Sábado, 30 de Maio, 2020
Media

Na guerrilha da informação as nossas defesas são “trincheira inútil”

A III Guerra Mundial, segundo uma famosa profecia de Marshall McLuhan, será “uma guerrilha de informação sem separação entre a participação militar e a civil”  - travada no ciberespaço e não em qualquer campo de batalha concreto. A sua previsão tem eco junto de qualquer pessoa que tente captar “o sentido do nosso opaco ambiente informativo, principalmente repórteres e editores que hoje se descobrem como recrutas convocados para a linha da frente”.

Para os jornalistas, esta “era de guerra de informação” coloca uma ameaça pessoal e existencial. Apresenta também uma quantidade de questões novas sobre o modo como devem mudar as regras e a ética aplicadas ao jornalismo. Voltando a McLuhan:

“Aparelhos eléctricos de informação ao serviço de uma vigilância universal e tirânica, do berço até ao túmulo, estão a provocar um dilema muito sério entre a nossa reivindicação de privacidade e a necessidade de conhecimento pela comunidade.”

A reflexão é da jornalista britânica Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

A autora cita uma variedade de situações em que jornalistas cuja investigação incomoda determinados poderes  - sejam eles políticos, económicos ou de natureza extremista, se tornam alvos de assédio online, muitas vezes com a exposição das identidades de familiares, amigos ou colegas de redacção. 

“Fora dos EUA, exércitos de trolls de governos autoritários atiram-se à Imprensa de oposição, como a fundadora do site Rappler, Maria Ressa, descobriu nas Filipinas quando o Presidente Rodrigo Duterte activou contra ela uma horda no Facebook.

“O que acontece online está a passar, cada vez mais, para o mundo real. Como vimos recentemente com uma quantidade de ataques a tiro, a reciprocidade de relações entre as mensagens online e as acções offline estabelece um novo patamar de perigo e dificuldade para os repórteres.” 

“As redacções [com preocupações] éticas treinam os seus repórteres sobre como estarem seguros, eles e as suas fontes, em ambientes fisicamente hostis. O novo desafio para as redacções é alargar essas práticas ao ciberespaco, à medida que todos se arriscam às consequências que decorrem do seu trabalho, online e offline.” 

“A raiz do problema é bem conhecida, mas as soluções não estão desenvolvidas. Empresas como a Google e o Facebook têm acumulado milhares de milhões de dólares com plataformas que tornam fácil publicar, mas difícil detectar a desinformação.” (...)

Emily Bell descreve a quantidade de lixo digital que tem ocupado espaço nos últimos dois anos e previne que “vem aí mais”:

“A inteligência artificial permite muito mais actividades automáticas que vão reformular as comunicações de um modo ainda mais profundo do que o das redes sociais. Podemos preocupar-nos com as possibilidades dos vídeos deep fake, as representações hiper-realistas de pessoas e lugares geradas instantaneamente para enganarem os nossos sentidos.” (...) 

“Os códigos editoriais e a formação do jornalismo estão a ficar para trás da realidade. O livro The Digital Maginot Line, da especialista em desinformação Renee DiResta, descreve o problema quando as medidas de segurança da informação estão a combater como ‘na guerra anterior’:” 

“Nos Estados Unidos, por exemplo, continuamos focados nas eleições de 2016 e nos seus robots russos. Em consequência, continuamos a investir numa lista de respostas inapropriadas e ineficazes: uma Linha Maginot digital construída numa parte do campo de batalha como dissuasora de uma espécie de tácticas, enquanto as novas tácticas já se estão a manifestar, em tempo real, noutro sítio...” 

A conclusão de Emily Bell é que “instaurar práticas éticas e de segurança que tornem o jornalismo mais do que uma trincheira inútil, nas próximas guerras da informação, será o desafio de uma geração.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra na Columbia Journalism Review

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas