Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Tecnologias

O "Podcast" alarga audiência como novo formato mediático

Claro que já tínhamos a rádio, que é muito antiga, mas dependia de aparelhos fixos com grandes antenas; os mais velhos entre nós ainda se lembram das que eram esticadas suspensas do tecto, aproveitando a máxima extensão possível na sala. E o ouvinte dependia ainda de estações com programas que não podia mudar e que tinham de ser escutados à hora prevista  - e em condições também dependentes de muita coisa, além da distância física do emissor.

A generalização de dispositivos móveis que cabem na palma da mão, e dos assistentes de voz que se pousam em qualquer lado, tornaram mais disponível o áudio digital a pedido  - que já se usava a partir dos computadores. O podcast fornece hoje, ao seu utente, ficheiros de áudio com uma oferta muito mais diversificada e de escolha cada vez mais personalizada.

Noticiários, comentários e entrevistas, programas de música, estão acessíveis como livros numa biblioteca sempre aberta. Podem ser ouvidos no carro, nos transportes públicos, por auscultadores, no trabalho ou em casa, enquanto se faz outra tarefa, ou guardados para mais tarde, se for necessário. Os media encontraram neste formato “novas possibilidades narrativas para inovar nos conteúdos e chegar a novas audiências”.

A reflexão inicial é do jornalista José Antonio González Alba, nos Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

O autor recorda a origem do termo podcast, que já tem quase 15 anos  -  um neologismo divulgado pelo jornalista britânico Ben Hammersley a partir de broadcast (emissão ou retransmissão) e de uma referência à marca iPod de aparelhos de reprodução áudio, muito populares à época. 

Como explica outro jornalista aqui citado, Zorka Zumeta, o podcast “participa de todas as vantagens da rádio  - entre as quais a simultaneidade de acções (pode ser escutado enquanto se faz outra coisa) -  mas acima de tudo destaca que é o utente quem impõe as suas próprias coordenadas: escolhe o que escuta, quando e onde, uma liberdade de escolha que não existia com a rádio”. (...) 

José Luis Rojas, docente de jornalismo na Universidade de Sevilha, acrescenta que o podcast se tornou, nos últimos anos, “uma via para que jovens jornalistas ou recém-licenciados possam encontrar um espaço no mercado do trabalho, construindo, para lá do blog e das redes sociais, a sua própria marca pessoal”. 

No fundo, o podcast é “o contador de histórias portátil do séc. XXI”, como diz Zorka Zumeta. E citando agora Ángel Jiménez de Luis, co-fundador da Cuonda Podcast, uma plataforma espanhola de podcasts independentes: 

“O podcast passou por várias fases ao longo dos últimos quinze anos, mas desta vez tem elementos únicos. Por um lado, toda a gente traz agora no bolso um aparelho sempre ligado, e pelo qual se habituou a ouvir rádio. Isto faz com que seja muito mais fácil chegar a uma audiência importante, que não existia antes, ou que dependia de um reprodutor de MP3, que era preciso ligar a um computador. Por outro, encontrou-se uma linguagem própria e temáticas variadas, que têm mais eco junto da audiência.” (...) 

É por aqui que se chega à questão da publicidade  - cuja apropriação pelas grandes plataformas fez ao jornalismo impresso aquilo que sabemos. 

Segundo os dados do mais recente relatório Sociedad de la Información, da Telefónica, 86% dos jovens espanhóis têm um smartphone que usam como dispositivo de referência para mensagens instantâneas, redes sociais e consumo de música e vídeos em streaming: “Um cenário que se revela ideal para o auge dos conteúdos multimédia para novos nichos de mercado.” (...) 

“Apesar da previsível eficácia publicitária como modelo de negócio para este novo formato narrativo, o grande problema tem sido que não havia modo claro de conhecer o consumo real dos podcasts  - o que dificultava a sua exploração comercial. Mas dispõem de um factor fundamental que teria de ser a grande mais-valia publicitária: o tempo de retenção, porque, finalmente, quem escuta é alguém que decidiu passar quinze ou vinte minutos com determinada marca ou história.” (...) 

Em Março de 2017, os questionários para a primeira vaga do Estudio General de Medios, um dos principais instrumentos de medição de audiências em Espanha, já incluíam como novidade principal a inclusão dos podcasts como forma de escuta. Já há grupos de comunicação produzindo conteúdos de ficção “pensados especificamente para esta forma de distribuição”, com o cuidado de boa qualidade na realização do guião e na edição de áudio. (...) 

Também o Digital News Project 2018, do Instituto Reuters, sobre Tendências e Previsões para o Jornalismo e os Media, já reconhecia a importância desta aposta dos media pelo áudio, referindo-se ao uso crescente dos assistentes de voz.

“Embora ouvir música continue a ser a utilização mais habitual para 68% dos inquiridos, 45% já recorrem a eles para consultar o noticiário, e 58% para ver informação de última hora, como a previsão do tempo.” (...) 

“Quebrando com a tendência do vídeo como conteúdo dominante no meio digital, o Instituto Reuters acrescenta que o áudio a pedido começa a aproximar-se dos níveis do vídeo. Concretamente, os podcasts são uma tendência e, portanto, um campo em que vale a pena investir, segundo 58% dos CEO’s dos media  - com uma diferença de apenas três pontos percentuais em relação ao vídeo em directo.” (...) 

“O futuro das notícias são os humanos falando com máquinas”  - é o argumento de Trushar Barot, da BBC, que entende que “a inteligência artificial de voz será a maior revolução tecnológica da indústria [do jornalismo] nos próximos tempos.” (...) 

Isso é bom ou é mau? 

Como explicava há cerca de ano e meio Amy Webb, do Future Today Institute, “a voz é a próxima grande ameaça para os media. (...)  Vai oferecer uma conexão fluída com o jornalismo. Pode elevar o papel que desempenham as empresas de notícias, no nosso dia a dia, de informativo a indispensável.” Mas vai exigir estratégia e narrativas adaptadas: 

“Os responsáveis dos media não estão a [avaliar] como vão mudar os hábitos de consumo da informação quando todos estivermos a falar com as máquinas presentes nas nossas vidas.” (...) 

O desenvolvimento do longo artigo aqui citado  - e cuja leitura na íntegra não é substituída por esta síntese -  descreve os mais recentes exemplos de podcasts na língua castelhana, com a preocupação de serem acessíveis aos mercados da América Latina. 

Vale a pena citar Andrés Rodríguez, da Spain Media Radio:  

“Já sabemos quantas pessoas nos escutam diariamente. Sabemos que, se fizermos uns ou outros títulos, essa audiência toca mais ou menos no play. Mas, com esta precisão métrica, corremos o risco de não incluir aquelas ideias ou tendências que, sendo minoritárias, são aquelas que finalmente contribuirão para mudar a nossa sociedade. É no equilíbrio entre audiência e influência que está o caminho desta nova rádio.” (...) 

O texto dá também informação sobre o que se passa pelo lado dos grandes media internacionais, já entrados por este caminho:

The New York Times, com uma produção de nove podcasts  - nomeadamente The Daily, com cinco milhões de ouvintes mensais [regulares]  - um milhão diariamente -, que já se pode escutar em 34 emissoras locais de rádio pública nos Estados Unidos. “A maior parte dos seus ouvintes são de uma audiência muito mais jovem do que a habitual daquele diário.” 

The Washington Post, com uma grande selecção de podcasts, com temáticas tão diversas como a História da Constituição, a guerra do Vietname ou os poderes e limites da Presidência do país, intitulada  - Can He Do That? (Ele pode fazer isso?). 

O britânico The Guardian, que anunciou em Novembro o lançamento de Guardian Voice Lab, uma equipa que experimenta a narração de contos e a produção de jornalismo utilizando os assistentes de voz inteligentes e áudio inovador interactivo. 

O Financial Times, que também está a apostar no áudio como meio efectivo de atrair uma audiência jovem. Do mesmo modo a BBC, com o seu primeiro editor para podcast

Como conclui José Antonio González Alba, “agora mais profissionalizado e com uma oferta ampla de temas e plataformas distribuidoras, o desafio dos media com os podcasts será o que é procurado, de modo geral, por parte da indústria: que contribuam para consolidar a diversificação do modelo de negócio de [cada] meio.”

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra nos Cuadernos de Periodistas

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
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Set
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