Terça-feira, 29 de Setembro, 2020
Estudo

A "normalização" do insulto nos comentários dos leitores "online"

O insulto nos comentários dos leitores, nos jornais online, é mais comum nas notícias de Política do que nas de Sociedade. Tornou-se “normal”, até ao ponto de os que reagem e criticam esse tipo de comportamento serem “quase ridicularizados pelos outros comentadores”.

Isto resulta da “forma como o jornalismo fala de política e da forma como os próprios políticos falam de política”. O que normaliza o insulto nas caixas de comentários “é o facto de as próprias notícias fazerem referência a declarações de políticos que são, eles próprios, incivis, com ataques pessoais”.

A reflexão é do investigador João Gonçalves, autor de uma tese de doutoramento em Comunicação, intitulada  - “O Peso da Escolha: O Discurso Online dos Públicos em Período Eleitoral”, baseada na análise de 28 mil comentários recolhidos nos jornais Público, Expresso e Observador, durante a campanha das legislativas de 2015. João Gonçalves é actualmente professor na Univbersidade de Roterdão, na Holanda.

Em entrevista ao Público, que aqui citamos, o autor explica que “a grande diferença é que as pessoas criticam o insulto quando ele acontece na secção de Sociedade”: 

“O mesmo não acontece nas notícias da Política. Na Política é quase normal haver insulto nas caixas de comentário.  (...)  Os jornais, ao tratarem as eleições como um jogo, focando-se em quem está à frente e quem está atrás  - com uma atenção maior às sondagens -  reduzem a qualidade dos comentários às notícias.” 

“É a ideia de horse race (corrida de cavalos), introduzida num trabalho clássico de Broh”  -  Anthony Broh, Horse-Race Journalism: Reporting the Polls in the 1976 Presidential election. (...) 

“O que os resultados mostram é que tratar a política como um jogo, colocar o foco no discurso do quem ganha e quem perde, aumenta a participação dos leitores, o que é positivo.  (...) Por outro lado, há menos relevância nesses comentários  - as pessoas tendem a afastar-se dos tópicos e a falar de outros assuntos. Mas não tem consequências para a civilidade.”  (...) 

O elemento agressivo e de incivilidade pode ser trazido pelos próprios políticos: 

“O discurso dos comentadores espelha os temas da agenda dos partidos e dos seus programas. Do mesmo modo, o tom que se usa nas discussões também decorre do tom usado pelos políticos. Quando as pessoas percebem que a forma normal de falar de política é o ataque quase constante, acabam por se atacar entre si quando discutem política.”  (...) 

Quando o tema da polémica são ataques à competência, ou sugestão de que “alguém é desonesto ou cometeu crimes, os principais visados são os políticos”: 

“Quando estamos a falar de ataques à identidade (insultos pessoais), são repartidos entre políticos e outros comentadores. Por vezes, os jornalistas também são visados, sobretudo nos ataques à competência.” 

“Um terço dos comentários não tem qualquer tipo de insulto. Um terço dos comentários tem incivilidade dirigida aos políticos e 20% aos outros comentadores e 5% à Imprensa e aos jornalistas.” 

“Grande parte da incivilidade não tem a ver com os níveis de educação das pessoas, nem com o facto de comentarem mais ou menos intensamente, mas com uma afiliação ideológica mais vincada. As pessoas mais polarizadas são tipicamente aquelas que têm um discurso mais incivil. Quanto mais se entrincheiram num determinado ponto de vista, menos tendem a aceitar os outros.”  (...)

 

A entrevista aqui citada, na íntegra no Público impresso, com o acesso online exclusivo para assinantes.

Connosco
Directora de Informação da BBC contra os "rufias das redes sociais" Ver galeria

A directora de Informação da BBC, Fran Unsworth, considera que os operadores públicos devem resistir à pressão exercida pelos grupos de interesse e noticiar de acordo com os seus próprios valores.

Durante a conferência anual da BBC, no Prix Italia, Unsworth considerou, ainda, que os serviços de informação têm a obrigação de ser plurais, já que os “revolucionários” não representam a voz de todos os cidadãos.

Dito isto, a directora de Informação deu o exemplo do “New York Times”, que pressionou a demissão da editora de opinião Bari Weiss, por esta não corresponder às expectativas dos utilizadores das redes sociais, lamentando o sucedida. 

“No meio do turbilhão, temos de continuar a pensar claramente. Temos de falar uns com os outros e não ceder à pressão dos ‘rufias das redes sociais’... Em última análise, são os editores que editam - não os grupos de interesse". Caso contrário, reiterou Unsworth, a democracia pode estar em risco.


“Media” franceses publicam carta de apoio ao “Charlie Hebdo” Ver galeria

Cerca de uma centena de “media” franceses publicaram uma carta aberta de apoio à revista “Charlie Hebdo”, em resposta a um apelo do director da publicação, Riss. Aliás, as antigas instalações da revista voltaram a testemunhar a violência: em 25 de Setembro, quatro pessoas ficaram feridas, naquele local, noutro ataque desta vez com arma branca.
O suspeito, um jovem paquistanês de 18 anos, que confessou a autoria do crime, confirmou que visava o "Charlie Hebdo", por este ter procedido à republicação dos "cartoons" sobre Maomé.

Em declarações à agência noticiosa France-Presse, Riss afirmou que a revista satírica francesa tinha sido, efectivamente,“mais uma vez ameaçada por organizações terroristas”, em pleno julgamento dos atentados de Janeiro de 2015, visando, igualmente, “todos os meios de comunicação e, mesmo, o Presidente”.

“Achámos necessário sugerir aos ‘media’ que pensassem na resposta colectiva que merecia ser dada a esta situação”, explicou.

Na carta aberta, intitulada “Juntos, vamos defender a liberdade”, os órgãos de comunicação social apelaram, então,  à defesa da imprensa.  “Hoje, em 2020, alguns de vós estão a receber ameaças de morte nas redes sociais quando expõem opiniões. Os meios de comunicação social são, abertamente, visados por organizações terroristas internacionais. Os Estados exercem pressões sobre os jornalistas franceses [considerados] ‘culpados’ de publicarem artigos críticos”, pode ler-se no documento.


O Clube


Terminada a pausa de Agosto, este site do CPI  retoma a sua actividade e as  actualizações diárias, num contacto regular que faz parte da rotina de consulta dos nossos associados e parceiros, e que  tem vindo a atrair um confortável e crescente número de visitantes em Portugal e um pouco por todo o mundo, com relevo para os países lusófonos.

Sem prejuízo de  algumas alterações de estrutura funcional , o site continuará  acompanhar, a par e passo,  as iniciativas do Clube, bem como o  que de mais relevante  ocorrer no País e fora dele em matéria de jornalismo,  jornalistas e de liberdade de expressão.

Os media enfrentam uma situação complexa e, para muitos,  não se adivinha um desfecho airoso. 

O futuro dos media independentes está tingido de sombras.  E o das associações independentes de jornalistas – como é o caso do Clube Português de Imprensa – não se antevê, também, isento de dificuldades, que saberemos vencer, como vencemos outras ao longo de quase quatro décadas de história, que se completam este ano.

Desde a sua fundação, em 1980, o CPI viveu exclusivamente  com o apoio dos sócios, e de alguns mecenas que quiseram acompanhar os esforços do Clube,  identificado com uma sólida  profissão de fé em defesa do jornalismo e dos jornalistas.



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Agenda
07
Out
A perspectiva feminina em falta sobre a Covid-19
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
14
Out
O que são os dados tendenciosos e como corrigi-los
13:00 @ Sessões "online" Reuters Institute
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas