Sábado, 30 de Maio, 2020
Opinião

Assange e o jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

O caso Assange dura há quase sete anos. Agora, com a sua expulsão da embaixada do Equador em Londres e consequente prisão pela polícia britânica, o caso entrou numa nova fase. É possível que Assange venha a ser extraditado para os Estados Unidos (o que ele não quer) ou para a Suécia (o que ele agora prefere, embora tenha recusado essa possibilidade há sete anos). 

Também se fala muito da mudança do poder governamental no Equador, que em parte explica a sua retirada da embaixada em Londres. Ao longo dos últimos sete anos houve quem elogiasse Julian Assange pela fuga de documentos oficiais que promoveu – foi nomeadamente o caso de Trump, que em 2016, antes de ser eleito presidente, declarou “adorar ler os WikiLeaks” (os documentos ilegalmente divulgados). Hoje, Trump distancia-se do caso…

A justiça americana acusa Assange de ter ajudado Chelsea Manning (na altura o soldado Bradley Manning) a violar a “password” secreta de uma rede do Pentágono, permitindo o acesso e divulgação de segredos militares. Mas, objectam alguns, não terá isso mesmo acontecido em 1971 com a divulgação dos chamados “Pentagon papers”, permitindo revelar certas realidades da guerra do Vietname? Essa revelação foi considerada legal à luz de disposições constitucionais americanas sobre a liberdade de expressão.

Assange também é acusado nos EUA de ter colaborado na divulgação ilegal, por entidades russas, de “e-mails” trocados pelo partido democrático, visando prejudicar Hillary Clinton e favorecer a eleição de Trump. Aliás, a publicação de milhares de documentos divulgados pela WikiLeaks não envolvem apenas aparentes ligações à Rússia; numa esmagadora proporção, os documentos divulgados embaraçam democracias liberais e poupam ditaduras e autocratas.

 

Voltando à comparação com os “Pentagon Papers”: não será Assange um herói da liberdade de expressão, um ídolo do jornalismo de investigação? O semanário britânico “The Economist” analisa o assunto e conclui que divulgar, em bruto, informação não editada é um ato de um “idiota útil, não de um jornalista”.

Lembra o semanário que publicar informação a que se acede graças a fugas é o trabalho corrente de jornalistas. Mas estes não violam “passwords”. Nem têm por hábito publicar material obtido por serviços secretos de países não democráticos, como a Rússia, para influenciar eleições em países democráticos.

Acresce que Assange não editou muito do material que divulgou, o que nenhum verdadeiro jornalista faria. Em 2011 foram divulgados documentos em bruto que continham informações pessoais e sensíveis, sem valor noticioso, mas que criaram problemas a várias pessoas em terceiros países.

Os cinco jornais que inicialmente transmitiram informação proveniente da WikiLeaks, mas por eles editada – “The Guardian”, “New York Times”, “El País”, “Der Spiegel”, “Le Monde” – discordaram da informação em bruto divulgada directamente por Assange e desligaram-se do acordo com ele.

O que fez Assange não é jornalismo; o homem não pode nem deve ser considerado um herói da liberdade de expressão.

Connosco
Na era digital a máquina é o “braço direito” do jornalista ... Ver galeria

A era digital fez-se acompanhar de uma profunda alteração nos modelos de actividade e de negócio, entre os quais se destaca o sector mediático, segundo aponta o mais recente relatório do Obercom.

De acordo com o estudo, essas mudanças caracterizam-se, sobretudo, pela implementação de algoritmos e pela automatização dos sistemas.

Se, por um lado, a digitalização trouxe alguns problemas ao sector mediático, que, durante décadas estudou a adaptação a um mundo globalizado, onde a informação nunca pára, por outro, veio facilitar o trabalho aos jornalistas.

Este fenómeno é, aparentemente, paradoxal, mas a verdade é que os processos automáticos ajudam os profissionais a responderem, eficazmente, à necessidade da produção “sôfrega” de conteúdos noticiosos.

Trocando por miúdos: se as máquinas existem, porque não “pedir-lhes ajuda”?

Assim, os “media” actuais dependem, cada vez mais, de algoritmos que permitem analisar a preferências dos leitores, bem como de sistemas que facilitam a actualização de “websites” ao minuto.

A urgência de proteger jornalistas em países onde falha a liberdade de imprensa Ver galeria

A violência contra os jornalistas é uma realidade cada vez mais presente no mundo contemporâneo, já que várias entidades, insatisfeitas com a sua independência, estão a desenvolver novos mecanismos para impedir a publicação de artigos incómodos para o poder instituído.

Os atentados mais graves contra a liberdade de imprensa ocorrem em países onde esta está condicionada, mas, igualmente, noutros onde era suposto haver protecção para o trabalho jornalístico.

De acordo com um artigo do “Guardian”, esta realidade distópica ficou  mais evidente com o aparecimento do coronavírus.

A título de exemplo, alguns governos criaram medidas extraordinárias, visando a restrição do trabalho jornalístico. Foi o caso da Hungria, onde Viktor Órban instituiu a lei “coronavírus”, que criminaliza a difusão de “notícias falsas” sobre a pandemia. 

Da mesma forma, tanto a China como o Irão censuraram a informação respeitante aos surtos nestes países.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas