Terça-feira, 29 de Setembro, 2020
Memória

Agustina Bessa-Luís: a palavra insubstituível e a imensa obra

Morreu aos 96 anos Agustina Bessa-Luís, vulto maior das letras portuguesas, uma escritora que preferia ganhar o Prémio Nobel da Paz ao da Literatura. Foi distinguida por muitos outros, em vez destes, e deixa uma obra vastíssima, embora  - segundo a própria autora -  pouco lida:

“Poucos são os que me lêem, mas muitíssimo mais os que me conhecem”  - disse um dia.

Como recorda, no Público, Miguel Esteves Cardoso, “a sua vida passou também pelos jornais (uma intensa actividade que a Fundação Calouste Gulbenkian compilou em 2017, nos três volumes de Ensaios e Artigos (1951-2007), num total de nada menos do que 2.791 páginas organizadas pela neta da escritora, Lourença Baldaque).”

Foi directora, entre 1986 e 1987, do diário portuense O Primeiro de Janeiro, tendo ainda protagonizado em 2005, com a jornalista Maria João Seixas, o programa Ela por Ela.

Curiosamente, o seu despertar para a descrição do mundo começou pela imagem, neste caso pelo cinema, antes da escrita.

Começou a ler muito cedo, aos quatro anos. A sua própria memória de vida, recolhida em entrevistas que aqui citamos do Observador, parte deste ponto: “Quando aprendi a ler, no mundo fez-se luz e passei a compreender tudo.” A escrita chegou mais tarde. 

Quando era pequena, o pai tinha um cinema no Porto. A família vivia em Águas Santas, na Maia, e Agustina costumava ir todas as quintas-feiras ao cinema do Porto. Era o pai que a levava. “E deixava-me em liberdade”  - contou em 2003 a Anabela Mota Ribeiro. 

“Havia um café-concerto, uma sala de exposições, um jardim, onde se projectava cinema no Verão. Foi esse enamoramento da imagem, antes da escrita, que tive como campo de descoberta.” 

Estes caminhos cruzados levam a que várias obras suas tenham sido adaptadas ao cinema pelo realizador Manoel de Oliveira, “e assim foram vistas, além de lidas:  Fanny Owen (1981, adaptado para Francisca),  Vale Abraão (1993),  As Terras do Risco (1995, adaptado para O Convento)  e O Princípio da Incerteza (2002).” 

“Ela escrevia, ele filmava: foi uma parceria criativa que durou mais de duas décadas e resultou em quase uma dezena de filmes  - com alguns ‘confortáveis conflitos’ pelo meio.”  

“A autora escreveu ainda, para Oliveira, os diálogos de Party (1996), a partir da sua peça de teatro Party: Garden-Party dos Açores. Do seu conto  A Mãe de um Rio Oliveira havia de fazer Inquietude (1998). E também o realizador João Botelho adaptou um romance seu, em 2009:  A Corte do Norte.”


O velório da escritora decorre na Sé Catedral do Porto, a partir das 10h.30 de terça, 3 de Junho, com as exéquias solenes celebradas pelo Bispo do Porto, D. Manuel Linda, às 16 horas.  Foi decretado para este dia luto nacional.

 

 

Mais informação no Público  e no Observador

Connosco
Directora de Informação da BBC contra os "rufias das redes sociais" Ver galeria

A directora de Informação da BBC, Fran Unsworth, considera que os operadores públicos devem resistir à pressão exercida pelos grupos de interesse e noticiar de acordo com os seus próprios valores.

Durante a conferência anual da BBC, no Prix Italia, Unsworth considerou, ainda, que os serviços de informação têm a obrigação de ser plurais, já que os “revolucionários” não representam a voz de todos os cidadãos.

Dito isto, a directora de Informação deu o exemplo do “New York Times”, que pressionou a demissão da editora de opinião Bari Weiss, por esta não corresponder às expectativas dos utilizadores das redes sociais, lamentando o sucedida. 

“No meio do turbilhão, temos de continuar a pensar claramente. Temos de falar uns com os outros e não ceder à pressão dos ‘rufias das redes sociais’... Em última análise, são os editores que editam - não os grupos de interesse". Caso contrário, reiterou Unsworth, a democracia pode estar em risco.


“Media” franceses publicam carta de apoio ao “Charlie Hebdo” Ver galeria

Cerca de uma centena de “media” franceses publicaram uma carta aberta de apoio à revista “Charlie Hebdo”, em resposta a um apelo do director da publicação, Riss. Aliás, as antigas instalações da revista voltaram a testemunhar a violência: em 25 de Setembro, quatro pessoas ficaram feridas, naquele local, noutro ataque desta vez com arma branca.
O suspeito, um jovem paquistanês de 18 anos, que confessou a autoria do crime, confirmou que visava o "Charlie Hebdo", por este ter procedido à republicação dos "cartoons" sobre Maomé.

Em declarações à agência noticiosa France-Presse, Riss afirmou que a revista satírica francesa tinha sido, efectivamente,“mais uma vez ameaçada por organizações terroristas”, em pleno julgamento dos atentados de Janeiro de 2015, visando, igualmente, “todos os meios de comunicação e, mesmo, o Presidente”.

“Achámos necessário sugerir aos ‘media’ que pensassem na resposta colectiva que merecia ser dada a esta situação”, explicou.

Na carta aberta, intitulada “Juntos, vamos defender a liberdade”, os órgãos de comunicação social apelaram, então,  à defesa da imprensa.  “Hoje, em 2020, alguns de vós estão a receber ameaças de morte nas redes sociais quando expõem opiniões. Os meios de comunicação social são, abertamente, visados por organizações terroristas internacionais. Os Estados exercem pressões sobre os jornalistas franceses [considerados] ‘culpados’ de publicarem artigos críticos”, pode ler-se no documento.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
07
Out
A perspectiva feminina em falta sobre a Covid-19
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
14
Out
O que são os dados tendenciosos e como corrigi-los
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas