Quinta-feira, 17 de Outubro, 2019
Opinião

Os desafios à liberdade de Imprensa

por Dinis de Abreu

A celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa  constitui o pretexto e o convite para uma reflexão que não nos exclui. Com os jornais em contínua degradação de vendas em banca, obrigando  já a soluções extremas  - como se verificou com o centenário  “Diário de Noticias”, que passou a ser semanário, embora sem inverter o plano inclinado -,  a apatia continua a ser a regra, sem soluções à vista.

Apesar da situação ser sombria, e ameaçar no curto prazo a maioria das empresas de media, o silêncio das associações do sector, patronais e profissionais, não deixa de ser intrigante, como se fosse preferível  “meter a cabeça na areia” do que promover alternativas sustentáveis, suficientemente  inovadoras  e capazes de virar a página do declínio continuado.

Ao contrário da passividade reinante em Portugal , a efeméride foi aproveitada em Espanha pelas principais associações,  representativas dos jornais e jornalistas,  para manifestarem a sua apreensão  relativamente ao presente e ao futuro .

Foi o caso da FAPE - Federación de Asociaciones de Periodistas de España, que viu na recente campanha eleitoral uma demonstração de que liberdade de Imprensa “continua ameaçada” e  lamentou  a “lei da mordaça”  que se “uniu ao discurso do ódio contra os jornalistas e os media”.

Pior: “a extrema polarização da política catalã impediu  o livre exercício do jornalismo  naquela região autonómica” a ponto de “converter os jornalistas nas principais vitimas, com insultos e agressões nalguns casos”.

De facto, a repressão sobre os jornalistas agravou-se significativamente na última década , desde a Turquia à Venezuela , contagiando várias países em diferentes latitudes. 

A organização Repórteres sem Fronteiras concluiu mesmo que apenas 9% da população mundial vive em países onde   a situação da liberdade de imprensa é considerada  boa ou muito boa.

De facto, no ranking mundial publicado há dias, verifica-se que a liberdade de imprensa é considerada difícil ou muito grave, ou seja, “amplamente reprimida”,  tanto  na China,  Rússia, ou Arábia Saudita, como em democracias como o México ou a Índia, incluindo  países onde a situação é classificada como problemática, casos da  Mauritânia ou da Hungria.

Instaurou-se a “mecânica do medo”, como a definem os RSF, ao contabilizarem a lista negra de jornalista assassinados ou detidos de forma arbitrária. Um balanço sinistro.

O panorama é assustador e não dá sinais de recuar. Por cá, a fragilidade do mercado de Imprensa  associada à “tabloidização” das televisões,  generalistas ou  temáticas, não augura também um futuro promissor, embora estejamos bem longe das condições dramáticas de  exercício da profissão  que perseguem e neutralizam muitos jornalistas pelo mundo.

A precariedade laboral acaba por condicionar o trabalho dos jornalistas,  privados de meios de investigação e submetidos a agendas politicas,  que os querem reduzir ao pepel de   “pé de microfone”. 

Depois, a evolução tecnológica e a desinformação trouxeram novos desafios. E novos pessimismos.

Bem pode o Papa Francisco pregar na sua nota alusiva ao Dia Mundial da Liberdade de Imprensa que “precisamos de um jornalismo que seja livre, ao serviço da verdade, da justiça e da bondade; um jornalismo que ajude a construir uma cultura de encontro”.

É um ideal antigo. Mas, infelizmente, há mais desencontros do que encontros. E  não se pode pedir ao jornalista que some a vocação de  martírio à profissão de fé.

Connosco
Site venezuelano de investigação premiado em Nova Iorque Ver galeria

O site venezuelano Armando.info foi distinguido com menção honrosa do prémio Cabot 2019, instituído pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova Iorque. 

O projecto surgiu em 2010, devido à necessidade de promover investigações jornalísticas que transcendessem a agenda dos meios tradicionais. 

Quando se aperceberam de que o governo estava a adquirir media para poder censurá-los, o grupo de jornalistas considerou que era o momento de criar um espaço de jornalismo independente.

Actualmente, os fundadores do site encontram-se exilados, depois de terem sido processados por difamação e injúria devido a reportagens que realizaram. Apesar de a equipa estar dividida entre Bogotá e Caracas, continuam as operações e as investigações jornalísticas.

O júri do prémio decidiu, assim, atribuir a menção especial ao projecto, que consideram ser “publicado por um grupo de valentes jornalistas investigativos que operam num dos ambientes mais hostis à imprensa livre". 

Knight Center publicou no seu site a entrevista a Joseph Poliszuk, um dos fundadores do projecto.

Ser jornalista no México é tornar-se “correspondente de guerra sem sair da sua terra” Ver galeria

Marcela Turati foi reconhecida com o Prémio Maria Moors Cabot 2019, atribuído pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, pela sua excelência profissional e por promover, com as suas reportagens, um melhor entendimento interamericano.

É fundadora, com outros jornalistas, da rede Periodistas de a Pie e do portal de investigação Quinto Elemento Lab, colectivos que procuram defender a liberdade de expressão e apoiar o exercício do jornalismo em regiões pobres e perigosas.

A jornalista deu uma entrevista ao Knight Center, na qual falou do seu percurso profissional e das dificuldades enfrentadas no México para o exercício da profissão.
Para Turati, ser jornalista no país é um “desafio constante” e uma responsabilidade, equivalente a tornar-se “correspondente de guerra sem sair da sua terra”.

Desde 2008, que cobre casos de vítimas de violência, lidando regularmente com pessoas que têm familiares desaparecidos, testemunhas de massacres, entre outros. Como profissional, procura cobrir a violência a partir de uma abordagem de direitos humanos e o seu objectivo é continuar a contar estas histórias sem as normalizar.

O Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI tem um acordo de parceria, publicou a entrevista com a jornalista no seu site.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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