Sexta-feira, 17 de Janeiro, 2020
Jantares-debate

Para Francisco George Portugal é confrontado com "duplo envelhecimento"

Portugal está confrontado com uma situação demográfica de “duplo envelhecimento, na base e no topo”, que é “motivo de grande preocupação”. Temos uma taxa de natalidade das mais baixas na União Europeia, com pouco mais de oito crianças por cada mil habitantes, e um milhão de portugueses com 75 e mais anos, “dos quais 330 mil têm 85 e mais anos”.

Foi por este lado, da população existente e prevista, que o orador convidado do ciclo "Portugal: que País vai a votos?", o médico Francisco George, especialista em Saúde Pública e actual presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, iniciou a sua palestra, no ciclo promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Este “crescimento negativo”, em que temos, todos os anos, mais óbitos do que nascimentos, contrasta com “a elevada posição que ocupamos, em Saúde materno-infantil, na protecção da mãe e da criança, que é muito superior à que ocupamos na Economia”, num lugar cimeiro “entre os três primeiros países da Europa”.

Francisco George começou por afirmar que “a saúde dos portugueses é excelente. Não falo do Sistema Nacional de Saúde e da sua competente cúpula, o Serviço Nacional de Saúde. Digo que a saúde dos portugueses é excelente. Nunca foi tão boa”. 

Prosseguiu, no entanto, com os números negativos da demografia. A taxa da fecundidade, que corresponde aos nascimentos por mulheres em idade fértil, é de 1,3.  “Isto quer dizer que dez mulheres têm treze filhos”, quando “deviam ter, no mínimo, 21 filhos”, para manterem “a probabilidade de as gerações se sucederem umas às outras”. 

“Há bem pouco tempo, António Correia de Campos dizia que a idade de nascimento do primeiro filho nas mulheres portuguesas derrapou seis anos. É verdade, isto é um motivo de preocupação, porque não só põe em risco a saúde da mãe, como também da criança.” 

“E há alguns aspectos que permitem perceber que poderá estar no horizonte uma subida, se bem que pouco significativa, da mortalidade materna, que era praticamente nula, exactamente devido às questões da idade avançada em relação à idade fértil, muitas vezes próximo dos 40 anos, em lugar de ser na casa dos 20, que é o ideal para a procriação.”  (...) 

Voltando à questão do envelhecimento, Francisco George sublinhou que temos hoje “155 idosos acima dos 75 anos para cada 100 jovens”; e que Portugal “todos os anos decresce, em termos de residentes”: nasceram no ano passado unicamente 87 mil crianças, e este ano “sabemos que morreram, ao longo de 2018, 113 mil pessoas. Há uma diferença de 26 mil”. 

Esta diferença, segundo acrescentou, “podia ser compensada com um saldo migratório, se fosse positivo”; e citou o exemplo da Alemanha e da Suécia, que facilitaram a entrada de refugiados  “porque sabiam que tinham problemas gravíssimos de crescimento negativo à vista, e de envelhecimento muito acentuado”.  (...) 

O envelhecimento populacional tem, depois, “uma transição igualmente no plano do perfil epidemiológico”, com  “menos doenças agudas, mais doenças crónicas.” 

“As doenças crónicas, no conjunto, representam 86% do peso do burden; e o peso do burden, em Saúde, são as doenças que matam, ou incapacitam, antes dos 70 anos.” 

“Não é a mesma coisa ter um enfarte do miocárdio aos 68 anos ou aos 80, 82 ou 86. Não é igual; quando surge um enfarte antes dos 70 anos, uma doença oncológica ou metabólica, degenerativa ou outra, nós, que falamos num problema que pode antecipar a morte, antes da barreira dos 70 anos, falamos em morte prematura.” 

Segundo Francisco George, esta morte prematura “constitui um grande problema no nosso País, e poucos são aqueles que a analisam”. Porque, “dos 113 mil óbitos que se verificaram, 20% foram de portugueses que não chegaram aos 70 anos.”  (...)

Outra consequência é “a probabilidade de um português, um cidadão, sofrer de demência com esta idade, que é superior a 40%”: 

“A verdade é que hoje sabemos que a demência, mais do que uma doença da mente, é uma doença neurológica. Portanto, há aqui um problema, de muitos idosos, internados em lares, estarem com demência, e não serem tratados devidamente, porque são confundidos com doentes com problemas da mente, não o sendo. Este é um problema que os políticos deviam olhar melhor, e não olham.”  (...) 

“A Saúde deu um grande salto”  -  afirmou depois Francisco George: 

“Nós tivémos grandes líderes na Saúde. Provavelmente, aquele que poderá ter sido dos maiores líderes que tivémos na Saúde foi Albino Aroso, que concentrou os meios e investiu na mãe e na criança. As mulheres portuguesas ainda não pensaram aquilo que devem a Albino Aroso, que foi o desenhador, o arquitecto da estratégia que colocou Portugal num lugar cimeiro, em termos da saúde da mãe e da criança.” 

“Não vou ter tempo de descrever as etapas do seu trabalho. Mas a verdade é que, de tal maneira é elevada a posição que ocupamos, em Saúde materno-infantil, na protecção da mãe e da criança, que é muito superior à que ocupamos na Economia, em termos do produto.” 

“O ranking do produto, naturalmente, coloca-nos numa posição com alguma vergonha, no conjunto da Europa, e o ranking da Saúde, sobretudo da mãe e da criança, num lugar cimeiro, muito seguramente entre os três primeiros países da Europa, mais ainda do que nos países do Norte da Europa.”  (...) 

No seguimento destas afirmações, o orador advertiu que, tanto os políticos, que sejam ou tenham sido “titulares de órgãos importantes de soberania”, como também os movimentos grevistas, “devem pensar melhor” sobre a importância do que está em causa: 

“E é verdade que estes movimentos recentes põem em causa, muitas vezes, conquistas que colocaram Portugal em lugares cimeiros, sobretudo nesta fase e nestas questões ligadas à mãe e à criança.”  (...) 

Perto de terminar, Francisco George citou um estudo realizado por um colega médico da mesma especialidade, Saúde Pública, que foi estudar uma amostra de cidadãos que não pagam IRS porque os os rendimentos familiares não ultrapassam os 800 euros, e aqueles que têm os escalões mais elevados de IRS. 

“Fez-se um estudo prospectivo e foi-se comparar o que é que acontecia a um da primeira amostra e da outra, quer uma quer outra muito representativas, com escolhas aleatórias de entre estas populações.” 

“O que é que acontece? O grupo de baixo rendimento surge com incapacidade de Alzheimer 15 anos antes do outro. Há aqui, portanto, um gradiente social: e este gradiente, que gera este fosso de 15 anos, está relacionado com um problema que é a falta de democracia em Saúde. Não há um regime democrático em Saúde Pública.” 

“Vou ser mais claro: e não há porquê? Porque, se é verdade que, nos blocos de partos, nascem crianças, filhos de africanos, filhos de portugueses, filhos de ricos e de pobres, ciganos e aristocratas, nos famosos blocos de partos, que nós conseguimos erguer e pôr a funcionar no País, concebidos por Albino Aroso, portanto em plena igualdade, depois, à medida que as crianças vão crescendo, surgem estratos na população, que os absorvem, que os colocam, e vão surgindo gradientes  -  o que contraria o próprio conceito de democracia.” 

A concluir, o orador mencionou também que os especialistas em Saúde Pública estão “preocupados com os efeitos na Saúde, que decorrem das alterações climáticas, sobretudo a questão das doenças de transmissão vectorial e os cancros da pele, que são vários; a resistência aos anti-microbianos vai pôr em causa a era da luta anti agentes microbiológicos patogénicos, e depois a questão da diabetes, que também não vou ter tempo de dizer, mas só chamar a atenção para este fenómeno, que é, a meu ver, pouco pensado também”.

Connosco
Jornalistas sobem ao palco para contar as suas histórias ... Ver galeria

Os jornais deixaram de estar devidamente enraizados no seu lugar, os jornalistas não interagem com a comunidade e as comunidades de leitores estão a desintegrar-se. Uma nova tendência mediática está, contudo, a aproximar, novamente, os jornalistas das audiências. 

A imprensa de alguns países - como a Finlândia, Espanha e França -, está a começar a apostar num formato de "notícias ao vivo", onde os jornalistas estão, literalmente, em cima do palco e conversam com o público sobre as suas histórias, reportagens e vivências, o que está a ajudar o jornalismo a combater a crise de credibilidade. 

O público está pronto a conhecer a pesquisa preliminar dos jornalistas, que se mostram dispostos a partilhar os desenvolvimentos das suas histórias. Ouvir os jornalistas em “carne e osso” humaniza tanto as histórias quanto os escritores e levanta o véu sobre as práticas da redacção. Os participantes dos eventos ficam satisfeitos por terem a oportunidade de fazer perguntas, participar numa discussão e potencialmente influenciar a estratégia editorial.

Em Helsínquia, por exemplo, a “performance” do principal jornal diário está, habitualmente, esgotada. Em Madrid, o "Diário Vivo" oferece "uma noite única em que os jornalistas contam histórias verdadeiras, íntimas e universais pela primeira vez". O público compromete-se a não gravar o evento e, na Finlândia, reúne-se com os jornalistas para "tomar um copo", depois de saírem de cena.


Leitores franceses com reservas em relação aos “media” Ver galeria

Um estudo anual realizado para o diário francês "La Croix", revelou que há um decréscimo no interesse pela actualidade e que os leitores confiam cada vez menos nos "media".

Segundo a pesquisa, apenas 59% dos franceses segue as notícias com interesse "muito elevado" ou "elevado", 41% dizem que estão "muito pouco" ou "bastante pouco" interessados. Esta é a maior queda registada desde que este tipo de inquérito começou a ser realizado, em 1987, o que confirma uma certa apatia.

A confiança nos "media" continua extremamente baixa. Apenas 50% dos franceses considera que as notícias transmitidas na rádio são credíveis e a credibilidade em relação ao conteúdo televisivo é de apenas 40%. Os jornais têm a confiança de 46% das leitores e a internet é considerada o meio de informação menos fidedigno.

O fenómeno parece estar ligado, em parte, ao número de canais de informação, que se multiplica pelas redes sociais, e às notícias que muitas vezes provocam ansiedade e medo.


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
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