Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

UE lança guias éticos para Inteligência Artificial

A Comissão Europeia lançou recentemente um conjunto de guias para ajudar o desenvolvimento e a implementação de sistemas autónomos “de confiança”.

O rascunho inicial do documento foi apresentado em Dezembro do ano passado, e é baseado no trabalho de um grupo independente de 52 especialistas na área, que inclui membros de organizações não-governamentais, académicos e representantes de algumas empresas de tecnologia.

Com a criação dos guias éticos, a Comissão espera que haja vantagem para as empresas de tecnologia europeias, na exportação de sistemas de inteligência artificial para todo o mundo.

Em entrevista ao jornal Público, Virginia Dignum, uma investigadora portuguesa envolvida na criação dos guias, diz que "não vale a pena correr atrás dos chineses e dos americanos, sem se pensar se é a melhor solução para a Europa e para os princípios que temos na Europa”.

E acrescenta que “muitas vezes, quando fazemos algo, o resto do mundo copia. Veja-se com o RGPD [Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados], que agora está a ser discutido noutras regiões. Por vezes, a nossa responsabilidade é mostrar opções e alternativas que funcionem.”

Como refere o  Público, a Comissão vai lançar a fase-piloto dos guias, que durará até ao principio de 2020, e durante este período prevê recolher “comentários de empresas, para garantir que é possível obedecer aos requerimentos elaborados”.

As empresas e organizações interessadas já podem começar a inscrever-se.

O trabalho faz parte dos planos da Comissão para fomentar o investimento na Inteligência artificial, nos sectores público e privado da União Europeia, em pelo menos 20 mil milhões de euros até ao final de 2020.

Ainda de acordo com o Público, “para a fase-piloto, há sete requerimentos (alguns foram condensados desde a fase de rascunho): garantia da supervisão e controlo humano (os sistemas não devem limitar a autonomia humana); robustez e segurança (os algoritmos têm de ser capazes de lidar com erros); privacidade e controlo de dados (os utilizadores devem manter o controlo dos seus dados e poder revogar o acesso); responsabilização (capacidade de reconhecer erros e corrigi-los); transparência, diversidade, não-discriminação e justiça, e promoção do bem-estar ambiental e societal ".

A fase-piloto do guia ético começa em Junho.

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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