Terça-feira, 9 de Março, 2021
Jantares-debate

Para Francisco George Portugal é confrontado com "duplo envelhecimento"

Portugal está confrontado com uma situação demográfica de “duplo envelhecimento, na base e no topo”, que é “motivo de grande preocupação”. Temos uma taxa de natalidade das mais baixas na União Europeia, com pouco mais de oito crianças por cada mil habitantes, e um milhão de portugueses com 75 e mais anos, “dos quais 330 mil têm 85 e mais anos”.

Foi por este lado, da população existente e prevista, que o orador convidado do ciclo "Portugal: que País vai a votos?", o médico Francisco George, especialista em Saúde Pública e actual presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, iniciou a sua palestra, no ciclo promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário.

Este “crescimento negativo”, em que temos, todos os anos, mais óbitos do que nascimentos, contrasta com “a elevada posição que ocupamos, em Saúde materno-infantil, na protecção da mãe e da criança, que é muito superior à que ocupamos na Economia”, num lugar cimeiro “entre os três primeiros países da Europa”.

Francisco George começou por afirmar que “a saúde dos portugueses é excelente. Não falo do Sistema Nacional de Saúde e da sua competente cúpula, o Serviço Nacional de Saúde. Digo que a saúde dos portugueses é excelente. Nunca foi tão boa”. 

Prosseguiu, no entanto, com os números negativos da demografia. A taxa da fecundidade, que corresponde aos nascimentos por mulheres em idade fértil, é de 1,3.  “Isto quer dizer que dez mulheres têm treze filhos”, quando “deviam ter, no mínimo, 21 filhos”, para manterem “a probabilidade de as gerações se sucederem umas às outras”. 

“Há bem pouco tempo, António Correia de Campos dizia que a idade de nascimento do primeiro filho nas mulheres portuguesas derrapou seis anos. É verdade, isto é um motivo de preocupação, porque não só põe em risco a saúde da mãe, como também da criança.” 

“E há alguns aspectos que permitem perceber que poderá estar no horizonte uma subida, se bem que pouco significativa, da mortalidade materna, que era praticamente nula, exactamente devido às questões da idade avançada em relação à idade fértil, muitas vezes próximo dos 40 anos, em lugar de ser na casa dos 20, que é o ideal para a procriação.”  (...) 

Voltando à questão do envelhecimento, Francisco George sublinhou que temos hoje “155 idosos acima dos 75 anos para cada 100 jovens”; e que Portugal “todos os anos decresce, em termos de residentes”: nasceram no ano passado unicamente 87 mil crianças, e este ano “sabemos que morreram, ao longo de 2018, 113 mil pessoas. Há uma diferença de 26 mil”. 

Esta diferença, segundo acrescentou, “podia ser compensada com um saldo migratório, se fosse positivo”; e citou o exemplo da Alemanha e da Suécia, que facilitaram a entrada de refugiados  “porque sabiam que tinham problemas gravíssimos de crescimento negativo à vista, e de envelhecimento muito acentuado”.  (...) 

O envelhecimento populacional tem, depois, “uma transição igualmente no plano do perfil epidemiológico”, com  “menos doenças agudas, mais doenças crónicas.” 

“As doenças crónicas, no conjunto, representam 86% do peso do burden; e o peso do burden, em Saúde, são as doenças que matam, ou incapacitam, antes dos 70 anos.” 

“Não é a mesma coisa ter um enfarte do miocárdio aos 68 anos ou aos 80, 82 ou 86. Não é igual; quando surge um enfarte antes dos 70 anos, uma doença oncológica ou metabólica, degenerativa ou outra, nós, que falamos num problema que pode antecipar a morte, antes da barreira dos 70 anos, falamos em morte prematura.” 

Segundo Francisco George, esta morte prematura “constitui um grande problema no nosso País, e poucos são aqueles que a analisam”. Porque, “dos 113 mil óbitos que se verificaram, 20% foram de portugueses que não chegaram aos 70 anos.”  (...)

Outra consequência é “a probabilidade de um português, um cidadão, sofrer de demência com esta idade, que é superior a 40%”: 

“A verdade é que hoje sabemos que a demência, mais do que uma doença da mente, é uma doença neurológica. Portanto, há aqui um problema, de muitos idosos, internados em lares, estarem com demência, e não serem tratados devidamente, porque são confundidos com doentes com problemas da mente, não o sendo. Este é um problema que os políticos deviam olhar melhor, e não olham.”  (...) 

“A Saúde deu um grande salto”  -  afirmou depois Francisco George: 

“Nós tivémos grandes líderes na Saúde. Provavelmente, aquele que poderá ter sido dos maiores líderes que tivémos na Saúde foi Albino Aroso, que concentrou os meios e investiu na mãe e na criança. As mulheres portuguesas ainda não pensaram aquilo que devem a Albino Aroso, que foi o desenhador, o arquitecto da estratégia que colocou Portugal num lugar cimeiro, em termos da saúde da mãe e da criança.” 

“Não vou ter tempo de descrever as etapas do seu trabalho. Mas a verdade é que, de tal maneira é elevada a posição que ocupamos, em Saúde materno-infantil, na protecção da mãe e da criança, que é muito superior à que ocupamos na Economia, em termos do produto.” 

“O ranking do produto, naturalmente, coloca-nos numa posição com alguma vergonha, no conjunto da Europa, e o ranking da Saúde, sobretudo da mãe e da criança, num lugar cimeiro, muito seguramente entre os três primeiros países da Europa, mais ainda do que nos países do Norte da Europa.”  (...) 

No seguimento destas afirmações, o orador advertiu que, tanto os políticos, que sejam ou tenham sido “titulares de órgãos importantes de soberania”, como também os movimentos grevistas, “devem pensar melhor” sobre a importância do que está em causa: 

“E é verdade que estes movimentos recentes põem em causa, muitas vezes, conquistas que colocaram Portugal em lugares cimeiros, sobretudo nesta fase e nestas questões ligadas à mãe e à criança.”  (...) 

Perto de terminar, Francisco George citou um estudo realizado por um colega médico da mesma especialidade, Saúde Pública, que foi estudar uma amostra de cidadãos que não pagam IRS porque os os rendimentos familiares não ultrapassam os 800 euros, e aqueles que têm os escalões mais elevados de IRS. 

“Fez-se um estudo prospectivo e foi-se comparar o que é que acontecia a um da primeira amostra e da outra, quer uma quer outra muito representativas, com escolhas aleatórias de entre estas populações.” 

“O que é que acontece? O grupo de baixo rendimento surge com incapacidade de Alzheimer 15 anos antes do outro. Há aqui, portanto, um gradiente social: e este gradiente, que gera este fosso de 15 anos, está relacionado com um problema que é a falta de democracia em Saúde. Não há um regime democrático em Saúde Pública.” 

“Vou ser mais claro: e não há porquê? Porque, se é verdade que, nos blocos de partos, nascem crianças, filhos de africanos, filhos de portugueses, filhos de ricos e de pobres, ciganos e aristocratas, nos famosos blocos de partos, que nós conseguimos erguer e pôr a funcionar no País, concebidos por Albino Aroso, portanto em plena igualdade, depois, à medida que as crianças vão crescendo, surgem estratos na população, que os absorvem, que os colocam, e vão surgindo gradientes  -  o que contraria o próprio conceito de democracia.” 

A concluir, o orador mencionou também que os especialistas em Saúde Pública estão “preocupados com os efeitos na Saúde, que decorrem das alterações climáticas, sobretudo a questão das doenças de transmissão vectorial e os cancros da pele, que são vários; a resistência aos anti-microbianos vai pôr em causa a era da luta anti agentes microbiológicos patogénicos, e depois a questão da diabetes, que também não vou ter tempo de dizer, mas só chamar a atenção para este fenómeno, que é, a meu ver, pouco pensado também”.

Connosco
Jornalismo de investigação (pouco convencional) para escrutinar governo russo Ver galeria

Na Rússia, alguns “media” estão a utilizar métodos pouco convencionais para realizar reportagens de investigação e escrutinar o governo de Vladimir Putin.

De acordo com o “New York Times”, estas publicações estão a recorrer à rede social Telegram e à “darkweb” para aceder a bases de dados, obter informações sobre geolocalização e, ainda, consultar registos de viagens aéreas.

Estes métodos são conhecidos por “probiv” -- “perfurar”, em tradução livre -- e permitiram identificar, por exemplo, a célula responsável pelo envenenamento do líder da oposição, Alexei Navalny.

Além disso, graças ao “probiv”, estes projectos de “media” conseguiram publicar histórias exclusivas sobre a “família secreta de Putin” e sobre a interferência russa, em 2016, nas eleições presidenciais norte-americanas.

Com tudo isto, o jornalismo independente russo atingiu um nível “que não se via desde o final da década de 1990”, considerou Denis Volkov, o director do Levada Center, um grupo de pesquisa de opinião pública.

O “probiv” é, contudo, um fenómeno exclusivo da Rússia, já que a maioria dos “media” internacionais rege-se pelo princípio ético de não pagar por informação roubada.

“ As nossas audiências não querem saber se a informação foi ou não roubada”, afirmou Roman Anin, o fundador da plataforma iStories. “Como vivemos num país onde as autoridades matam os líderes de oposição, esquecemo-nos dessas regras [de ética], porque as nossas histórias são muito mais importantes”.

Da mesma forma, o criador do “site” Proekt, Roman Badanin, considera que o número de leitores compensa qualquer desrespeito pelo código deontológico.

Jornalista portuguesa vence Prémio Rei de Espanha Ver galeria

A jornalista portuguesa Catarina Canelas recebeu o Prémio Rei de Espanha na Categoria de Ambiente, graças à reportagem "Plástico: o Novo Continente".

Atribuída por unanimidade do júri, a distinção sublinha as “imagens impactantes que reflectem um enorme problema global e a invasão dos plásticos nos mares”.

Graças a estes elementos visuais, a reportagem conseguiu destacar-se entre as 155 candidaturas submetidas por mais de duas dezenas de países ibero-americanos.

Composta por sete episódios e exibida, pela TVI, em Agosto do último ano, a série documental foi realizada em conjunto com João Franco, Nélson Costa e Teresa Almeida, resultando num trabalho que, “documenta de forma extensa, (..) os perigos que pressupõem a presença do plástico no oceano”.

Esta reportagem contou, ainda, com a “opinião de especialistas, investigadores, cientistas, organizações conservacionistas e ecologistas que trabalham também na luta contra o plástico”.

A jornalista afirmou, entretanto, através das redes sociais que,“este reconhecimento de uma distinção tão importante a nível internacional é uma honra e um orgulho imenso”.

A série de reportagens está disponível no TVI Player.

 

 

O Clube


Ao completar 40 anos de actividade ininterrupta o CPI – Clube Português de Imprensa tem um histórico de que se orgulha. Foi a 17 de dezembro de 1980 que um grupo de entusiastas quis dar forma a um projecto inédito no associativismo do sector. 

Não foi fácil pô-lo de pé, e muito menos foi cómodo mantê-lo até aos nossos dias, não obstante a cultura adversarial que prevalece neste País, sempre que surge algo de novo que escapa às modas em voga ou ao politicamente correcto.
O Clube cresceu, foi considerado de interesse público; inovou ao instituir os Prémios de Jornalismo, atribuídos durante mais de duas décadas; promoveu vários ciclos de jantares-debate, pelos quais passaram algumas das figuras gradas da vida nacional; editou a revista Cadernos de Imprensa; teve programas de debate, em formatos originais, na RTP; desenvolveu parcerias com o CNC- Centro Nacional de Cultura, Grémio Literário, e Lusa, além de outras, com associações congéneres estrangeiras prestigiadas, como a APM – Asociacion de la Prensa de Madrid e Observatório de Imprensa do Brasil.
A convite do CNC, o Clube juntou-se, ainda, à Europa Nostra para lançar, conjuntamente, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, instituído pela primeira vez em 2013, em, homenagem à jornalista, que respirava Cultura, cabendo-lhe o mérito de relançar o Centro e dinamizá-lo com uma energia criativa bem testemunhada por quem a acompanhou de perto.
Mais recentemente, o Clube lançou os Prémios de Jornalismo da Lusofonia, em parceria com o jornal A Tribuna de Macau e a Fundação Jorge Álvares, procurando preencher um vazio que há muito era notado.
Uma efeméride “redonda” como esta que celebramos é sempre pretexto para um balanço. A persistência teve as suas recompensas, embora, hoje, os jornalistas estejam mais preocupados com a sua subsistência num mercado de trabalho precário, do que em participarem activamente no associativismo do sector.
Sabemos que esta realidade não afecta apenas o CPI, mas a generalidade das associações, no quadro específico em que nos inserimos. Seriam razões suficientes para nos sentarmos todos à mesa, reunindo esforços para preparar o futuro.
Com este aniversário do CPI fica feito o convite.

A Direcção


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Opinião
Limites da liberdade de expressão
Francisco Sarsfield Cabral
Na internet não deve continuar a prevalecer a lei da selva. O que não é um apelo à censura, muito menos se ela for praticada pelos gestores das empresas tecnológicas. Cabe à política, e não às empresas, assegurar o bem comum. Quem escreve na internet deverá sujeitar-se às condições jurídicas que não permitam atos que são considerados crimes nos media tradicionais.Não há...
Venham mais 40!...
Carlos Barbosa
No Brasil, começou esta aventura, com o Dinis de Abreu!! Foi há 40 anos, estava ele no Diário de Noticias e eu no Correio Manhã, quando resolvemos, com mais uma bela equipa de jornalistas, fundar o Clube Português de Imprensa. Completamente independente e sem qualquer cor politica, o Clube cedo se desenvolveu com reuniões ,almoços, palestras, etc. Tivemos o privilégio de ter os maiores nomes da sociedade civil e política portuguesa...
A perda da memória é um dos problemas do nosso jornalismo. E os 40 anos do Clube Português de Imprensa (CPI) reforçam essa ideia quando revejo a lista dos fundadores e encontro os nomes de Norberto Lopes e Raul Rego, dois daqueles a quem chamávamos mestres, à cabeça de uma lista de grandes carreiras na profissão. São os percursores de uma plêiade de figuras que enriqueceram a profissão, muitas deles premiados pelo Clube...
A ideia fundadora do CPI, pelo menos a que justificou a minha adesão plena à iniciativa, foi o entendimento de que cada media é uma comunidade de interesses convergentes. A dos editores da publicação, a dos produtores, a dos que comercializam. Isto é, uma ideia cooperativa de acionistas, jornalistas e outros trabalhadores. E, obviamente, uma ideia primeira de independência e de liberdade. Esta ideia causou, há quarenta anos, algum...
Notas breves
José Leite Pereira
1 - Assistir a entrevistas na televisão tornou-se um ato penoso. As entrevistas fizeram-se para que alguém possa transmitir a terceiros o que entende dever ser transmitido. Ao jornalista cabe o papel de intermediário e intérprete do que julga ser a curiosidade do público. A entrevista é um ato de esclarecimento. Diferente de um texto de opinião ou de uma comunicação pura e simples exatamente por causa da presença do...
Agenda
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Mar
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Abr
International Symposium on Online Journalism
10:00 @ Conferência "Online"
17
Jun
4th International Conference Stereo & Immersive Media 2021
09:30 @ Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
24
Jun
International Congress of Audiovisual Researchers
09:00 @ Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias