Segunda-feira, 19 de Agosto, 2019
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Saber se a violência em directo cabe na liberdade de expressão

O comissário para as questões de Privacidade na Nova Zelândia, John Edwards, criticou asperamente o Facebook por se recusar a mudar as regras que tornam possível o sucedido durante o ataque terrorista a duas mesquitas  -  uma transmissão em directo de 17 minutos, feita pelo próprio assassino.

John Edwards  - que propusera o estabelecimento de uma “décalage entre a emissão e a difusão de vídeos, para permitir moderação (o bloqueio da emissão), se necessário” -  respondia a uma entrevista em que Mark Zuckerberg recusou a possibilidade, dizendo que isso iria pôr causa um serviço que comunica acontecimentos e aniversários, e que o problema não é a tecnologia ser má, mas as pessoas.

Em twits que publicou e depois apagou, por terem suscitado “reacções tóxicas”, Edwards disse do Facebook:

"Permitem a difusão em directo de suicídios, de violações e de homicídios, continuam a alojar e a publicar o vídeo do ataque à mesquita, permitem aos publicitários dirigir anúncios para ‘anti-judeus’ e outros segmentos do mercado do ódio, e recusam aceitar qualquer responsabilidade por conteúdos que difundam ou mal que causem. (...) Não se pode confiar no Facebook. São mentirosos patológicos e sem moralidade."

Este confronto de argumentos volta a colocar ao vivo a questão da violência assassina exibida em meios de comunicação de massas  - se deve ser protegida pela liberdade de expressão, ou combatida como acto de cumplicidade com o terrorismo, que se alimenta precisamente do seu próprio espectáculo. 

Segundo o DN, que aqui citamos, o que disse Mark Zuckerberg é uma justificação “que faz lembrar a do lobby das armas, que usa o mesmo tipo de argumento: não são as armas que matam mas as pessoas”. 

“Ora, na sequência do massacre de Março, a Nova Zelândia decidiu de imediato legislar sobre as armas, proibindo a venda de armas de assalto e semi-automáticas.” 

“Porém, impedir que volte a suceder alguém usar o Facebook Live para transmitir, durante 17 minutos, em tempo real, a morte de dezenas de pessoas (50 foram assassinadas em Christchurch), e que tal seja visto e descarregado (foram retirados posteriormente mais de 1,5 milhões de cópias e impedidos outros tantos downloads) por milhares de internautas, antes de ser retirado, é algo que aparentemente não será tão simples de conseguir.” 

John Edwards acusou também o Facebook de “permitir genocídios” (referindo a Birmânia e a perseguição dos Rohingyas, que foi incitada em posts no Facebook), e de “facilitar a ingerência estrangeira nas instituições democráticas” (aqui referindo a ingerência russa nas eleições americanas). 

No dia 5 de Abril, o jornal New Zeland Herald  noticiou que ainda há vídeos do massacre no FB. Apesar de Zuckerberg, na entrevista, ter dito que o FB está a trabalhar com a polícia neozelandesa, a reacção de um porta-voz à revelação do Herald foi de que a plataforma está a trabalhar “24 horas por dia para retirar novos carregamentos do vídeo usando uma combinação de tecnologia e de funcionários”. 

A responsável pelas operações da empresa, Sheryl Sandberg, deu razão ao principal argumento apontado pela opinião pública, de que “é preciso fazer mais” a este nível  -  garantindo que o Facebook já está a avaliar medidas para limitar a transmissão de vídeos em directo na rede social, fazendo-as depender de regras sobre as violações dos estatutos da comunidade.

 

 

Mais informação no DN  e no Expresso

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No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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