Sábado, 25 de Maio, 2019
Opinião

Assange e o jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

O caso Assange dura há quase sete anos. Agora, com a sua expulsão da embaixada do Equador em Londres e consequente prisão pela polícia britânica, o caso entrou numa nova fase. É possível que Assange venha a ser extraditado para os Estados Unidos (o que ele não quer) ou para a Suécia (o que ele agora prefere, embora tenha recusado essa possibilidade há sete anos). 

Também se fala muito da mudança do poder governamental no Equador, que em parte explica a sua retirada da embaixada em Londres. Ao longo dos últimos sete anos houve quem elogiasse Julian Assange pela fuga de documentos oficiais que promoveu – foi nomeadamente o caso de Trump, que em 2016, antes de ser eleito presidente, declarou “adorar ler os WikiLeaks” (os documentos ilegalmente divulgados). Hoje, Trump distancia-se do caso…

A justiça americana acusa Assange de ter ajudado Chelsea Manning (na altura o soldado Bradley Manning) a violar a “password” secreta de uma rede do Pentágono, permitindo o acesso e divulgação de segredos militares. Mas, objectam alguns, não terá isso mesmo acontecido em 1971 com a divulgação dos chamados “Pentagon papers”, permitindo revelar certas realidades da guerra do Vietname? Essa revelação foi considerada legal à luz de disposições constitucionais americanas sobre a liberdade de expressão.

Assange também é acusado nos EUA de ter colaborado na divulgação ilegal, por entidades russas, de “e-mails” trocados pelo partido democrático, visando prejudicar Hillary Clinton e favorecer a eleição de Trump. Aliás, a publicação de milhares de documentos divulgados pela WikiLeaks não envolvem apenas aparentes ligações à Rússia; numa esmagadora proporção, os documentos divulgados embaraçam democracias liberais e poupam ditaduras e autocratas.

 

Voltando à comparação com os “Pentagon Papers”: não será Assange um herói da liberdade de expressão, um ídolo do jornalismo de investigação? O semanário britânico “The Economist” analisa o assunto e conclui que divulgar, em bruto, informação não editada é um ato de um “idiota útil, não de um jornalista”.

Lembra o semanário que publicar informação a que se acede graças a fugas é o trabalho corrente de jornalistas. Mas estes não violam “passwords”. Nem têm por hábito publicar material obtido por serviços secretos de países não democráticos, como a Rússia, para influenciar eleições em países democráticos.

Acresce que Assange não editou muito do material que divulgou, o que nenhum verdadeiro jornalista faria. Em 2011 foram divulgados documentos em bruto que continham informações pessoais e sensíveis, sem valor noticioso, mas que criaram problemas a várias pessoas em terceiros países.

Os cinco jornais que inicialmente transmitiram informação proveniente da WikiLeaks, mas por eles editada – “The Guardian”, “New York Times”, “El País”, “Der Spiegel”, “Le Monde” – discordaram da informação em bruto divulgada directamente por Assange e desligaram-se do acordo com ele.

O que fez Assange não é jornalismo; o homem não pode nem deve ser considerado um herói da liberdade de expressão.

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Agenda
27
Mai
DW Global Media Forum
09:00 @ Bona, Alemanha
02
Jun
"The Children’s Media Conference"
11:00 @ Sheffield, Reino Unido
14
Jun
14
Jun
21
Jun
Social Media Day: Halifax
09:00 @ Halifax, Nova Escócia, Canadá