forma semelhante.

A internet alterou o paradigma do jornalismo, fazendo com que saísse da esfera isolada, oferecendo o potencial para aumentar o seu público.

Apesar de a informação se disseminar à velocidade de um clique, o jornalismo continua a ser uma tribo. Todos os ataques e desafios enfrentados pelos jornalistas, têm aproximado os profissionais do sector.

A rápida disseminação da desinformação, alimentada pela tecnologia; o aumento do autoritarismo como resposta ao agravamento da desigualdade; e o crescente medo das mudanças demográficas em países ao redor do mundo, são alterações que trazem constantes desafios.

De todos os desafios, a proliferação da desinformação tem sido fulcral na transformação da realidade jornalística.

No pós-eleições americanas, os jornalistas viram-se obrigados a lidar com factos surpreendentes, entre os quais a circunstância de a Rússia tentar disseminar histórias enganosas, com o objectivo de influenciar as eleições e misturar a informação com as “fake news”.

A desinformação, actualmente, encontra-se espalhada pelo mundo e o jornalismo arrisca-se a ser arrastado para o caos.

O artigo de Kyle Pope aborda a temática no seu artigo publicado no site Columbia Journalism Review.

Publicidade digital pode enfrentar uma crise de crescimento Ver galeria

A trajectória do jornal americano The New York Times é um exemplo de sucesso na transição para o meio digital.

Os dados publicados para o terceiro trimestre mostraram um sólido crescimento superior a 273 mil assinantes nos media digitais, mas a receita de publicidade digital caiu 5,4%, depois de vários anos de aumentos apreciáveis.

A previsão para o quarto trimestre é ainda pior, reflectindo uma quebra de 15%. 

Segundo o eMarketer, em 2018, gastou-se, em todo o mundo, 273 mil milhões de dólares em anúncios digitais, dos quais o Google arrecadou 116 mil milhões de dólares e o Facebook 54,4 mil milhões. Poderá haver uma concertação e manipulação da publicidade online por parte do Facebook, Google e Amazon?

Cada vez mais as plataformas tecnológicas são absorvidas pelos anúncios digitais, um mercado que está a originar bolhas crescentes. A publicidade deixou de ser uma arte para passar a ser exclusivamente um negócio, cujo único objectivo é captar a atenção dos possíveis consumidores.

Miguel Ormaetxea, editor do Media-Tics, fez uma análise aos modelos publicitários na imprensa mundial e espanhola.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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