Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Media

Quando o jornalismo procura o passado para ler o futuro

O futuro que foi imaginado pela literatura do passado nem sempre coincide com o que vemos hoje. Tanto pelo seu lado mais luminoso, como pelo mais sombrio, podemos reencontrar “imagens das histórias utópicas ou distópicas já contadas”.
Mas, “em tempos de esperança reduzida, em que pouco se vê além da poeira levantada pela vida agitada deste momento, as distopias têm voltado a ser mais lembradas”.

É esta a reflexão inicial de Vanessa Pedro, docente de jornalismo e pesquisadora do ObjEthos, num artigo sobre este gosto presente pelos zombies, “as histórias dos mortos-vivos, que nem se vão nos deixando em paz e nem voltam mesmo à vida como um milagre que poderia trazer esperanças de renovação”.

Neste tipo de leitura  - como acrescenta -  “o passado acaba sendo um ideal mais interessante e feliz do que o futuro”:

“E aí vemos diversos agendamentos, inclusive como pauta do Jornalismo e da sociedade de forma geral. O período da ditadura militar brasileira passa a ser idolatrado, defendido e desejado, quase festejado. (...)  Até as décadas que antecedem e sucedem a Segunda Guerra Mundial entraram na disputa, têm sido citadas, defendidas, atacadas, recontadas para serem usadas como narrativas de um mundo ideal, ou ideal para ser repelido.” (...)

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

A autora menciona a redescoberta de obras como “1984”, de George Orwell, citadas e “indicadas em bibliografias para nos ajudar a compreender as formas de controlo da sociedade e a pensar em como o mundo pode ser no futuro  - parece que com mais cara de passado do que de futuro”. 

Menciona também a “Retrotopia, de Zygmunt Bauman, que se debruçou  “sobre esse movimento contemporâneo de busca de soluções para um mundo melhor, não mais num futuro a ser construído, mas em ideias e experiências do passado”. 

“Nacionalismos exacerbados, fechamentos de fronteiras retornam e se fortalecem depois de um momento de apagamento de fronteiras, da rede mundial conectar pessoas e as migrações se transformarem em movimentações, idas e vindas.” (...) 

“Uma certa nostalgia aparece em diversas áreas na mesma medida em que o ataque à História também aparece. E a onda, sobretudo, é para glorificar simplificando fases, experiências históricas e sociais, actores e lutas. Não vi ainda um desejo por repetir de alguma maneira as extravagâncias e avanços da década de 1920 e sim retornos aos anos de 1950 ou à ditadura de 1964. Essa volta ao passado tem certo cheiro de mofo. Não parece acontecer por motivações benjaminianas de alguma filiação à fileira de vencidos, mas a uma repetição da História como farsa.” (...) 

Onde entra o Jornalismo neste movimento?  - interroga-se a autora. 

Também ele pode cair, no seu agendamento de reportagens “que buscam explicar algum aspecto da História”, na linha deste “pensamento de futuro baseado em um desejo pelo passado”. 

Ou pode, por outro lado, colocar-se “como um novo sujeito a falar da História”: 

“Na busca por essas pautas e nessa relação com a História e a Historiografia, o Jornalismo revisita momentos, personagens, desloca olhares, questiona inclusive discursos que buscam glorificar o passado para imaginar um futuro ao invés de construí-lo.” (...) 

Vanessa Pedro cita, como exemplo desta atitude, a resposta a “declarações que tentavam diminuir a importância de figuras como Chico Mendes”  - na forma de “reportagens sobre o activista, o seu assassinato e a causa que defendia”.(...) 

“Sabidamente defensor da Amazónia e dos povos da floresta, Chico Mendes foi assassinado em 1988 por fazendeiros que se opunham às suas acções como ambientalista e seringueiro. Naquela época, a opinião pública soube do assassinato, se posicionou na condenação da morte violenta e até os livros didácticos o colocaram como personagem importante para a causa ambiental e na disputa de terras no Brasil. Mas o momento actual de reescrita orwelliana da História chamou o Jornalismo a revisitar o tema, o acontecimento, e a reposicionar Chico Mendes como activista e vítima da violência política.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Observatório da Imprensa.

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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