Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Opinião

Assange e o jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

O caso Assange dura há quase sete anos. Agora, com a sua expulsão da embaixada do Equador em Londres e consequente prisão pela polícia britânica, o caso entrou numa nova fase. É possível que Assange venha a ser extraditado para os Estados Unidos (o que ele não quer) ou para a Suécia (o que ele agora prefere, embora tenha recusado essa possibilidade há sete anos). 

Também se fala muito da mudança do poder governamental no Equador, que em parte explica a sua retirada da embaixada em Londres. Ao longo dos últimos sete anos houve quem elogiasse Julian Assange pela fuga de documentos oficiais que promoveu – foi nomeadamente o caso de Trump, que em 2016, antes de ser eleito presidente, declarou “adorar ler os WikiLeaks” (os documentos ilegalmente divulgados). Hoje, Trump distancia-se do caso…

A justiça americana acusa Assange de ter ajudado Chelsea Manning (na altura o soldado Bradley Manning) a violar a “password” secreta de uma rede do Pentágono, permitindo o acesso e divulgação de segredos militares. Mas, objectam alguns, não terá isso mesmo acontecido em 1971 com a divulgação dos chamados “Pentagon papers”, permitindo revelar certas realidades da guerra do Vietname? Essa revelação foi considerada legal à luz de disposições constitucionais americanas sobre a liberdade de expressão.

Assange também é acusado nos EUA de ter colaborado na divulgação ilegal, por entidades russas, de “e-mails” trocados pelo partido democrático, visando prejudicar Hillary Clinton e favorecer a eleição de Trump. Aliás, a publicação de milhares de documentos divulgados pela WikiLeaks não envolvem apenas aparentes ligações à Rússia; numa esmagadora proporção, os documentos divulgados embaraçam democracias liberais e poupam ditaduras e autocratas.

 

Voltando à comparação com os “Pentagon Papers”: não será Assange um herói da liberdade de expressão, um ídolo do jornalismo de investigação? O semanário britânico “The Economist” analisa o assunto e conclui que divulgar, em bruto, informação não editada é um ato de um “idiota útil, não de um jornalista”.

Lembra o semanário que publicar informação a que se acede graças a fugas é o trabalho corrente de jornalistas. Mas estes não violam “passwords”. Nem têm por hábito publicar material obtido por serviços secretos de países não democráticos, como a Rússia, para influenciar eleições em países democráticos.

Acresce que Assange não editou muito do material que divulgou, o que nenhum verdadeiro jornalista faria. Em 2011 foram divulgados documentos em bruto que continham informações pessoais e sensíveis, sem valor noticioso, mas que criaram problemas a várias pessoas em terceiros países.

Os cinco jornais que inicialmente transmitiram informação proveniente da WikiLeaks, mas por eles editada – “The Guardian”, “New York Times”, “El País”, “Der Spiegel”, “Le Monde” – discordaram da informação em bruto divulgada directamente por Assange e desligaram-se do acordo com ele.

O que fez Assange não é jornalismo; o homem não pode nem deve ser considerado um herói da liberdade de expressão.

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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