Terça-feira, 10 de Dezembro, 2019
Opinião

“Fake news”, ontem e hoje

por Francisco Sarsfield Cabral

Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.

 Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo.

Claro que a internet e as redes sociais proporcionam às “fake news” um grau de divulgação jamais visto no passado – milhões de pessoas podem ser enganadas por essas falsidades numa questão de segundos. 

Mas comecemos pelo passado. O boato era uma arma insidiosa em comunidades pequenas. Lançado com propósitos de prejudicar a imagem pública de uma pessoa, frequentemente atingia esse objetivo. Ainda agora o boato é utilizado, designadamente como arma política. 

Há dois séculos não existia internet, nem rádio, nem televisão, nem telefones. O meio de comunicação usado na política dessa época eram os jornais. Por isso quem queria afirmar-se na política procurava prioritariamente publicar um jornal ou, pelo menos, conseguir inserir regularmente notícias e textos de opinião num ou mais jornais.

No séc. XIX havia dezenas de jornais em Lisboa e no Porto. Tinham poucas páginas e uma circulação modesta. Mas não era preciso mais: só uma pequena minoria ilustrada lia então jornais – a grande maioria era simplesmente analfabeta. Esses jornais serviam, frequentemente, para lançar acusações e suspeições sobre o carácter de adversários políticos. Muitas vezes eram puras mentiras.

Esse modo pouco limpo de fazer política não acontecia apenas em Portugal. Longe disso. Nas primeiras décadas da jovem nação americana, os Estados Unidos, multiplicaram-se as falsidades publicadas em jornais, apesar do prestígio dos “pais fundadores”. Nem Washington escapou a essa praga, apesar de ser o primeiro presidente dos EUA e, antes disso, líder militar do exército que conquistou a independência contra os britânicos.

Mais tarde ficou célebre a interferência militar americana na guerra de independência de Cuba, contra a colonização espanhola, no fim do séc. XIX. Essa intervenção foi repetidamente exigida em jornais sensacionalistas americanos através de notícias nem sempre fiáveis. Magnatas da imprensa como William Hearst, proprietário de dezenas de jornais, precisavam de uma guerra para venderem mais papel. W. Hearst foi genialmente retratado por Orson Welles no seu filme de 1941 “Citizen Kane”.

 

Russos muito activos

Na semana passada o FBI informou que “hackers” russos conseguiram aceder a uma base de dados na Florida, antes das eleições presidenciais americanas de 2016. Aliás, o relatório do procurador especial Robert Mueller sobre a interferência russa naquela eleição, favorecendo Trump, refere que “hackers” tinham entrado na rede informática da Florida.

Estará o governo autocrático de Putin na origem das acções russas de desinformação? Não sabemos ao certo. Mas seria estranho que tais operações não tenham, pelo menos, a simpatia de Putin, que não consta haver alguma vez mandado investigar e muito menos prender os autores das “fake news”. 

O “New York Times” (NYT) de domingo passado denunciou um grupo de “sites” na internet que difundia falsas informações sobre o funcionamento da UE e da NATO. O jornal detectou grupúsculos políticos italianos e alemães que, através de servidores russos, promoviam a difusão de “fake news” favoráveis à extrema-direita.

Alguns grupos da direita radical, segundo o NYT, utilizam técnicas sofisticadas para fazer passar as suas mensagens de modo não explícito, em conteúdos sobre moda e desporto. Aquelas mensagens disfarçadas são de teor anti-semita, anti-imigração e populista.

Segundo a SafeGuard Cyber, uma agência de cíber-segurança, em cada dois eleitores europeus um está exposto a informações falsas e a publicações que promovem o extremismo político. A mesma fonte referiu existirem 6 700 contas duvidosas na net, que publicam e reproduzem sem cessar “fake news”. Estas são escolhidas em função dos alvos: por exemplo, as difundidas na Alemanha insistem na “invasão de imigrantes”, nas dirigidas ao Reino Unido o objetivo é acentuar as divisões nesse país sobre o Brexit, etc.

Por cá, o “Diário de Notícias” deu conta da existência de uma série de perfis falsos, no Twitter e no Facebook, que teriam como alvos adversários político-partidários.

 Esforços do Facebook

O Facebook tem na sua sede europeia, em Dublin, cerca de quarenta técnicos cuja missão é detectar e eventualmente encerrar páginas que canalizem notícias falsas. E cerca 30 mil funcionários do Facebook vigiam em permanência conteúdos, procurando evitar textos extremistas, de incentivo ao ódio. A propósito, comenta o NYT que é difícil essa tarefa, uma vez que, numerosas vezes, não se trata de notícias totalmente falsas, mas do exagero de factos que aconteceram. São “fake news” sofisticadas.    

Porventura ainda mais preocupante é que a difusão de “fake news” se tornou um negócio, desde há vários anos. Usando o inglês como língua universal, pequenos grupos de jovens e alguns menos jovens, produzem regularmente, nos mais variados lugares do mundo,  textos falsos, no todo ou em parte, que vendem a políticos que operam na sombra. 

É com certeza lamentável e perigoso o investimento político em campanhas de desinformação encomendadas ou já prontas. Mas, infelizmente, ainda não se encontraram antídotos eficazes para esta chaga da internet.

(Texto originalmente publicado no “site” da Rádio Renascença)

Connosco
A cientista Fabiola Gianotti recebeu Prémio Helena Vaz da Silva Ver galeria

O Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian acolheu novamente a cerimónia de entrega do  Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, atribuído , este ano, a Fabiola Gianotti,  cientista italiana em Física de partículas e primeira mulher nomeada directora-geral do Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), por ter contribuido para a divulgação da cultura científica de uma forma atractiva e acessível.

Este Prémio Europeu,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura (CNC) em cooperação com a  Europa Nostra e o Clube Português de Imprensa (CPI)  recorda a jornalista portuguesa, escritora, activista cultural e política (1939 – 2002), e a sua notável contribuição para a divulgação do património cultural e dos ideais europeus. 

É atribuído anualmente a um cidadão europeu, cuja carreira se tenha distinguido pela difusão, defesa, e promoção do património cultural da Europa, quer através de obras literárias e musicais, quer através de reportagens, artigos, crónicas, fotografias, cartoons, documentários, filmes de ficção e programas de rádio e/ou televisão.

O Prémio conta com o apoio do Ministério da Cultura, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Turismo de Portugal.

Controlo de informação agrava-se e contamina vários países Ver galeria

A China e a Rússia utilizam técnicas de controlo de informação invasivos, desde as comunicações privadas dos cidadãos à censura. 

O uso de sistemas tecnológicos autoritários, por actores estatais, com o objectivo de diminuir os direitos humanos fundamentais dos cidadãos é algo que ultrapassa todos os limites. 

Valentin Weber, do Programa de Bolsas de Estudo de Controlo de Informações do Fundo Aberto de Tecnologia, decidiu realizar uma análise sistemática dos seus drivers e obteve sintomáti cos resultados. 

Através da pesquisa, Valentin descobriu que, até ao momento, mais de cem países compraram, imitaram ou receberam treino em controlo de informação da China e da Rússia.

Verificou, ainda,  casos de países cujos objectivos de controlo e monitorização da informação são semelhantes, como a Venezuela, o Egipto e Myanmar. 

Na lista surgiram, também, países possivelmente menos suspeitos, nos quais a conectividade se está a expandir, como Sudão, Uganda e Zimbábue; várias democracias ocidentais, como Alemanha, França e Holanda; e até mesmo pequenas nações como Trinidad e Tobago. 

“Ao todo, foram detectados 110 países  com tecnologia de vigilância ou censura importada da Rússia ou da China”, refere o artigo da OpenTechnology Fund, publicado no Global Investigative Journalism Network.

O Clube

Este site do Clube, lançado em Novembro de 2016, e com  actividade regular desde então, tem-se afirmado tanto como roteiro do que acontece de novo na paisagem mediática, como ainda no aprofundamento do debate sobre as questões mais relevantes do jornalismo, além do acompanhamento e divulgação das iniciativas do CPI.

O resultado deste esforço tem sido notório, com a fixação de um crescente número de visitantes, oriundos de uma alargada panóplia de países, com relevo para os de língua portuguesa, facto que é muito estimulante e encorajador. 


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