Sábado, 30 de Maio, 2020
Media

Morte e renascimento da objectividade em jornalismo

Também a objectividade já não é o que era dantes. Significava outra coisa, e foi mudando ao longo do tempo. Referimo-nos à objectividade no jornalismo, entendida como uma atitude ética de neutralidade e imparcialidade, mantendo uma distância sem preconceito em relação às fontes, aos objectivos e aos resultados do nosso trabalho. Mas não foi assim que começou.

Segundo Dan Schiller, historiador e docente de Comunicação, a “objectividade” começou por ser a justificação para um jornalismo sensacionalista de crimes, na década de 1840, apoiando depois uma estratégia comercial, “porque um jornal partidário tinha necesssariamente menor audiência do que um que fosse neutro”.

“Mesmo assim, a objectividade só passou a ser um padrão no jornalismo americano quando um tipo de reportagem tendenciosa e corrupta se tornou um escândalo nacional nos anos de 1920.”

É esta a reflexão inicial de um texto sobre “a morte e renascimento da objectividade”, na Global Investigative Journalism Network.

Segundo os autores, Mark Lee Hunter e Luk Van Wassenhove, o próprio termo desapareceu do Código de Ética da SPJ – Society of Professional Journalists, a mais antiga associação da classe, fundada em Abril de 1909, “embora se tenha mantido o ideal de imparcialidade” [fairness, no original]. 

Saltando mais de um século para o nosso tempo, “o conceito tem sido profundamente subvertido, tanto pelas redes da alt-right media que levaram Donald Trump até à Casa Branca, como pelos media cativos, como a Russia Today, como ainda pelos media dirigidos por parte interessada, exemplificados por importantes ONG’s”. 

Estes novos competidores, da esquerda ou da direita, têm traços comuns: 

“Todos floresceram no espaço crescente deixado pelo esvaziamento do jornalismo tradicional [mainstream news media, no original]. Nenhum deles está grandemente preocupado em ser ‘imparcial e equilibrado’ [fair and balanced, no original]  - que era o slogan bizarro da Fox News até 2017 -  muito menos neutral. O que mais lhes interessa é ganharem as guerras que consideram importantes.” 

“Mudança semelhante é agora visível em The New York Times e The Washington Post, que evoluíram no sentido de se tornarem escudos e faróis para a ‘resistência’ americana.” 

“Ao mesmo tempo, o Times apregoa o seu próprio trabalho por meio do slogan  - “Verdade  - é agora mais importante do que nunca.” 

“De facto é, mas, antes de Trump, a proposta de valor era que os jornalistas, em primeiro lugar, procuram acesso a várias fontes, que contam as suas próprias verdades, e depois justapõem estas versões da realidade. Em teoria, isso permite aos leitores chegarem à sua própria verdade.” 

“Nós somos dos que pensam que o Times e o Post estão a fazer o que é necessário e correcto, e ficamos felizes por serem premiados por isso, com aumentos de audiência e de receita. Mas nunca tínhamos imaginado que, no tempo das nossas vidas (que inclui o Watergate), os dirigentes desta indústria iriam tornar-se jornais de oposição. Mesmo o que era chamado o adversarial journalism dos anos de 1970 nunca se tornou uma marca oficial.” 

O artigo que citamos menciona depois vários estudos recentes que apontam a tendência de uma valorização crescente, por parte de muitos leitores, de jornais com “posições fortes”. Mas permanece um traço de objectividade na “insistência em que os factos devem ser verificados; tendo sido uma posição ética, a objectividade tornou-se um procedimento técnico focado no rigor. Isto reflecte a nossa capacidade, em crescimento rápido, de procurar e verificar a informação ”. (...) 

“Infelizmente, a objectividade para com os factos  - aceitando factos de que mesmo os nossos amigos não gostam, ou expondo factos que era suposto ficarem na sombra -  já não nos dá um aspecto neutral. Vejam a Hungria, onde o apoio de George Soros aos media independentes foi considerado por Viktor Orban como uma arma. Dizer a verdade ao poder faz de nós inimigos públicos, segundo Trump e, na Arábia Saudita, parece ser um crime capital.” (...)


 

“Seja qual for a sua verdade objectiva, os factos não falam por si mesmos. É preciso alguém que lhes dê significado e impacto, e é isso que o nosso público precisa e espera de nós. É também isso que estão a fazer os nossos adversários, com cinismo e com sucesso, dizendo os únicos factos que apoiam as suas ambições.” 

“Não temos de nos tornar como eles para reconhecer que nunca mais voltamos a ser ‘objectivos’, excepto no sentido crucial de procurarmos verdades verificadas. Temos de tornar claro o que defendemos [what we stand for, no original] e de que modo.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra na  Global Investigative Journalism Network

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas