null, 17 de Novembro, 2019
Media

Imprensa regional americana em declínio acelerado do papel

Depois do que passaram com a crise financeira de há dez anos, os jornais dos Estados Unidos entraram na corrida ao digital, na esperança de escaparem ao declínio acelerado do papel. Mas o que aconteceu foi uma divisão nítida entre meia dúzia de grandes diários de expansão nacional, que conseguiram estabilizar o seu negócio, e os pequenos jornais de província, que continuam em queda.

Os jornais locais tiveram quebras de circulação mais abruptas do que os nacionais, e sofreram mais com a invasão do seu território publicitário por parte das grandes plataformas Google e Facebook.

A consequência é que este definhamento da paisagem do jornalismo local está a deixar milhões de americanos com menos informação sobre o que se passa à sua porta. As suas empresas não sobrevivem por mais cortes de pessoal que façam. Há muitas áreas rurais que estão a transformar-se em “desertos de notícias”  - uma expressão que já tem estudos publicados.

É esta a avaliação sombria de um trabalho recente publicado por The Wall Street Journal  - um dos tais poucos felizes sobreviventes.

Fecharam quase 1.800 jornais nos EUA, entre 2004 e 2018, deixando duas centenas de condados sem jornal, e metade dos condados de todo o país com apenas um  - segundo um estudo da Universidade da Carolina do Norte. 

Entretanto, nasceram cerca de 400 media exclusivamente digitais, a tentarem ocupar esse vazio, “desproporcionadamente concentrado nas grandes cidades e regiões mais abastadas”. Mas o trabalho de The Wall Street Journal  confirma que é muito difícil “converter os leitores em utentes contribuintes no digital”. 

Pior do que isso, um estudo recente do Pew Research Center  revela que 71% dos cidadãos americanos acreditavam que os jornais locais estavam de boa saúde financeira, embora só 14% pagassem para os sustentar... 

De quase 300 jornais avaliados pela AAM  - Alliance for Audited Media, sobre os quais há dados acessíveis, a circulação caíu em quase todos eles, entre 2012 e 2018, escapando uma meia dúzia. 

Mas a gravidade destas quedas é muito desigual: nos três grandes jornais de expansão nacional referidos, The Wall Street Journal, The New York Times e The Washington Post, a circulação caíu, em média, 29%. 

Por contraste, essa média, entre os jornais regionais de boa dimensão, com tiragens de mais de 200 mil exemplares, como o Houston Chronicle ou o Chicago Tribune, foi de 41% no mesmo período; e chega aos 45% nos que ficam antre os 100 mil e os 200 mil exemplares, como o Oregonian ou o Dallas Morning News

Os jornais que apostaram na publicidade digital como tábua de salvação descobriram depressa que o retorno foi muito inferior ao que perderam na que tinham no papel. 

“Poucas pessoas nesta indústria perceberam até que ponto Google e Facebook iam tornar-se poderosos na publicidade online. (...) Enquanto sugavam as receitas da publicidade de todos os editores, os da Imprensa local foram os mais atingidos. As gigantes tecnológicas absorveram 77% da publicidade digital no jornalismo local, comparados com os 58% a nível nacional, segundo dados da Borrell Associates e do eMarketer.”  (...) 

Alan Fisco, presidente do Seattle Times, pôs as coisas deste modo claro: 

“Quando olhamos para o que se desenvolveu, e a quantidade de receita que vai para as Googles e os Facebooks deste mundo, o que nós apanhamos são as migalhas da mesa.” 

E Terry Kroeger, que foi editor do Omaha World-Herald, defende que uma solução seria a de permitir que os editores tivessem capacidade legal de negociação colectiva com as plataformas tecnológicas. Uma proposta deste tipo não conseguiu ir longe, no anterior Congresso, mas os Democratas têm esperança em que a última versão, que é co-apoiada por um Republicano, adquira força neste órgão, agora controlado pelos Democratas. 

O texto que citamos, em The Wall Street Journal, faz as contas dos que conseguiram ganhar a corrida às assinaturas digitais: 

The New York Times, com 3,4 milhões, e uma redacção de 1.550 jornalistas, a maior na sua história;  o próprio Wall Street Journal, com 1,7 milhões e uma redacção de quase 1.300;  e The Washington Post, com 1.5 milhões. 

The Dallas Morning News tornou-se em 2011 o primeiro grande jornal regional americano a levar os seus leitores a pagar pela edição online. Relançou a sua paywall em 2016 e conta agora com 30 mil asinantes digitais, mas isso constituiu apenas 5,6% da receita de circulação total em 2018. Nos últimos 15 meses, já cortou mais de 170 postos de trabalho, e um grande investidor está a pressionar a empresa sobre uma possível venda. 

O Minneapolis Star Tribune chegou aos 60 mil assinantes digitais e consegue uma receita anual de 200 milhões de dólares, que lhe permitiu manter uma redacção de cerca de 250 jornalistas durante a maior parte desta década. Mas o editor admite que precisa de ultrapassar os 150 mil assinantes digitais para se tornar sustentável a longo prazo. 

The Boston Globe é um caso atípico, com os seus 111 mil assinantes digitais pagando o preço robusto de um dólar por dia, que lhe permitem manter uma redacção de 200 jornalistas só pelas receitas desta via. 

Segue-se uma lista dos que não conseguem, estando no limite da sobrevivência, e os números da estatística do desemprego causado pelo fecho de jornais, que perderam 60% de 465 mil trabalhadores entre 1990 e 2016, caindo para os 183 mil. Mas, para muitos jornais, nem mesmo os despedimentos os podem salvar. Há grandes áreas do interior rural que se tornaram “desertos de notícias”.  (...) 


O texto aqui citado, na íntegra em The Wall Street Journal, sujeito a assinatura

Connosco
Centro Báltico ensaia novos modelos para o jornalismo investigativo Ver galeria

Um dos principais actores no campo do jornalismo colaborativo no Báltico é o Re:Baltica – Centro Báltico para a Investigação do Jornalismo de Investigação. O projecto está sediado na capital da Letónia, Riga, e foi criado há oito anos, introduzindo duas ideias inovadoras para a prática do jornalismo na região.

O Centro realiza pesquisas e cria uma história e, posteriormente, fornece-a, a título gratuito, aos meios de comunicação. Em segundo lugar, adoptou um novo modelo de negócio, que depende principalmente de doações e concessões.

O Observatório Europeu de Jornalismo falou recentemente com Inga Springe, questionando-a sobre o trabalho quotidiano de uma organização de comunicação social, sem fins lucrativos, e os desafios que actualmente enfrenta.

Springe defende que que o problema não é o das pessoas lerem o jornal "certo" ou "errado". O problema é não lerem os media tradicionais. Esse foi o motivo que a levou a impulsionar com o projecto Re:Baltica Light e várias reportagens sob a rubrica #StarpCitu (#ByTheWay), disponíveis no YouTube e no Facebook.

Um artigo sobre a organização foi publicado, pela primeira vez, no site do Observatório Europeu de Jornalismo e reproduzido no site da GIJN, do qual a Re:Baltica é membro.

O “LeKiosk” muda para “Cafeyn” e alarga oferta a assinantes Ver galeria

O serviço de notícias LeKiosk mudou de nome para Cafeyn e passou a apresentar-se como um serviço de streaming de informações. O quiosque digital permite a consulta de mais de mil títulos de imprensa francesa e internacional por 9,99 euros por mês.

A mudança de nome e de visual têm como objectivo atrair um público mais numeroso e fazer frente à Apple News+.

De salientar que a alteração da designação é, também, explicada por uma batalha jurídica, iniciada em 2012, entre LeKiosk Monkiosque.fr, publicada pelo Grupo Toutabo.

O departamento de propriedade intelectual da União Europeia decidiu, em Março, que havia um risco de confusão para o público, e que a Toutabo tinha registado a sua marca antes da LeKiosk.

Cafeyn tem, atualmente, cerca de um milhão de utilizadores activos por mês, em comparação com os 200 mil em 2017, que lêem uma média de 15 revistas diferentes. A maior parte destes assinantes foram obtidos através de operadores de telecomunicações, como a Bouygues Telecom e a Free, que oferecem o acesso a alguns dos seus clientes.

Isto permitiu à empresa aumentar o seu volume de negócios, que quintuplicou em três anos.

Em breve deverão ser anunciadas parcerias internacionais.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


ver mais >
Opinião
A “tabloidizacão” dos media portugueses parece imparável, com as televisões na dianteira, privadas e pública, sejam os canais generalistas ou temáticos. A obsessão pelos “casos” que puxem ao drama, ao pasmo ou à lágrima, tomou conta dos telejornais e da Imprensa. A frenética disputa das audiências nas TVs e a queda continuada das vendas nos jornais são, normalmente, apontadas...
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
Agenda
19
Nov
Connections Europe
09:00 @ Marriott Hotel, Amsterdão
19
Nov
19
Nov
Dia da Comunicação
10:00 @ Teatro Tivoli
21
Nov