Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Governo húngaro lança agência noticiosa de expressão "alternativa"

Está a nascer de modo discreto, sem fundação oficial, a agência de Imprensa do grupo de Visegrado, o “clube” político que reune a Hungria, a Polónia, a Eslováquia e a República Checa. A V4 Agency, por enquanto reservada aos assinantes, tem sede em Londres, uma redacção de 50 jornalistas, divulga informação em inglês e em húngaro e promete ampliar a sua cobertura e alcance, tornando-se concorrente da France-Presse e da Reuters.

O objectivo é de apresentar “um ponto de vista alternativo sobre a actualidade”, neste caso declaradamente “conservador”, com uma orientação editorial que adopta “as ideias manifestadas por Viktor Orban desde a grande vaga migratória de 2015”.
A informação, que aqui citamos de Le Monde, parte do site húngaro independente Valaszoline.hu, que descreve as ligações ao governo húngaro, bem como o tom da leitura que faz da situação na Europa.

O novo site “evoca sobretudo os temas caros à extrema-direita e ao poder instituído em Budapeste”:

“A imigração é uma guerra de culturas e de civilizações.” “Quarenta ataques diários à facada em Londres.” “República checa: demasiados estrangeiros?”  -  são estes alguns dos títulos das primeiras peças publicadas.

Como conta Le Monde, “em Dezembro de 2018, o proprietário da V4 News Agency era Kristof Szalay-Bobrovniczky  - o nome do embaixador da Hungria no Reino Unido”: 

“Em Março [findo], dois grupos de Imprensa detidos por próximos de Viktor Orban tornaram-se maioritários na sociedade. Um deles é dirigido pelo homem de negócios Arpad Habony, que tinha fundado, na capital britânica, uma empresa com Arthur Finkelstein, o conselheiro que era disputado  - antes da sua morte em 2017 -  por diversos partidos de direita nos EUA, em Israel e ainda na Europa Central e Oriental.” 

“Este último estava também por detrás de campanhas agressivas e conspiracionistas dirigidas contra a Comissão Europeia e o milionário americano George Soros, acusado de orquestrar uma substituição de populações no Velho Continente, por meio de muçulmanos originários de África e do Médio-Oriente.” 

Outros actores do espectro nacionalista, que se reconhecem em Viktor Orban e denunciam constantemente o estigma de que estariam a ser vítimas por parte da Imprensa, aplaudem o nascimento de um órgão que lhes será, finalmente, favorável. Segundo o austríaco Wolfgang Sellner, “nós travamos um combate ideológico”: 

“É portanto essencial que tenhamos retransmissores de opinião sustentados pelo poder financeiro de um Estado. É necessário que se multipliquem iniciativas deste género.”

 

Mais informação em Le Monde,  em DailyNewsHungary  e na agência Bloomberg

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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