Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Na guerrilha da informação as nossas defesas são “trincheira inútil”

A III Guerra Mundial, segundo uma famosa profecia de Marshall McLuhan, será “uma guerrilha de informação sem separação entre a participação militar e a civil”  - travada no ciberespaço e não em qualquer campo de batalha concreto. A sua previsão tem eco junto de qualquer pessoa que tente captar “o sentido do nosso opaco ambiente informativo, principalmente repórteres e editores que hoje se descobrem como recrutas convocados para a linha da frente”.

Para os jornalistas, esta “era de guerra de informação” coloca uma ameaça pessoal e existencial. Apresenta também uma quantidade de questões novas sobre o modo como devem mudar as regras e a ética aplicadas ao jornalismo. Voltando a McLuhan:

“Aparelhos eléctricos de informação ao serviço de uma vigilância universal e tirânica, do berço até ao túmulo, estão a provocar um dilema muito sério entre a nossa reivindicação de privacidade e a necessidade de conhecimento pela comunidade.”

A reflexão é da jornalista britânica Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

A autora cita uma variedade de situações em que jornalistas cuja investigação incomoda determinados poderes  - sejam eles políticos, económicos ou de natureza extremista, se tornam alvos de assédio online, muitas vezes com a exposição das identidades de familiares, amigos ou colegas de redacção. 

“Fora dos EUA, exércitos de trolls de governos autoritários atiram-se à Imprensa de oposição, como a fundadora do site Rappler, Maria Ressa, descobriu nas Filipinas quando o Presidente Rodrigo Duterte activou contra ela uma horda no Facebook.

“O que acontece online está a passar, cada vez mais, para o mundo real. Como vimos recentemente com uma quantidade de ataques a tiro, a reciprocidade de relações entre as mensagens online e as acções offline estabelece um novo patamar de perigo e dificuldade para os repórteres.” 

“As redacções [com preocupações] éticas treinam os seus repórteres sobre como estarem seguros, eles e as suas fontes, em ambientes fisicamente hostis. O novo desafio para as redacções é alargar essas práticas ao ciberespaco, à medida que todos se arriscam às consequências que decorrem do seu trabalho, online e offline.” 

“A raiz do problema é bem conhecida, mas as soluções não estão desenvolvidas. Empresas como a Google e o Facebook têm acumulado milhares de milhões de dólares com plataformas que tornam fácil publicar, mas difícil detectar a desinformação.” (...)

Emily Bell descreve a quantidade de lixo digital que tem ocupado espaço nos últimos dois anos e previne que “vem aí mais”:

“A inteligência artificial permite muito mais actividades automáticas que vão reformular as comunicações de um modo ainda mais profundo do que o das redes sociais. Podemos preocupar-nos com as possibilidades dos vídeos deep fake, as representações hiper-realistas de pessoas e lugares geradas instantaneamente para enganarem os nossos sentidos.” (...) 

“Os códigos editoriais e a formação do jornalismo estão a ficar para trás da realidade. O livro The Digital Maginot Line, da especialista em desinformação Renee DiResta, descreve o problema quando as medidas de segurança da informação estão a combater como ‘na guerra anterior’:” 

“Nos Estados Unidos, por exemplo, continuamos focados nas eleições de 2016 e nos seus robots russos. Em consequência, continuamos a investir numa lista de respostas inapropriadas e ineficazes: uma Linha Maginot digital construída numa parte do campo de batalha como dissuasora de uma espécie de tácticas, enquanto as novas tácticas já se estão a manifestar, em tempo real, noutro sítio...” 

A conclusão de Emily Bell é que “instaurar práticas éticas e de segurança que tornem o jornalismo mais do que uma trincheira inútil, nas próximas guerras da informação, será o desafio de uma geração.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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