Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A autora menciona a redescoberta de obras como “1984”, de George Orwell, citadas e “indicadas em bibliografias para nos ajudar a compreender as formas de controlo da sociedade e a pensar em como o mundo pode ser no futuro  - parece que com mais cara de passado do que de futuro”. 

Menciona também a “Retrotopia, de Zygmunt Bauman, que se debruçou  “sobre esse movimento contemporâneo de busca de soluções para um mundo melhor, não mais num futuro a ser construído, mas em ideias e experiências do passado”. 

“Nacionalismos exacerbados, fechamentos de fronteiras retornam e se fortalecem depois de um momento de apagamento de fronteiras, da rede mundial conectar pessoas e as migrações se transformarem em movimentações, idas e vindas.” (...) 

“Uma certa nostalgia aparece em diversas áreas na mesma medida em que o ataque à História também aparece. E a onda, sobretudo, é para glorificar simplificando fases, experiências históricas e sociais, actores e lutas. Não vi ainda um desejo por repetir de alguma maneira as extravagâncias e avanços da década de 1920 e sim retornos aos anos de 1950 ou à ditadura de 1964. Essa volta ao passado tem certo cheiro de mofo. Não parece acontecer por motivações benjaminianas de alguma filiação à fileira de vencidos, mas a uma repetição da História como farsa.” (...) 

Onde entra o Jornalismo neste movimento?  - interroga-se a autora. 

Também ele pode cair, no seu agendamento de reportagens “que buscam explicar algum aspecto da História”, na linha deste “pensamento de futuro baseado em um desejo pelo passado”. 

Ou pode, por outro lado, colocar-se “como um novo sujeito a falar da História”: 

“Na busca por essas pautas e nessa relação com a História e a Historiografia, o Jornalismo revisita momentos, personagens, desloca olhares, questiona inclusive discursos que buscam glorificar o passado para imaginar um futuro ao invés de construí-lo.” (...) 

Vanessa Pedro cita, como exemplo desta atitude, a resposta a “declarações que tentavam diminuir a importância de figuras como Chico Mendes”  - na forma de “reportagens sobre o activista, o seu assassinato e a causa que defendia”.(...) 

“Sabidamente defensor da Amazónia e dos povos da floresta, Chico Mendes foi assassinado em 1988 por fazendeiros que se opunham às suas acções como ambientalista e seringueiro. Naquela época, a opinião pública soube do assassinato, se posicionou na condenação da morte violenta e até os livros didácticos o colocaram como personagem importante para a causa ambiental e na disputa de terras no Brasil. Mas o momento actual de reescrita orwelliana da História chamou o Jornalismo a revisitar o tema, o acontecimento, e a reposicionar Chico Mendes como activista e vítima da violência política.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa.

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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