Terça-feira, 28 de Janeiro, 2020
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A nossa "pegada" digital pode tornar-se uma fonte de problemas

As palavras que escrevemos (ou gravamos em ficheiro de voz), as músicas favoritas, as imagens e os vídeos, vão enchendo o espaço digital que habitamos. O que lhes acontece quando morremos? Quem administra a nossa “pegada” digital?

Como todas as heranças, também esta pode ser um lugar de memória e de saudade, ou tornar-se uma fonte de problemas e de conflitos, mesmo legais.  “Se os nossos pertences digitais fossem como os materiais, todos nós seríamos parecidos com os acumuladores compulsivos”  - diz a psicóloga Elaine Kasket, autora de All the Ghosts in the Machine: Illusions of Immortality in the Digital Age [em tradução literal, “Todos os Fantasmas na Máquina: Ilusões de Imortalidade na Era Digital”].

Amelia Tait, uma jornalista especializada nas subculturas da Internet, recolheu uma série de exemplos do que pode acontecer, entre a pessoa falecida e os seus parentes, entre estes e as plataformas, entre estas e a Lei (quando existe), a respeito de palavras-passe, de últimas vontades a cumprir, de acesso e destino a dar aos ficheiros.

“Fica claro que, se não começarmos a tomar decisões a respeito das nossas mortes digitais, então alguém as vai tomar por nós”  - avisa.

“Hoje é sexta-feira, 14 de Janeiro de 2010. Só queria dizer: espero muito que ainda esteja viva quando este post chegar.” 

Esther Earl, a jovem de 16 anos que o escreveu, sucumbiu a um cancro em Agosto do mesmo ano. Mas a família e amigos receberam a mensagem, com o choque que se imagina, a 18 de Fevereiro de 2011.
A mãe da menina, com quem falou a autora do artigo que aqui citamos, acredita que ela não o redigiu, com aquela marcação de data de envio, como uma espécie de “mensagem póstuma” para os seus próximos, mas para si mesma, manifestando “a sua esperança e desejo de continuar a viver”... 

Ela tinha usado um serviço chamado FutureMe, que permite a uma pessoa mandar e-mails a si própria, deixando claro que eram para ser lidos pelos pais, em caso de morte. A mãe, Lori Earl, conta de um deles: 

“Essa carta fez-nos chorar, mas também nos trouxe grande conforto, penso que por causa da sua intencionalidade, pelo facto de ela estar a pensar no seu futuro, a clareza com que aceitava quem era e quem esperava vir a ser.”  (...) 

Ela própria admite a hipótese de, numa situação de morte próxima, programar mensagens semelhantes para o marido e os outros filhos, mas deixando claro quantas tinha redigido e quando iriam chegar, porque de outro modo iriam causar ansiedade.

Agora já há coisas de outra natureza, como as aplicações Replika e a Eternime, que são chatbots de inteligência artificial, capazes de imitar o nosso modo de falar para as pessoas de quem gostamos, depois de termos morrido.  

Mas, como explica a autora deste artigo, que citamos de The Guardian, “planear a nossa morte digital não é simplesmente organizar uma agenda de updates para as pessoas de quem gostamos, ou construir um ‘avatar’ de inteligência artificial”:

“Na prática, é uma quantidade de decisões sem graça, a respeito de como apagar as nossas contas de Facebook, Twitter e Netflix;  de proteger o nosso e-mail de ataques dos hackers;  como entregar a nossa colecção de música aos nossos amigos;  como dar consentimento à família para ir buscar fotografias à nossa cloud;  e garantir que os nossos segredos online permanecem ocultos nos seus sepulcros digitais.” 

“Devíamos pensar com muito cuidado sobre tudo o que confiamos ou alojamos em qualquer plataforma digital”  - diz Elaine Kasket. 

A sua opinião é que o nosso monte de dados digitais pode causar complicações sem fim às pessoas de quem gostamos, principalmente quando não têm acesso às nossas palavras-passe. O texto conta a história de um homem que, tendo sido escolhido como testamentário pelo pai, antes de falecer, verificou que a lista de palavras-passe que ele deixou já estavam caducadas, não conseguindo sequer abrir o seu computador. A Microsoft recusou-se a facilitar este acesso, por motivos de “privacidade”. 

A maior parte das pessoas acha que, tendo feito download de músicas no iTunes, ou de jogos na PlayStation, eles lhes pertencem, mas a maioria desses procedimentos são de uma licença que termina com a morte. 

“O que nós queremos fazer e aquilo que a lei nos consente, com a nossa herança digital, podem ser coisas muito diferentes.”

“A regulamentação é sempre muito lenta a acompanhar a tecnologia”  - volta a dizer Elaine Kasket. “Isto significa que as plataformas e as empresas como o Facebook acabam por ser elas a redigir as regras.”  (...) 

Nos Estados Unidos, a legislação recente contida no Data Protection Act 2018 define os “dados pessoais” como referindo-se unicamente a pessoas em vida. 

A concluir, Amelia Tait descreve várias situações em que, por esta via da protecção de privacidade, há conflitos passíveis de chegarem aos tribunais.

 

O artigo aqui citado, na íntegra em The Guardian.

Connosco
Jornalismo universitário americano cultiva independência Ver galeria

A indústria mediática está em decadência. Nos últimos dez anos, perdeu-se um quarto dos empregos no sector e espera-se que, na próxima década, desapareçam mais 10%.

O jornais regionais são, particularmente, prejudicados, com mais de 1.400 cidades norte-americanas a ficar sem a cobertura local.

Cole Stallone, director do jornal universitário “Washington Square News”, escreveu um artigo oportuno sobre a importância da aposta no jornalismo independente, promovido por estudantes.

Para Stallone, embora o jornalismo seja uma profissão em risco, continua a ser importante cobrir histórias e acontecimentos. Enquanto os profissionais se debatem com a importância de relatar eventos de maior dimensão, é crucial que haja cidadãos que se ocupem de ocorrências locais.


Como a tecnologia pode ser "amiga" do jornalismo... Ver galeria

A desinformação é uma das maiores preocupações dos “media” e, com o desenvolvimento tecnológico, têm surgido alguma soluções interessantes. O Blockchain é um programa que bloqueia, automaticamente, informações que considera falsas, e embora não se entenda que pode salvar o jornalismo, ainda pode ser útil à imprensa. O problema é que os leitores não parecem interessados nos factos.

O “The New York Times” lançou um projecto com o objectivo de perceber se o bloqueio facilita, ou não, a compreensão da origem das notícias, por parte dos consumidores. Os colaboradores têm pesquisado utilizadores e construído protótipos da Blockchain, divulgando, agora algumas das suas revelações iniciais.


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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O Presidente da República voltou a falar na necessidade de o Estado tomar medidas de apoio à comunicação social. Marcelo Rebelo de Sousa discursava na apresentação de um programa do “Público” para dar a estudantes universitários acesso gratuito a assinaturas daquele jornal, com o apoio de entidades privadas que pagam metade dos custos envolvidos. O Presidente entende, e bem, que o Estado tem responsabilidades neste campo e...
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O cinema e a televisão como "forma de futuro"
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