Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Media

Na guerrilha da informação as nossas defesas são “trincheira inútil”

A III Guerra Mundial, segundo uma famosa profecia de Marshall McLuhan, será “uma guerrilha de informação sem separação entre a participação militar e a civil”  - travada no ciberespaço e não em qualquer campo de batalha concreto. A sua previsão tem eco junto de qualquer pessoa que tente captar “o sentido do nosso opaco ambiente informativo, principalmente repórteres e editores que hoje se descobrem como recrutas convocados para a linha da frente”.

Para os jornalistas, esta “era de guerra de informação” coloca uma ameaça pessoal e existencial. Apresenta também uma quantidade de questões novas sobre o modo como devem mudar as regras e a ética aplicadas ao jornalismo. Voltando a McLuhan:

“Aparelhos eléctricos de informação ao serviço de uma vigilância universal e tirânica, do berço até ao túmulo, estão a provocar um dilema muito sério entre a nossa reivindicação de privacidade e a necessidade de conhecimento pela comunidade.”

A reflexão é da jornalista britânica Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

A autora cita uma variedade de situações em que jornalistas cuja investigação incomoda determinados poderes  - sejam eles políticos, económicos ou de natureza extremista, se tornam alvos de assédio online, muitas vezes com a exposição das identidades de familiares, amigos ou colegas de redacção. 

“Fora dos EUA, exércitos de trolls de governos autoritários atiram-se à Imprensa de oposição, como a fundadora do site Rappler, Maria Ressa, descobriu nas Filipinas quando o Presidente Rodrigo Duterte activou contra ela uma horda no Facebook.

“O que acontece online está a passar, cada vez mais, para o mundo real. Como vimos recentemente com uma quantidade de ataques a tiro, a reciprocidade de relações entre as mensagens online e as acções offline estabelece um novo patamar de perigo e dificuldade para os repórteres.” 

“As redacções [com preocupações] éticas treinam os seus repórteres sobre como estarem seguros, eles e as suas fontes, em ambientes fisicamente hostis. O novo desafio para as redacções é alargar essas práticas ao ciberespaco, à medida que todos se arriscam às consequências que decorrem do seu trabalho, online e offline.” 

“A raiz do problema é bem conhecida, mas as soluções não estão desenvolvidas. Empresas como a Google e o Facebook têm acumulado milhares de milhões de dólares com plataformas que tornam fácil publicar, mas difícil detectar a desinformação.” (...)

Emily Bell descreve a quantidade de lixo digital que tem ocupado espaço nos últimos dois anos e previne que “vem aí mais”:

“A inteligência artificial permite muito mais actividades automáticas que vão reformular as comunicações de um modo ainda mais profundo do que o das redes sociais. Podemos preocupar-nos com as possibilidades dos vídeos deep fake, as representações hiper-realistas de pessoas e lugares geradas instantaneamente para enganarem os nossos sentidos.” (...) 

“Os códigos editoriais e a formação do jornalismo estão a ficar para trás da realidade. O livro The Digital Maginot Line, da especialista em desinformação Renee DiResta, descreve o problema quando as medidas de segurança da informação estão a combater como ‘na guerra anterior’:” 

“Nos Estados Unidos, por exemplo, continuamos focados nas eleições de 2016 e nos seus robots russos. Em consequência, continuamos a investir numa lista de respostas inapropriadas e ineficazes: uma Linha Maginot digital construída numa parte do campo de batalha como dissuasora de uma espécie de tácticas, enquanto as novas tácticas já se estão a manifestar, em tempo real, noutro sítio...” 

A conclusão de Emily Bell é que “instaurar práticas éticas e de segurança que tornem o jornalismo mais do que uma trincheira inútil, nas próximas guerras da informação, será o desafio de uma geração.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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