Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Opinião

Assange e o jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

O caso Assange dura há quase sete anos. Agora, com a sua expulsão da embaixada do Equador em Londres e consequente prisão pela polícia britânica, o caso entrou numa nova fase. É possível que Assange venha a ser extraditado para os Estados Unidos (o que ele não quer) ou para a Suécia (o que ele agora prefere, embora tenha recusado essa possibilidade há sete anos). 

Também se fala muito da mudança do poder governamental no Equador, que em parte explica a sua retirada da embaixada em Londres. Ao longo dos últimos sete anos houve quem elogiasse Julian Assange pela fuga de documentos oficiais que promoveu – foi nomeadamente o caso de Trump, que em 2016, antes de ser eleito presidente, declarou “adorar ler os WikiLeaks” (os documentos ilegalmente divulgados). Hoje, Trump distancia-se do caso…

A justiça americana acusa Assange de ter ajudado Chelsea Manning (na altura o soldado Bradley Manning) a violar a “password” secreta de uma rede do Pentágono, permitindo o acesso e divulgação de segredos militares. Mas, objectam alguns, não terá isso mesmo acontecido em 1971 com a divulgação dos chamados “Pentagon papers”, permitindo revelar certas realidades da guerra do Vietname? Essa revelação foi considerada legal à luz de disposições constitucionais americanas sobre a liberdade de expressão.

Assange também é acusado nos EUA de ter colaborado na divulgação ilegal, por entidades russas, de “e-mails” trocados pelo partido democrático, visando prejudicar Hillary Clinton e favorecer a eleição de Trump. Aliás, a publicação de milhares de documentos divulgados pela WikiLeaks não envolvem apenas aparentes ligações à Rússia; numa esmagadora proporção, os documentos divulgados embaraçam democracias liberais e poupam ditaduras e autocratas.

 

Voltando à comparação com os “Pentagon Papers”: não será Assange um herói da liberdade de expressão, um ídolo do jornalismo de investigação? O semanário britânico “The Economist” analisa o assunto e conclui que divulgar, em bruto, informação não editada é um ato de um “idiota útil, não de um jornalista”.

Lembra o semanário que publicar informação a que se acede graças a fugas é o trabalho corrente de jornalistas. Mas estes não violam “passwords”. Nem têm por hábito publicar material obtido por serviços secretos de países não democráticos, como a Rússia, para influenciar eleições em países democráticos.

Acresce que Assange não editou muito do material que divulgou, o que nenhum verdadeiro jornalista faria. Em 2011 foram divulgados documentos em bruto que continham informações pessoais e sensíveis, sem valor noticioso, mas que criaram problemas a várias pessoas em terceiros países.

Os cinco jornais que inicialmente transmitiram informação proveniente da WikiLeaks, mas por eles editada – “The Guardian”, “New York Times”, “El País”, “Der Spiegel”, “Le Monde” – discordaram da informação em bruto divulgada directamente por Assange e desligaram-se do acordo com ele.

O que fez Assange não é jornalismo; o homem não pode nem deve ser considerado um herói da liberdade de expressão.

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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