Quinta-feira, 9 de Abril, 2020
Estudo

A "normalização" do insulto nos comentários dos leitores "online"

O insulto nos comentários dos leitores, nos jornais online, é mais comum nas notícias de Política do que nas de Sociedade. Tornou-se “normal”, até ao ponto de os que reagem e criticam esse tipo de comportamento serem “quase ridicularizados pelos outros comentadores”.

Isto resulta da “forma como o jornalismo fala de política e da forma como os próprios políticos falam de política”. O que normaliza o insulto nas caixas de comentários “é o facto de as próprias notícias fazerem referência a declarações de políticos que são, eles próprios, incivis, com ataques pessoais”.

A reflexão é do investigador João Gonçalves, autor de uma tese de doutoramento em Comunicação, intitulada  - “O Peso da Escolha: O Discurso Online dos Públicos em Período Eleitoral”, baseada na análise de 28 mil comentários recolhidos nos jornais Público, Expresso e Observador, durante a campanha das legislativas de 2015. João Gonçalves é actualmente professor na Univbersidade de Roterdão, na Holanda.

Em entrevista ao Público, que aqui citamos, o autor explica que “a grande diferença é que as pessoas criticam o insulto quando ele acontece na secção de Sociedade”: 

“O mesmo não acontece nas notícias da Política. Na Política é quase normal haver insulto nas caixas de comentário.  (...)  Os jornais, ao tratarem as eleições como um jogo, focando-se em quem está à frente e quem está atrás  - com uma atenção maior às sondagens -  reduzem a qualidade dos comentários às notícias.” 

“É a ideia de horse race (corrida de cavalos), introduzida num trabalho clássico de Broh”  -  Anthony Broh, Horse-Race Journalism: Reporting the Polls in the 1976 Presidential election. (...) 

“O que os resultados mostram é que tratar a política como um jogo, colocar o foco no discurso do quem ganha e quem perde, aumenta a participação dos leitores, o que é positivo.  (...) Por outro lado, há menos relevância nesses comentários  - as pessoas tendem a afastar-se dos tópicos e a falar de outros assuntos. Mas não tem consequências para a civilidade.”  (...) 

O elemento agressivo e de incivilidade pode ser trazido pelos próprios políticos: 

“O discurso dos comentadores espelha os temas da agenda dos partidos e dos seus programas. Do mesmo modo, o tom que se usa nas discussões também decorre do tom usado pelos políticos. Quando as pessoas percebem que a forma normal de falar de política é o ataque quase constante, acabam por se atacar entre si quando discutem política.”  (...) 

Quando o tema da polémica são ataques à competência, ou sugestão de que “alguém é desonesto ou cometeu crimes, os principais visados são os políticos”: 

“Quando estamos a falar de ataques à identidade (insultos pessoais), são repartidos entre políticos e outros comentadores. Por vezes, os jornalistas também são visados, sobretudo nos ataques à competência.” 

“Um terço dos comentários não tem qualquer tipo de insulto. Um terço dos comentários tem incivilidade dirigida aos políticos e 20% aos outros comentadores e 5% à Imprensa e aos jornalistas.” 

“Grande parte da incivilidade não tem a ver com os níveis de educação das pessoas, nem com o facto de comentarem mais ou menos intensamente, mas com uma afiliação ideológica mais vincada. As pessoas mais polarizadas são tipicamente aquelas que têm um discurso mais incivil. Quanto mais se entrincheiram num determinado ponto de vista, menos tendem a aceitar os outros.”  (...)

 

A entrevista aqui citada, na íntegra no Público impresso, com o acesso online exclusivo para assinantes.

Connosco
Editores descontentes com projecto de apoio aos jornais "à medida das televisões" Ver galeria

Na sequência de apelos de várias empresas mediáticas, o Governo está, finalmente, a preparar um conjunto de medidas de apoio aos “media”, gravemente afectados pela crise instalada no país, na sequência da pandemia de Covid-19. 

Tudo indica, contudo, que o pacote destinado a compensar a quebra de receitas de circulação e publicidade não irá ao encontro das necessidades dos editores de jornais e revistas nem, tão pouco, de quem as distribui.

Isto porque as medidas que o Governo está a preparar terão como base a quebra de receitas da publicidade, omitindo, porém, o valor perdido com a diminuição abrupta na circulação, problema que não afecta as televisões.
"O pacote, como está neste momento, é feito à medida das televisões, porque não tem em conta os jornais e revistas, os meios mais prejudicados com a crise de saúde e económica que estamos a viver", explicou Afonso Camões, administrador do Grupo Global Media. "Sem imprensa escrita, é ,em primeira e última análise, o direito à informação, o Estado de direito e a Democracia que ficam em causa".

Perseguição à imprensa gera divisão ideológica no Brasil Ver galeria

Apesar dos esforços dos “media” para alcançar um consenso perante a pandemia do coronavírus, o discurso do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem contribuído para a polarização ideológica dos cidadãos, referiu Francisco Fernandes Ladeira, num artigo publicado no Observatório da Imprensa.

Isto porque, segundo Ladeira, Bolsonaro tem contrariado as directivas da imprensa para a contenção do coronavírus, apontadas pela OMS e pelo próprio ministério da Saúde brasileiro, acusando os “media” de disseminarem o pânico, deliberadamente, e sem fundamento.
Até meados do mês de Março, com a divulgação dos primeiros casos de covid-19 no Brasil, havia um relativo consenso entre a população sobre a quarentena transversal ser a melhor alternativa para evitar a rápida propagação do coronavírus.
Porém, devido aos discursos “inflamados” do Presidente os “media” têm sido descredibilizados. Essas premissas incentivaram, mesmo, aviolência sob jornalistas, que têm encontrado cada vez mais obstáculos ao exercício da profissão.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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