Quarta-feira, 8 de Abril, 2020
Media

Imprensa regional americana em declínio acelerado do papel

Depois do que passaram com a crise financeira de há dez anos, os jornais dos Estados Unidos entraram na corrida ao digital, na esperança de escaparem ao declínio acelerado do papel. Mas o que aconteceu foi uma divisão nítida entre meia dúzia de grandes diários de expansão nacional, que conseguiram estabilizar o seu negócio, e os pequenos jornais de província, que continuam em queda.

Os jornais locais tiveram quebras de circulação mais abruptas do que os nacionais, e sofreram mais com a invasão do seu território publicitário por parte das grandes plataformas Google e Facebook.

A consequência é que este definhamento da paisagem do jornalismo local está a deixar milhões de americanos com menos informação sobre o que se passa à sua porta. As suas empresas não sobrevivem por mais cortes de pessoal que façam. Há muitas áreas rurais que estão a transformar-se em “desertos de notícias”  - uma expressão que já tem estudos publicados.

É esta a avaliação sombria de um trabalho recente publicado por The Wall Street Journal  - um dos tais poucos felizes sobreviventes.

Fecharam quase 1.800 jornais nos EUA, entre 2004 e 2018, deixando duas centenas de condados sem jornal, e metade dos condados de todo o país com apenas um  - segundo um estudo da Universidade da Carolina do Norte. 

Entretanto, nasceram cerca de 400 media exclusivamente digitais, a tentarem ocupar esse vazio, “desproporcionadamente concentrado nas grandes cidades e regiões mais abastadas”. Mas o trabalho de The Wall Street Journal  confirma que é muito difícil “converter os leitores em utentes contribuintes no digital”. 

Pior do que isso, um estudo recente do Pew Research Center  revela que 71% dos cidadãos americanos acreditavam que os jornais locais estavam de boa saúde financeira, embora só 14% pagassem para os sustentar... 

De quase 300 jornais avaliados pela AAM  - Alliance for Audited Media, sobre os quais há dados acessíveis, a circulação caíu em quase todos eles, entre 2012 e 2018, escapando uma meia dúzia. 

Mas a gravidade destas quedas é muito desigual: nos três grandes jornais de expansão nacional referidos, The Wall Street Journal, The New York Times e The Washington Post, a circulação caíu, em média, 29%. 

Por contraste, essa média, entre os jornais regionais de boa dimensão, com tiragens de mais de 200 mil exemplares, como o Houston Chronicle ou o Chicago Tribune, foi de 41% no mesmo período; e chega aos 45% nos que ficam antre os 100 mil e os 200 mil exemplares, como o Oregonian ou o Dallas Morning News

Os jornais que apostaram na publicidade digital como tábua de salvação descobriram depressa que o retorno foi muito inferior ao que perderam na que tinham no papel. 

“Poucas pessoas nesta indústria perceberam até que ponto Google e Facebook iam tornar-se poderosos na publicidade online. (...) Enquanto sugavam as receitas da publicidade de todos os editores, os da Imprensa local foram os mais atingidos. As gigantes tecnológicas absorveram 77% da publicidade digital no jornalismo local, comparados com os 58% a nível nacional, segundo dados da Borrell Associates e do eMarketer.”  (...) 

Alan Fisco, presidente do Seattle Times, pôs as coisas deste modo claro: 

“Quando olhamos para o que se desenvolveu, e a quantidade de receita que vai para as Googles e os Facebooks deste mundo, o que nós apanhamos são as migalhas da mesa.” 

E Terry Kroeger, que foi editor do Omaha World-Herald, defende que uma solução seria a de permitir que os editores tivessem capacidade legal de negociação colectiva com as plataformas tecnológicas. Uma proposta deste tipo não conseguiu ir longe, no anterior Congresso, mas os Democratas têm esperança em que a última versão, que é co-apoiada por um Republicano, adquira força neste órgão, agora controlado pelos Democratas. 

O texto que citamos, em The Wall Street Journal, faz as contas dos que conseguiram ganhar a corrida às assinaturas digitais: 

The New York Times, com 3,4 milhões, e uma redacção de 1.550 jornalistas, a maior na sua história;  o próprio Wall Street Journal, com 1,7 milhões e uma redacção de quase 1.300;  e The Washington Post, com 1.5 milhões. 

The Dallas Morning News tornou-se em 2011 o primeiro grande jornal regional americano a levar os seus leitores a pagar pela edição online. Relançou a sua paywall em 2016 e conta agora com 30 mil asinantes digitais, mas isso constituiu apenas 5,6% da receita de circulação total em 2018. Nos últimos 15 meses, já cortou mais de 170 postos de trabalho, e um grande investidor está a pressionar a empresa sobre uma possível venda. 

O Minneapolis Star Tribune chegou aos 60 mil assinantes digitais e consegue uma receita anual de 200 milhões de dólares, que lhe permitiu manter uma redacção de cerca de 250 jornalistas durante a maior parte desta década. Mas o editor admite que precisa de ultrapassar os 150 mil assinantes digitais para se tornar sustentável a longo prazo. 

The Boston Globe é um caso atípico, com os seus 111 mil assinantes digitais pagando o preço robusto de um dólar por dia, que lhe permitem manter uma redacção de 200 jornalistas só pelas receitas desta via. 

Segue-se uma lista dos que não conseguem, estando no limite da sobrevivência, e os números da estatística do desemprego causado pelo fecho de jornais, que perderam 60% de 465 mil trabalhadores entre 1990 e 2016, caindo para os 183 mil. Mas, para muitos jornais, nem mesmo os despedimentos os podem salvar. Há grandes áreas do interior rural que se tornaram “desertos de notícias”.  (...) 


O texto aqui citado, na íntegra em The Wall Street Journal, sujeito a assinatura

Connosco
O essencial em jornalismo em tempo de pandemia Ver galeria

A imprensa, em todo o mundo,  está a adaptar-se à nova realidade, desencadeada pela pandemia do coronavírus, e a trabalhar, maioritariamente, por via remota.


Os jornalistas parecem querer zelar pela saúde dos leitores e, nos “media” os avisos e as advertências repetem-se: ficar em casa para conter a disseminação do vírus, evitar aglomerados de pessoas, sair só em caso de emergência, ou para adquirir bens essenciais.

Ainda assim, alguns profissionais, nos Estados Unidos parecem não seguir a conduta que promovem, realizando reportagens no exterior e expondo-se à contaminação do vírus,  destaca Alexandria Nelson, num artigo publicado no “Columbia Journalism Review”

De acordo com a autora, os repórteres estão a pôr em causa a saúde pública,  deslocando-se, por exemplo, a praias para dar conta de cidadãos que não estão a cumprir as normas de isolamento. Os jornalistas querem, assim, distinguir-se dos restantes concidadãos. 

Moncloa recua e levanta restrições aos jornalistas Ver galeria

A Moncloa vai deixar de  “amordaçar” a imprensa. Depois da pressão exercida pelos “media”, o governo espanhol vai permitir que os jornalistas façam perguntas, por videochamada, durante as conferências de imprensa do primeiro-ministro Pedro Sánchez.

A decisão surge na sequência de uma denúncia conjunta de centenas jornalistas espanhóis, que se opuseram ao “modus operandi” das conferências de imprensa, controladas pelo Secretário de Estado da Comunicação, Miguel Angel Oliver.

Depois de a polémica se ter arrastado ao longo de várias semanas Oliver enviou, finalmente, uma nota às redações para informar que “a metodologia utilizada nas conferências de imprensa irá mudar”. 

O Governo garante, agora, que vai implementar um sistema seguro de videoconferência que terá rondas de perguntas. A selecção das questões será concretizada por um “mecanismo aleatório, público e verificável”.

O Clube


A pandemia provocada pelo coronavírus está a provocar um natural alarme em todo o mundo e a obrigar a comunidade internacional a adoptar planos de contingência,  inéditos em tempo de paz, designadamente, obrigando a quarentenas e a restrições, cada vez mais gravosas, para tentar controlar o contágio. 

A par da Saúde e do dispositivo de segurança, são os “media” que estão na primeira linha para informar e esclarecer as populações, alguns já com as suas redacções a trabalhar em regime de teletrabalho.   

Este “site” do Clube Português de Imprensa , também em teletrabalho, procurará manter as suas actualizações regulares, para que os nossos Associados e visitantes em geral disponham de mais  uma fonte de consulta confiável, acompanhando o que se passa  com os “media”, em diferentes pontos do globo, e em comunhão estreita perante uma crise de Saúde com contornos singulares.

O jornalismo e os jornalistas têm especiais responsabilidades,  bem como   as associações do sector. Se os transportes, a Banca, e o abastecimento de farmácias e de bens essenciais são vitais  para assegurar o funcionamento do  País,  com a maior parte das portas fechadas, a informação atempada e rigorosa não o é menos.  

Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.  

 


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Opinião
O Presidente do Governo espanhol deixou cair a mordaça que tinha imposto aos jornalistas nas videoconferências por causa do coronavírus.  A oposição de centenas de profissionais - que não se curvaram e souberam unir-se contra a censura dissimulada que estava a ser seguida pelo secretário de estado da Comunicação Social, ao filtrar as perguntas que mais convinham ao governo -, bem como a posição firme tomada...
O paradoxo mediático
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15
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Jornalismo Empreendedor
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Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun