Sábado, 18 de Janeiro, 2020
Media

Imprensa regional americana em declínio acelerado do papel

Depois do que passaram com a crise financeira de há dez anos, os jornais dos Estados Unidos entraram na corrida ao digital, na esperança de escaparem ao declínio acelerado do papel. Mas o que aconteceu foi uma divisão nítida entre meia dúzia de grandes diários de expansão nacional, que conseguiram estabilizar o seu negócio, e os pequenos jornais de província, que continuam em queda.

Os jornais locais tiveram quebras de circulação mais abruptas do que os nacionais, e sofreram mais com a invasão do seu território publicitário por parte das grandes plataformas Google e Facebook.

A consequência é que este definhamento da paisagem do jornalismo local está a deixar milhões de americanos com menos informação sobre o que se passa à sua porta. As suas empresas não sobrevivem por mais cortes de pessoal que façam. Há muitas áreas rurais que estão a transformar-se em “desertos de notícias”  - uma expressão que já tem estudos publicados.

É esta a avaliação sombria de um trabalho recente publicado por The Wall Street Journal  - um dos tais poucos felizes sobreviventes.

Fecharam quase 1.800 jornais nos EUA, entre 2004 e 2018, deixando duas centenas de condados sem jornal, e metade dos condados de todo o país com apenas um  - segundo um estudo da Universidade da Carolina do Norte. 

Entretanto, nasceram cerca de 400 media exclusivamente digitais, a tentarem ocupar esse vazio, “desproporcionadamente concentrado nas grandes cidades e regiões mais abastadas”. Mas o trabalho de The Wall Street Journal  confirma que é muito difícil “converter os leitores em utentes contribuintes no digital”. 

Pior do que isso, um estudo recente do Pew Research Center  revela que 71% dos cidadãos americanos acreditavam que os jornais locais estavam de boa saúde financeira, embora só 14% pagassem para os sustentar... 

De quase 300 jornais avaliados pela AAM  - Alliance for Audited Media, sobre os quais há dados acessíveis, a circulação caíu em quase todos eles, entre 2012 e 2018, escapando uma meia dúzia. 

Mas a gravidade destas quedas é muito desigual: nos três grandes jornais de expansão nacional referidos, The Wall Street Journal, The New York Times e The Washington Post, a circulação caíu, em média, 29%. 

Por contraste, essa média, entre os jornais regionais de boa dimensão, com tiragens de mais de 200 mil exemplares, como o Houston Chronicle ou o Chicago Tribune, foi de 41% no mesmo período; e chega aos 45% nos que ficam antre os 100 mil e os 200 mil exemplares, como o Oregonian ou o Dallas Morning News

Os jornais que apostaram na publicidade digital como tábua de salvação descobriram depressa que o retorno foi muito inferior ao que perderam na que tinham no papel. 

“Poucas pessoas nesta indústria perceberam até que ponto Google e Facebook iam tornar-se poderosos na publicidade online. (...) Enquanto sugavam as receitas da publicidade de todos os editores, os da Imprensa local foram os mais atingidos. As gigantes tecnológicas absorveram 77% da publicidade digital no jornalismo local, comparados com os 58% a nível nacional, segundo dados da Borrell Associates e do eMarketer.”  (...) 

Alan Fisco, presidente do Seattle Times, pôs as coisas deste modo claro: 

“Quando olhamos para o que se desenvolveu, e a quantidade de receita que vai para as Googles e os Facebooks deste mundo, o que nós apanhamos são as migalhas da mesa.” 

E Terry Kroeger, que foi editor do Omaha World-Herald, defende que uma solução seria a de permitir que os editores tivessem capacidade legal de negociação colectiva com as plataformas tecnológicas. Uma proposta deste tipo não conseguiu ir longe, no anterior Congresso, mas os Democratas têm esperança em que a última versão, que é co-apoiada por um Republicano, adquira força neste órgão, agora controlado pelos Democratas. 

O texto que citamos, em The Wall Street Journal, faz as contas dos que conseguiram ganhar a corrida às assinaturas digitais: 

The New York Times, com 3,4 milhões, e uma redacção de 1.550 jornalistas, a maior na sua história;  o próprio Wall Street Journal, com 1,7 milhões e uma redacção de quase 1.300;  e The Washington Post, com 1.5 milhões. 

The Dallas Morning News tornou-se em 2011 o primeiro grande jornal regional americano a levar os seus leitores a pagar pela edição online. Relançou a sua paywall em 2016 e conta agora com 30 mil asinantes digitais, mas isso constituiu apenas 5,6% da receita de circulação total em 2018. Nos últimos 15 meses, já cortou mais de 170 postos de trabalho, e um grande investidor está a pressionar a empresa sobre uma possível venda. 

O Minneapolis Star Tribune chegou aos 60 mil assinantes digitais e consegue uma receita anual de 200 milhões de dólares, que lhe permitiu manter uma redacção de cerca de 250 jornalistas durante a maior parte desta década. Mas o editor admite que precisa de ultrapassar os 150 mil assinantes digitais para se tornar sustentável a longo prazo. 

The Boston Globe é um caso atípico, com os seus 111 mil assinantes digitais pagando o preço robusto de um dólar por dia, que lhe permitem manter uma redacção de 200 jornalistas só pelas receitas desta via. 

Segue-se uma lista dos que não conseguem, estando no limite da sobrevivência, e os números da estatística do desemprego causado pelo fecho de jornais, que perderam 60% de 465 mil trabalhadores entre 1990 e 2016, caindo para os 183 mil. Mas, para muitos jornais, nem mesmo os despedimentos os podem salvar. Há grandes áreas do interior rural que se tornaram “desertos de notícias”.  (...) 


O texto aqui citado, na íntegra em The Wall Street Journal, sujeito a assinatura

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral
O Presidente da República voltou a falar na necessidade de o Estado tomar medidas de apoio à comunicação social. Marcelo Rebelo de Sousa discursava na apresentação de um programa do “Público” para dar a estudantes universitários acesso gratuito a assinaturas daquele jornal, com o apoio de entidades privadas que pagam metade dos custos envolvidos. O Presidente entende, e bem, que o Estado tem responsabilidades neste campo e...
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