Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Na guerrilha da informação as nossas defesas são “trincheira inútil”

A III Guerra Mundial, segundo uma famosa profecia de Marshall McLuhan, será “uma guerrilha de informação sem separação entre a participação militar e a civil”  - travada no ciberespaço e não em qualquer campo de batalha concreto. A sua previsão tem eco junto de qualquer pessoa que tente captar “o sentido do nosso opaco ambiente informativo, principalmente repórteres e editores que hoje se descobrem como recrutas convocados para a linha da frente”.

Para os jornalistas, esta “era de guerra de informação” coloca uma ameaça pessoal e existencial. Apresenta também uma quantidade de questões novas sobre o modo como devem mudar as regras e a ética aplicadas ao jornalismo. Voltando a McLuhan:

“Aparelhos eléctricos de informação ao serviço de uma vigilância universal e tirânica, do berço até ao túmulo, estão a provocar um dilema muito sério entre a nossa reivindicação de privacidade e a necessidade de conhecimento pela comunidade.”

A reflexão é da jornalista britânica Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

A autora cita uma variedade de situações em que jornalistas cuja investigação incomoda determinados poderes  - sejam eles políticos, económicos ou de natureza extremista, se tornam alvos de assédio online, muitas vezes com a exposição das identidades de familiares, amigos ou colegas de redacção. 

“Fora dos EUA, exércitos de trolls de governos autoritários atiram-se à Imprensa de oposição, como a fundadora do site Rappler, Maria Ressa, descobriu nas Filipinas quando o Presidente Rodrigo Duterte activou contra ela uma horda no Facebook.

“O que acontece online está a passar, cada vez mais, para o mundo real. Como vimos recentemente com uma quantidade de ataques a tiro, a reciprocidade de relações entre as mensagens online e as acções offline estabelece um novo patamar de perigo e dificuldade para os repórteres.” 

“As redacções [com preocupações] éticas treinam os seus repórteres sobre como estarem seguros, eles e as suas fontes, em ambientes fisicamente hostis. O novo desafio para as redacções é alargar essas práticas ao ciberespaco, à medida que todos se arriscam às consequências que decorrem do seu trabalho, online e offline.” 

“A raiz do problema é bem conhecida, mas as soluções não estão desenvolvidas. Empresas como a Google e o Facebook têm acumulado milhares de milhões de dólares com plataformas que tornam fácil publicar, mas difícil detectar a desinformação.” (...)

Emily Bell descreve a quantidade de lixo digital que tem ocupado espaço nos últimos dois anos e previne que “vem aí mais”:

“A inteligência artificial permite muito mais actividades automáticas que vão reformular as comunicações de um modo ainda mais profundo do que o das redes sociais. Podemos preocupar-nos com as possibilidades dos vídeos deep fake, as representações hiper-realistas de pessoas e lugares geradas instantaneamente para enganarem os nossos sentidos.” (...) 

“Os códigos editoriais e a formação do jornalismo estão a ficar para trás da realidade. O livro The Digital Maginot Line, da especialista em desinformação Renee DiResta, descreve o problema quando as medidas de segurança da informação estão a combater como ‘na guerra anterior’:” 

“Nos Estados Unidos, por exemplo, continuamos focados nas eleições de 2016 e nos seus robots russos. Em consequência, continuamos a investir numa lista de respostas inapropriadas e ineficazes: uma Linha Maginot digital construída numa parte do campo de batalha como dissuasora de uma espécie de tácticas, enquanto as novas tácticas já se estão a manifestar, em tempo real, noutro sítio...” 

A conclusão de Emily Bell é que “instaurar práticas éticas e de segurança que tornem o jornalismo mais do que uma trincheira inútil, nas próximas guerras da informação, será o desafio de uma geração.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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