Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Tecnologias

Os Media digitais, os equívocos e os direitos de "portagem"

A sobrevivência do jornalismo digital está condicionada pelas “estradas” tecnológicas que supostamente lhe trouxeram o acesso às audiências globais que não tinham no impresso. É verdade que o fizeram, mas ficando também com os direitos de “portagem” na sua mão. A questão de fundo é sempre a mesma: quem é o verdadeiro gatekeeper? Quem tem o poder das “chaves”?

Este debate é sintetizado, com a identificação exacta dos protagonistas, num parágrafo que o jornalista Diogo Queiroz de Andrade coloca entre os primeiros de um texto publicado, precisamente, num jornal digital  - o ECO – Economia online:

“O actual modelo de negócio da Internet exige que se faça dinheiro quase só de duas formas: ou através de publicidade ou através da assinatura. Como a taxa de adesão a assinaturas é muito baixa, resta a publicidade. O negócio é dominado pelos gigantes da Internet, que produziram produtos gratuitos que exploram a privacidade de cada utilizador para lhes direccionar publicidade e enriquecer brutalmente com isso.”

O título do texto que aqui citamos é “Dissecar o Nónio”, e o seu autor reflecte sobre aquilo que o Nónio se propõe ser, “um sistema de registo unificado para os media digitais portugueses”, e o que daí resulta na prática: 

“A ideia é que o perfil de cada utilizador seja partilhado pelos títulos, de forma a poderem direccionar a publicidade e cobrarem mais pela mesma. Esta é a explicação técnica simplificada, mas o que justifica este texto é que o Nónio é um fantástico estudo de caso da comunicação social portuguesa e dos seus consumidores.”  (...) 

A crítica de Diogo Queiroz de Andrade é que “o Nónio nasceu com cinco anos de atraso”; que a sua chegada “foi tão mal gerida que nem ocorreu a ninguém registar o endereço nonio.pt antes de divulgar o projecto, e hoje esse link corresponde ironicamente a uma campanha anti-Nónio”; que “a coisa só faria sentido se todos aderissem, o que não foi conseguido (e é sintomático que os dois órgãos mais notáveis que não aderem sejam o Observador e o ECO, projetos digitais com uma administração moderna e que não arrastam consigo uma subserviência administrativa às direcções comerciais)”; e que o projecto “não foi devidamente testado junto de consumidores”, sendo antes “mal comunicado e mal explicado” aos mesmos. 

Tendo dito isto, acrescenta que, “se algum dia o Nónio desse o passo seguinte a coisa seria mais grave: a plataforma prevê personalizar não só a publicidade mas também os conteúdos, aumentando o risco de exposição selectiva a determinados tipos de notícias (o famoso efeito ‘bolha’ que foi cunhado por Eli Parisier)”. 

E acrescenta também que, em sua opinião, “todos os erros do Nónio são fruto de um ecossistema mediático comprometido em Portugal, de que os consumidores são também grandes responsáveis”, nomeadamente os “treinadores de bancada” cuja lógica, vinda do futebol, se propagou aos “jornalistas das redes sociais”: 

“É uma espécie extraordinária: não paga, não consome e exige que os meios de comunicação sejam cada vez melhores e que se mantenham gratuitos  – pior, exige que exista informação para que toda a sociedade possa ter acesso a informação de qualidade e faça as escolhas certas, mas não quer comprometer empenho ou dinheiro nisso.”  (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no ECO

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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