Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Tecnologias

O "Podcast" alarga audiência como novo formato mediático

Claro que já tínhamos a rádio, que é muito antiga, mas dependia de aparelhos fixos com grandes antenas; os mais velhos entre nós ainda se lembram das que eram esticadas suspensas do tecto, aproveitando a máxima extensão possível na sala. E o ouvinte dependia ainda de estações com programas que não podia mudar e que tinham de ser escutados à hora prevista  - e em condições também dependentes de muita coisa, além da distância física do emissor.

A generalização de dispositivos móveis que cabem na palma da mão, e dos assistentes de voz que se pousam em qualquer lado, tornaram mais disponível o áudio digital a pedido  - que já se usava a partir dos computadores. O podcast fornece hoje, ao seu utente, ficheiros de áudio com uma oferta muito mais diversificada e de escolha cada vez mais personalizada.

Noticiários, comentários e entrevistas, programas de música, estão acessíveis como livros numa biblioteca sempre aberta. Podem ser ouvidos no carro, nos transportes públicos, por auscultadores, no trabalho ou em casa, enquanto se faz outra tarefa, ou guardados para mais tarde, se for necessário. Os media encontraram neste formato “novas possibilidades narrativas para inovar nos conteúdos e chegar a novas audiências”.

A reflexão inicial é do jornalista José Antonio González Alba, nos Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor recorda a origem do termo podcast, que já tem quase 15 anos  -  um neologismo divulgado pelo jornalista britânico Ben Hammersley a partir de broadcast (emissão ou retransmissão) e de uma referência à marca iPod de aparelhos de reprodução áudio, muito populares à época. 

Como explica outro jornalista aqui citado, Zorka Zumeta, o podcast “participa de todas as vantagens da rádio  - entre as quais a simultaneidade de acções (pode ser escutado enquanto se faz outra coisa) -  mas acima de tudo destaca que é o utente quem impõe as suas próprias coordenadas: escolhe o que escuta, quando e onde, uma liberdade de escolha que não existia com a rádio”. (...) 

José Luis Rojas, docente de jornalismo na Universidade de Sevilha, acrescenta que o podcast se tornou, nos últimos anos, “uma via para que jovens jornalistas ou recém-licenciados possam encontrar um espaço no mercado do trabalho, construindo, para lá do blog e das redes sociais, a sua própria marca pessoal”. 

No fundo, o podcast é “o contador de histórias portátil do séc. XXI”, como diz Zorka Zumeta. E citando agora Ángel Jiménez de Luis, co-fundador da Cuonda Podcast, uma plataforma espanhola de podcasts independentes: 

“O podcast passou por várias fases ao longo dos últimos quinze anos, mas desta vez tem elementos únicos. Por um lado, toda a gente traz agora no bolso um aparelho sempre ligado, e pelo qual se habituou a ouvir rádio. Isto faz com que seja muito mais fácil chegar a uma audiência importante, que não existia antes, ou que dependia de um reprodutor de MP3, que era preciso ligar a um computador. Por outro, encontrou-se uma linguagem própria e temáticas variadas, que têm mais eco junto da audiência.” (...) 

É por aqui que se chega à questão da publicidade  - cuja apropriação pelas grandes plataformas fez ao jornalismo impresso aquilo que sabemos. 

Segundo os dados do mais recente relatório Sociedad de la Información, da Telefónica, 86% dos jovens espanhóis têm um smartphone que usam como dispositivo de referência para mensagens instantâneas, redes sociais e consumo de música e vídeos em streaming: “Um cenário que se revela ideal para o auge dos conteúdos multimédia para novos nichos de mercado.” (...) 

“Apesar da previsível eficácia publicitária como modelo de negócio para este novo formato narrativo, o grande problema tem sido que não havia modo claro de conhecer o consumo real dos podcasts  - o que dificultava a sua exploração comercial. Mas dispõem de um factor fundamental que teria de ser a grande mais-valia publicitária: o tempo de retenção, porque, finalmente, quem escuta é alguém que decidiu passar quinze ou vinte minutos com determinada marca ou história.” (...) 

Em Março de 2017, os questionários para a primeira vaga do Estudio General de Medios, um dos principais instrumentos de medição de audiências em Espanha, já incluíam como novidade principal a inclusão dos podcasts como forma de escuta. Já há grupos de comunicação produzindo conteúdos de ficção “pensados especificamente para esta forma de distribuição”, com o cuidado de boa qualidade na realização do guião e na edição de áudio. (...) 

Também o Digital News Project 2018, do Instituto Reuters, sobre Tendências e Previsões para o Jornalismo e os Media, já reconhecia a importância desta aposta dos media pelo áudio, referindo-se ao uso crescente dos assistentes de voz.

“Embora ouvir música continue a ser a utilização mais habitual para 68% dos inquiridos, 45% já recorrem a eles para consultar o noticiário, e 58% para ver informação de última hora, como a previsão do tempo.” (...) 

“Quebrando com a tendência do vídeo como conteúdo dominante no meio digital, o Instituto Reuters acrescenta que o áudio a pedido começa a aproximar-se dos níveis do vídeo. Concretamente, os podcasts são uma tendência e, portanto, um campo em que vale a pena investir, segundo 58% dos CEO’s dos media  - com uma diferença de apenas três pontos percentuais em relação ao vídeo em directo.” (...) 

“O futuro das notícias são os humanos falando com máquinas”  - é o argumento de Trushar Barot, da BBC, que entende que “a inteligência artificial de voz será a maior revolução tecnológica da indústria [do jornalismo] nos próximos tempos.” (...) 

Isso é bom ou é mau? 

Como explicava há cerca de ano e meio Amy Webb, do Future Today Institute, “a voz é a próxima grande ameaça para os media. (...)  Vai oferecer uma conexão fluída com o jornalismo. Pode elevar o papel que desempenham as empresas de notícias, no nosso dia a dia, de informativo a indispensável.” Mas vai exigir estratégia e narrativas adaptadas: 

“Os responsáveis dos media não estão a [avaliar] como vão mudar os hábitos de consumo da informação quando todos estivermos a falar com as máquinas presentes nas nossas vidas.” (...) 

O desenvolvimento do longo artigo aqui citado  - e cuja leitura na íntegra não é substituída por esta síntese -  descreve os mais recentes exemplos de podcasts na língua castelhana, com a preocupação de serem acessíveis aos mercados da América Latina. 

Vale a pena citar Andrés Rodríguez, da Spain Media Radio:  

“Já sabemos quantas pessoas nos escutam diariamente. Sabemos que, se fizermos uns ou outros títulos, essa audiência toca mais ou menos no play. Mas, com esta precisão métrica, corremos o risco de não incluir aquelas ideias ou tendências que, sendo minoritárias, são aquelas que finalmente contribuirão para mudar a nossa sociedade. É no equilíbrio entre audiência e influência que está o caminho desta nova rádio.” (...) 

O texto dá também informação sobre o que se passa pelo lado dos grandes media internacionais, já entrados por este caminho:

The New York Times, com uma produção de nove podcasts  - nomeadamente The Daily, com cinco milhões de ouvintes mensais [regulares]  - um milhão diariamente -, que já se pode escutar em 34 emissoras locais de rádio pública nos Estados Unidos. “A maior parte dos seus ouvintes são de uma audiência muito mais jovem do que a habitual daquele diário.” 

The Washington Post, com uma grande selecção de podcasts, com temáticas tão diversas como a História da Constituição, a guerra do Vietname ou os poderes e limites da Presidência do país, intitulada  - Can He Do That? (Ele pode fazer isso?). 

O britânico The Guardian, que anunciou em Novembro o lançamento de Guardian Voice Lab, uma equipa que experimenta a narração de contos e a produção de jornalismo utilizando os assistentes de voz inteligentes e áudio inovador interactivo. 

O Financial Times, que também está a apostar no áudio como meio efectivo de atrair uma audiência jovem. Do mesmo modo a BBC, com o seu primeiro editor para podcast

Como conclui José Antonio González Alba, “agora mais profissionalizado e com uma oferta ampla de temas e plataformas distribuidoras, o desafio dos media com os podcasts será o que é procurado, de modo geral, por parte da indústria: que contribuam para consolidar a diversificação do modelo de negócio de [cada] meio.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra nos Cuadernos de Periodistas

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
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Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set