Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Media

Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.

Em termos de alteração dos lugares ocupados na escala, os Repórteres sem Fronteiras destacam o progresso da Etiópia, que subiu 40 lugares para 110º, e da Gâmbia, que avançou 30 lugares para 92º. No outro extremo, o Turquemenistão, cujo regime não deixou de reforçar o controlo da Imprensa e continua a perseguir os últimos correspondentes clandestinos da comunicação social no exílio, retirou a última posição à Coreia do Norte. 

Segundo o texto do relatório, “os Estados Unidos [em 48º lugar], onde um clima cada vez mais hostil se instalou na esteira da postura do Presidente Donald Trump frente aos meios de comunicação, perderam três posições em 2019 e caíram na zona laranja, onde se situam os países considerados problemáticos para o exercício do jornalismo. Os jornalistas americanos nunca haviam sido alvo de tantas ameaças de morte. Tampouco haviam recorrido a empresas privadas para garantir a sua segurança”. (...) 

“Este ano, a América do Norte e do Sul registou a maior degradação do indicador regional (+ 3,6%). Esse mau resultado não se deve apenas aos casos dos Estados Unidos, do Brasil ou da Venezuela. A Nicarágua (114º), que perde 24 posições, sofreu uma das quedas mais significativas em 2019. Os jornalistas nicaraguenses que cobrem os protestos anti-governo de Ortega, vistos como oponentes, são frequentemente agredidos. Muitos deles foram forçados ao exílio para escapar de ameaças e acusações descabidas de envolvimento com o terrorismo.” 

“O continente abriga também um dos países mais mortais do mundo para a profissão, o México, onde pelo menos 10 jornalistas foram assassinados em 2018.” (...) 

“A União Europeia e os Balcãs registaram a segunda maior deterioração do indicador regional (+ 1,7%). Nessa região  - que continua sendo a que melhor garante a liberdade de Imprensa e onde, em princípio, o exercício da profissão é o mais seguro -  os jornalistas enfrentam hoje ameaças cada vez mais graves: assassinatos em Malta, na Eslováquia e na Bulgária (111º), ataques verbais e físicos, particularmente na Sérvia ou em Montenegro (104º, -1), ou um nível inédito de violência durante as manifestações dos ‘coletes amarelos’ na França (32º, +1)  - a tal ponto que muitas equipas de TV não ousam exibir o seu logo nem cobrir manifestações sem serem acompanhadas por guarda-costas.” (...)  

“A perseguição de jornalistas que interferem com os poderes estabelecidos parece não ter limite. O sórdido assassinato do editorialista saudita Jamal Khashoggi, cometido a sangue frio no consulado da Turquia em Outubro passado, enviou uma mensagem assustadora aos repórteres muito além das fronteiras do reino da Arábia Saudita (172º, -3). Por medo de perder a vida, muitos jornalistas da região praticam a autocensura ou simplesmente abandonam a profissão.” (...)


Mais informação no Observador.  O relatório em português, com o texto introdutório,  as análises por região  e o ranking ordenado de todos os países.
Um comentário preocupante na CNN.


Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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