Sábado, 30 de Maio, 2020
Tecnologias

O "Podcast" alarga audiência como novo formato mediático

Claro que já tínhamos a rádio, que é muito antiga, mas dependia de aparelhos fixos com grandes antenas; os mais velhos entre nós ainda se lembram das que eram esticadas suspensas do tecto, aproveitando a máxima extensão possível na sala. E o ouvinte dependia ainda de estações com programas que não podia mudar e que tinham de ser escutados à hora prevista  - e em condições também dependentes de muita coisa, além da distância física do emissor.

A generalização de dispositivos móveis que cabem na palma da mão, e dos assistentes de voz que se pousam em qualquer lado, tornaram mais disponível o áudio digital a pedido  - que já se usava a partir dos computadores. O podcast fornece hoje, ao seu utente, ficheiros de áudio com uma oferta muito mais diversificada e de escolha cada vez mais personalizada.

Noticiários, comentários e entrevistas, programas de música, estão acessíveis como livros numa biblioteca sempre aberta. Podem ser ouvidos no carro, nos transportes públicos, por auscultadores, no trabalho ou em casa, enquanto se faz outra tarefa, ou guardados para mais tarde, se for necessário. Os media encontraram neste formato “novas possibilidades narrativas para inovar nos conteúdos e chegar a novas audiências”.

A reflexão inicial é do jornalista José Antonio González Alba, nos Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor recorda a origem do termo podcast, que já tem quase 15 anos  -  um neologismo divulgado pelo jornalista britânico Ben Hammersley a partir de broadcast (emissão ou retransmissão) e de uma referência à marca iPod de aparelhos de reprodução áudio, muito populares à época. 

Como explica outro jornalista aqui citado, Zorka Zumeta, o podcast “participa de todas as vantagens da rádio  - entre as quais a simultaneidade de acções (pode ser escutado enquanto se faz outra coisa) -  mas acima de tudo destaca que é o utente quem impõe as suas próprias coordenadas: escolhe o que escuta, quando e onde, uma liberdade de escolha que não existia com a rádio”. (...) 

José Luis Rojas, docente de jornalismo na Universidade de Sevilha, acrescenta que o podcast se tornou, nos últimos anos, “uma via para que jovens jornalistas ou recém-licenciados possam encontrar um espaço no mercado do trabalho, construindo, para lá do blog e das redes sociais, a sua própria marca pessoal”. 

No fundo, o podcast é “o contador de histórias portátil do séc. XXI”, como diz Zorka Zumeta. E citando agora Ángel Jiménez de Luis, co-fundador da Cuonda Podcast, uma plataforma espanhola de podcasts independentes: 

“O podcast passou por várias fases ao longo dos últimos quinze anos, mas desta vez tem elementos únicos. Por um lado, toda a gente traz agora no bolso um aparelho sempre ligado, e pelo qual se habituou a ouvir rádio. Isto faz com que seja muito mais fácil chegar a uma audiência importante, que não existia antes, ou que dependia de um reprodutor de MP3, que era preciso ligar a um computador. Por outro, encontrou-se uma linguagem própria e temáticas variadas, que têm mais eco junto da audiência.” (...) 

É por aqui que se chega à questão da publicidade  - cuja apropriação pelas grandes plataformas fez ao jornalismo impresso aquilo que sabemos. 

Segundo os dados do mais recente relatório Sociedad de la Información, da Telefónica, 86% dos jovens espanhóis têm um smartphone que usam como dispositivo de referência para mensagens instantâneas, redes sociais e consumo de música e vídeos em streaming: “Um cenário que se revela ideal para o auge dos conteúdos multimédia para novos nichos de mercado.” (...) 

“Apesar da previsível eficácia publicitária como modelo de negócio para este novo formato narrativo, o grande problema tem sido que não havia modo claro de conhecer o consumo real dos podcasts  - o que dificultava a sua exploração comercial. Mas dispõem de um factor fundamental que teria de ser a grande mais-valia publicitária: o tempo de retenção, porque, finalmente, quem escuta é alguém que decidiu passar quinze ou vinte minutos com determinada marca ou história.” (...) 

Em Março de 2017, os questionários para a primeira vaga do Estudio General de Medios, um dos principais instrumentos de medição de audiências em Espanha, já incluíam como novidade principal a inclusão dos podcasts como forma de escuta. Já há grupos de comunicação produzindo conteúdos de ficção “pensados especificamente para esta forma de distribuição”, com o cuidado de boa qualidade na realização do guião e na edição de áudio. (...) 

Também o Digital News Project 2018, do Instituto Reuters, sobre Tendências e Previsões para o Jornalismo e os Media, já reconhecia a importância desta aposta dos media pelo áudio, referindo-se ao uso crescente dos assistentes de voz.

“Embora ouvir música continue a ser a utilização mais habitual para 68% dos inquiridos, 45% já recorrem a eles para consultar o noticiário, e 58% para ver informação de última hora, como a previsão do tempo.” (...) 

“Quebrando com a tendência do vídeo como conteúdo dominante no meio digital, o Instituto Reuters acrescenta que o áudio a pedido começa a aproximar-se dos níveis do vídeo. Concretamente, os podcasts são uma tendência e, portanto, um campo em que vale a pena investir, segundo 58% dos CEO’s dos media  - com uma diferença de apenas três pontos percentuais em relação ao vídeo em directo.” (...) 

“O futuro das notícias são os humanos falando com máquinas”  - é o argumento de Trushar Barot, da BBC, que entende que “a inteligência artificial de voz será a maior revolução tecnológica da indústria [do jornalismo] nos próximos tempos.” (...) 

Isso é bom ou é mau? 

Como explicava há cerca de ano e meio Amy Webb, do Future Today Institute, “a voz é a próxima grande ameaça para os media. (...)  Vai oferecer uma conexão fluída com o jornalismo. Pode elevar o papel que desempenham as empresas de notícias, no nosso dia a dia, de informativo a indispensável.” Mas vai exigir estratégia e narrativas adaptadas: 

“Os responsáveis dos media não estão a [avaliar] como vão mudar os hábitos de consumo da informação quando todos estivermos a falar com as máquinas presentes nas nossas vidas.” (...) 

O desenvolvimento do longo artigo aqui citado  - e cuja leitura na íntegra não é substituída por esta síntese -  descreve os mais recentes exemplos de podcasts na língua castelhana, com a preocupação de serem acessíveis aos mercados da América Latina. 

Vale a pena citar Andrés Rodríguez, da Spain Media Radio:  

“Já sabemos quantas pessoas nos escutam diariamente. Sabemos que, se fizermos uns ou outros títulos, essa audiência toca mais ou menos no play. Mas, com esta precisão métrica, corremos o risco de não incluir aquelas ideias ou tendências que, sendo minoritárias, são aquelas que finalmente contribuirão para mudar a nossa sociedade. É no equilíbrio entre audiência e influência que está o caminho desta nova rádio.” (...) 

O texto dá também informação sobre o que se passa pelo lado dos grandes media internacionais, já entrados por este caminho:

The New York Times, com uma produção de nove podcasts  - nomeadamente The Daily, com cinco milhões de ouvintes mensais [regulares]  - um milhão diariamente -, que já se pode escutar em 34 emissoras locais de rádio pública nos Estados Unidos. “A maior parte dos seus ouvintes são de uma audiência muito mais jovem do que a habitual daquele diário.” 

The Washington Post, com uma grande selecção de podcasts, com temáticas tão diversas como a História da Constituição, a guerra do Vietname ou os poderes e limites da Presidência do país, intitulada  - Can He Do That? (Ele pode fazer isso?). 

O britânico The Guardian, que anunciou em Novembro o lançamento de Guardian Voice Lab, uma equipa que experimenta a narração de contos e a produção de jornalismo utilizando os assistentes de voz inteligentes e áudio inovador interactivo. 

O Financial Times, que também está a apostar no áudio como meio efectivo de atrair uma audiência jovem. Do mesmo modo a BBC, com o seu primeiro editor para podcast

Como conclui José Antonio González Alba, “agora mais profissionalizado e com uma oferta ampla de temas e plataformas distribuidoras, o desafio dos media com os podcasts será o que é procurado, de modo geral, por parte da indústria: que contribuam para consolidar a diversificação do modelo de negócio de [cada] meio.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra nos Cuadernos de Periodistas

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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Numa era digital, marcada por uma constante e acelerada mudança, caracterizada por um globalismo padronizador de culturas e de costumes, muitas indústrias e profissões estão a alterar-se totalmente, ou até mesmo a desaparecer. Tudo isto se passa num ritmo freneticamente acelerado, que nos afoga literalmente num caudal de informação, muitas vezes difícil de filtrar e descodificar em tempo útil. A evolução...
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Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas