Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Media

Imprensa regional americana em declínio acelerado do papel

Depois do que passaram com a crise financeira de há dez anos, os jornais dos Estados Unidos entraram na corrida ao digital, na esperança de escaparem ao declínio acelerado do papel. Mas o que aconteceu foi uma divisão nítida entre meia dúzia de grandes diários de expansão nacional, que conseguiram estabilizar o seu negócio, e os pequenos jornais de província, que continuam em queda.

Os jornais locais tiveram quebras de circulação mais abruptas do que os nacionais, e sofreram mais com a invasão do seu território publicitário por parte das grandes plataformas Google e Facebook.

A consequência é que este definhamento da paisagem do jornalismo local está a deixar milhões de americanos com menos informação sobre o que se passa à sua porta. As suas empresas não sobrevivem por mais cortes de pessoal que façam. Há muitas áreas rurais que estão a transformar-se em “desertos de notícias”  - uma expressão que já tem estudos publicados.

É esta a avaliação sombria de um trabalho recente publicado por The Wall Street Journal  - um dos tais poucos felizes sobreviventes.

Fecharam quase 1.800 jornais nos EUA, entre 2004 e 2018, deixando duas centenas de condados sem jornal, e metade dos condados de todo o país com apenas um  - segundo um estudo da Universidade da Carolina do Norte. 

Entretanto, nasceram cerca de 400 media exclusivamente digitais, a tentarem ocupar esse vazio, “desproporcionadamente concentrado nas grandes cidades e regiões mais abastadas”. Mas o trabalho de The Wall Street Journal  confirma que é muito difícil “converter os leitores em utentes contribuintes no digital”. 

Pior do que isso, um estudo recente do Pew Research Center  revela que 71% dos cidadãos americanos acreditavam que os jornais locais estavam de boa saúde financeira, embora só 14% pagassem para os sustentar... 

De quase 300 jornais avaliados pela AAM  - Alliance for Audited Media, sobre os quais há dados acessíveis, a circulação caíu em quase todos eles, entre 2012 e 2018, escapando uma meia dúzia. 

Mas a gravidade destas quedas é muito desigual: nos três grandes jornais de expansão nacional referidos, The Wall Street Journal, The New York Times e The Washington Post, a circulação caíu, em média, 29%. 

Por contraste, essa média, entre os jornais regionais de boa dimensão, com tiragens de mais de 200 mil exemplares, como o Houston Chronicle ou o Chicago Tribune, foi de 41% no mesmo período; e chega aos 45% nos que ficam antre os 100 mil e os 200 mil exemplares, como o Oregonian ou o Dallas Morning News

Os jornais que apostaram na publicidade digital como tábua de salvação descobriram depressa que o retorno foi muito inferior ao que perderam na que tinham no papel. 

“Poucas pessoas nesta indústria perceberam até que ponto Google e Facebook iam tornar-se poderosos na publicidade online. (...) Enquanto sugavam as receitas da publicidade de todos os editores, os da Imprensa local foram os mais atingidos. As gigantes tecnológicas absorveram 77% da publicidade digital no jornalismo local, comparados com os 58% a nível nacional, segundo dados da Borrell Associates e do eMarketer.”  (...) 

Alan Fisco, presidente do Seattle Times, pôs as coisas deste modo claro: 

“Quando olhamos para o que se desenvolveu, e a quantidade de receita que vai para as Googles e os Facebooks deste mundo, o que nós apanhamos são as migalhas da mesa.” 

E Terry Kroeger, que foi editor do Omaha World-Herald, defende que uma solução seria a de permitir que os editores tivessem capacidade legal de negociação colectiva com as plataformas tecnológicas. Uma proposta deste tipo não conseguiu ir longe, no anterior Congresso, mas os Democratas têm esperança em que a última versão, que é co-apoiada por um Republicano, adquira força neste órgão, agora controlado pelos Democratas. 

O texto que citamos, em The Wall Street Journal, faz as contas dos que conseguiram ganhar a corrida às assinaturas digitais: 

The New York Times, com 3,4 milhões, e uma redacção de 1.550 jornalistas, a maior na sua história;  o próprio Wall Street Journal, com 1,7 milhões e uma redacção de quase 1.300;  e The Washington Post, com 1.5 milhões. 

The Dallas Morning News tornou-se em 2011 o primeiro grande jornal regional americano a levar os seus leitores a pagar pela edição online. Relançou a sua paywall em 2016 e conta agora com 30 mil asinantes digitais, mas isso constituiu apenas 5,6% da receita de circulação total em 2018. Nos últimos 15 meses, já cortou mais de 170 postos de trabalho, e um grande investidor está a pressionar a empresa sobre uma possível venda. 

O Minneapolis Star Tribune chegou aos 60 mil assinantes digitais e consegue uma receita anual de 200 milhões de dólares, que lhe permitiu manter uma redacção de cerca de 250 jornalistas durante a maior parte desta década. Mas o editor admite que precisa de ultrapassar os 150 mil assinantes digitais para se tornar sustentável a longo prazo. 

The Boston Globe é um caso atípico, com os seus 111 mil assinantes digitais pagando o preço robusto de um dólar por dia, que lhe permitem manter uma redacção de 200 jornalistas só pelas receitas desta via. 

Segue-se uma lista dos que não conseguem, estando no limite da sobrevivência, e os números da estatística do desemprego causado pelo fecho de jornais, que perderam 60% de 465 mil trabalhadores entre 1990 e 2016, caindo para os 183 mil. Mas, para muitos jornais, nem mesmo os despedimentos os podem salvar. Há grandes áreas do interior rural que se tornaram “desertos de notícias”.  (...) 


O texto aqui citado, na íntegra em The Wall Street Journal, sujeito a assinatura

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
Um relatório recente sobre os princípios de actuação mais frequentes dos maiores publishers digitais dá algumas indicações que vale a pena ter em conta. O estudo “Digital Publishers Report”, divulgado pelo site Digiday, analisa as práticas de uma centena de editores e destaca alguns factores que, na sua opinião, permitem obter os melhores resultados. O estudo estima que as receitas provenientes de conteúdo digital...
E lá se foi mais um daqueles Artistas geniais que tornam a existência humana mais suportável… Guillermo Mordillo era um daqueles raríssimos autores que não precisam de palavras para nos revelarem os aspectos mais evidentes, e também os mais escondidos, das nossas vidas – os alegres, os menos alegres, os cómicos, os ridículos, até os trágicos -- com um traço redondo, que dava aos seus bonecos uma vivacidade...
Sejam de direita ou de esquerda, há uma verdadeira inflação de políticos no activo - ou supostamente retirados - ,  “vestidos” de comentadores residentes nas televisões, com farto proveito. Alguns deles acumulam mesmo os “plateaux” com os microfones  da rádio ou as colunas de jornais, demonstrando  uma invejável capacidade de desdobramento. O objectivo comum a todos é, naturalmente,  pastorearem...
“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
Lançar notícias falsas sobre adversários políticos ou outros existe há séculos. Mas a internet deu às mentiras uma capacidade de difusão nunca antes vista.  Divulgar no espaço público notícias falsas (“fake news”) é hoje um problema que, com razão, preocupa muita gente. Mas não se pode considerar que este seja um problema novo. Claro que a internet e as redes sociais proporcionam...
Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set