Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
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A nossa "pegada" digital pode tornar-se uma fonte de problemas

As palavras que escrevemos (ou gravamos em ficheiro de voz), as músicas favoritas, as imagens e os vídeos, vão enchendo o espaço digital que habitamos. O que lhes acontece quando morremos? Quem administra a nossa “pegada” digital?

Como todas as heranças, também esta pode ser um lugar de memória e de saudade, ou tornar-se uma fonte de problemas e de conflitos, mesmo legais.  “Se os nossos pertences digitais fossem como os materiais, todos nós seríamos parecidos com os acumuladores compulsivos”  - diz a psicóloga Elaine Kasket, autora de All the Ghosts in the Machine: Illusions of Immortality in the Digital Age [em tradução literal, “Todos os Fantasmas na Máquina: Ilusões de Imortalidade na Era Digital”].

Amelia Tait, uma jornalista especializada nas subculturas da Internet, recolheu uma série de exemplos do que pode acontecer, entre a pessoa falecida e os seus parentes, entre estes e as plataformas, entre estas e a Lei (quando existe), a respeito de palavras-passe, de últimas vontades a cumprir, de acesso e destino a dar aos ficheiros.

“Fica claro que, se não começarmos a tomar decisões a respeito das nossas mortes digitais, então alguém as vai tomar por nós”  - avisa.

“Hoje é sexta-feira, 14 de Janeiro de 2010. Só queria dizer: espero muito que ainda esteja viva quando este post chegar.” 

Esther Earl, a jovem de 16 anos que o escreveu, sucumbiu a um cancro em Agosto do mesmo ano. Mas a família e amigos receberam a mensagem, com o choque que se imagina, a 18 de Fevereiro de 2011.
A mãe da menina, com quem falou a autora do artigo que aqui citamos, acredita que ela não o redigiu, com aquela marcação de data de envio, como uma espécie de “mensagem póstuma” para os seus próximos, mas para si mesma, manifestando “a sua esperança e desejo de continuar a viver”... 

Ela tinha usado um serviço chamado FutureMe, que permite a uma pessoa mandar e-mails a si própria, deixando claro que eram para ser lidos pelos pais, em caso de morte. A mãe, Lori Earl, conta de um deles: 

“Essa carta fez-nos chorar, mas também nos trouxe grande conforto, penso que por causa da sua intencionalidade, pelo facto de ela estar a pensar no seu futuro, a clareza com que aceitava quem era e quem esperava vir a ser.”  (...) 

Ela própria admite a hipótese de, numa situação de morte próxima, programar mensagens semelhantes para o marido e os outros filhos, mas deixando claro quantas tinha redigido e quando iriam chegar, porque de outro modo iriam causar ansiedade.

Agora já há coisas de outra natureza, como as aplicações Replika e a Eternime, que são chatbots de inteligência artificial, capazes de imitar o nosso modo de falar para as pessoas de quem gostamos, depois de termos morrido.  

Mas, como explica a autora deste artigo, que citamos de The Guardian, “planear a nossa morte digital não é simplesmente organizar uma agenda de updates para as pessoas de quem gostamos, ou construir um ‘avatar’ de inteligência artificial”:

“Na prática, é uma quantidade de decisões sem graça, a respeito de como apagar as nossas contas de Facebook, Twitter e Netflix;  de proteger o nosso e-mail de ataques dos hackers;  como entregar a nossa colecção de música aos nossos amigos;  como dar consentimento à família para ir buscar fotografias à nossa cloud;  e garantir que os nossos segredos online permanecem ocultos nos seus sepulcros digitais.” 

“Devíamos pensar com muito cuidado sobre tudo o que confiamos ou alojamos em qualquer plataforma digital”  - diz Elaine Kasket. 

A sua opinião é que o nosso monte de dados digitais pode causar complicações sem fim às pessoas de quem gostamos, principalmente quando não têm acesso às nossas palavras-passe. O texto conta a história de um homem que, tendo sido escolhido como testamentário pelo pai, antes de falecer, verificou que a lista de palavras-passe que ele deixou já estavam caducadas, não conseguindo sequer abrir o seu computador. A Microsoft recusou-se a facilitar este acesso, por motivos de “privacidade”. 

A maior parte das pessoas acha que, tendo feito download de músicas no iTunes, ou de jogos na PlayStation, eles lhes pertencem, mas a maioria desses procedimentos são de uma licença que termina com a morte. 

“O que nós queremos fazer e aquilo que a lei nos consente, com a nossa herança digital, podem ser coisas muito diferentes.”

“A regulamentação é sempre muito lenta a acompanhar a tecnologia”  - volta a dizer Elaine Kasket. “Isto significa que as plataformas e as empresas como o Facebook acabam por ser elas a redigir as regras.”  (...) 

Nos Estados Unidos, a legislação recente contida no Data Protection Act 2018 define os “dados pessoais” como referindo-se unicamente a pessoas em vida. 

A concluir, Amelia Tait descreve várias situações em que, por esta via da protecção de privacidade, há conflitos passíveis de chegarem aos tribunais.

 

O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian.

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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