Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Media

Morte e renascimento da objectividade em jornalismo

Também a objectividade já não é o que era dantes. Significava outra coisa, e foi mudando ao longo do tempo. Referimo-nos à objectividade no jornalismo, entendida como uma atitude ética de neutralidade e imparcialidade, mantendo uma distância sem preconceito em relação às fontes, aos objectivos e aos resultados do nosso trabalho. Mas não foi assim que começou.

Segundo Dan Schiller, historiador e docente de Comunicação, a “objectividade” começou por ser a justificação para um jornalismo sensacionalista de crimes, na década de 1840, apoiando depois uma estratégia comercial, “porque um jornal partidário tinha necesssariamente menor audiência do que um que fosse neutro”.

“Mesmo assim, a objectividade só passou a ser um padrão no jornalismo americano quando um tipo de reportagem tendenciosa e corrupta se tornou um escândalo nacional nos anos de 1920.”

É esta a reflexão inicial de um texto sobre “a morte e renascimento da objectividade”, na Global Investigative Journalism Network.

Segundo os autores, Mark Lee Hunter e Luk Van Wassenhove, o próprio termo desapareceu do Código de Ética da SPJ – Society of Professional Journalists, a mais antiga associação da classe, fundada em Abril de 1909, “embora se tenha mantido o ideal de imparcialidade” [fairness, no original]. 

Saltando mais de um século para o nosso tempo, “o conceito tem sido profundamente subvertido, tanto pelas redes da alt-right media que levaram Donald Trump até à Casa Branca, como pelos media cativos, como a Russia Today, como ainda pelos media dirigidos por parte interessada, exemplificados por importantes ONG’s”. 

Estes novos competidores, da esquerda ou da direita, têm traços comuns: 

“Todos floresceram no espaço crescente deixado pelo esvaziamento do jornalismo tradicional [mainstream news media, no original]. Nenhum deles está grandemente preocupado em ser ‘imparcial e equilibrado’ [fair and balanced, no original]  - que era o slogan bizarro da Fox News até 2017 -  muito menos neutral. O que mais lhes interessa é ganharem as guerras que consideram importantes.” 

“Mudança semelhante é agora visível em The New York Times e The Washington Post, que evoluíram no sentido de se tornarem escudos e faróis para a ‘resistência’ americana.” 

“Ao mesmo tempo, o Times apregoa o seu próprio trabalho por meio do slogan  - “Verdade  - é agora mais importante do que nunca.” 

“De facto é, mas, antes de Trump, a proposta de valor era que os jornalistas, em primeiro lugar, procuram acesso a várias fontes, que contam as suas próprias verdades, e depois justapõem estas versões da realidade. Em teoria, isso permite aos leitores chegarem à sua própria verdade.” 

“Nós somos dos que pensam que o Times e o Post estão a fazer o que é necessário e correcto, e ficamos felizes por serem premiados por isso, com aumentos de audiência e de receita. Mas nunca tínhamos imaginado que, no tempo das nossas vidas (que inclui o Watergate), os dirigentes desta indústria iriam tornar-se jornais de oposição. Mesmo o que era chamado o adversarial journalism dos anos de 1970 nunca se tornou uma marca oficial.” 

O artigo que citamos menciona depois vários estudos recentes que apontam a tendência de uma valorização crescente, por parte de muitos leitores, de jornais com “posições fortes”. Mas permanece um traço de objectividade na “insistência em que os factos devem ser verificados; tendo sido uma posição ética, a objectividade tornou-se um procedimento técnico focado no rigor. Isto reflecte a nossa capacidade, em crescimento rápido, de procurar e verificar a informação ”. (...) 

“Infelizmente, a objectividade para com os factos  - aceitando factos de que mesmo os nossos amigos não gostam, ou expondo factos que era suposto ficarem na sombra -  já não nos dá um aspecto neutral. Vejam a Hungria, onde o apoio de George Soros aos media independentes foi considerado por Viktor Orban como uma arma. Dizer a verdade ao poder faz de nós inimigos públicos, segundo Trump e, na Arábia Saudita, parece ser um crime capital.” (...)


 

“Seja qual for a sua verdade objectiva, os factos não falam por si mesmos. É preciso alguém que lhes dê significado e impacto, e é isso que o nosso público precisa e espera de nós. É também isso que estão a fazer os nossos adversários, com cinismo e com sucesso, dizendo os únicos factos que apoiam as suas ambições.” 

“Não temos de nos tornar como eles para reconhecer que nunca mais voltamos a ser ‘objectivos’, excepto no sentido crucial de procurarmos verdades verificadas. Temos de tornar claro o que defendemos [what we stand for, no original] e de que modo.”

 

O artigo aqui citado, na íntegra na  Global Investigative Journalism Network

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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09:00 @ Lagos, Nigéria
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