Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Opinião

Uma esperança sueca

por Francisco Sarsfield Cabral

Através do “Financial Times” tomei conhecimento de que, na Suécia, o mais importante jornal do país, depois de ter atravessado uma crise semelhante à de tantos outros jornais por todo o mundo, logrou uma recuperação espetacular e provavelmente sustentável.
O “Dagens Nyheter”, um diário, passou pelos problemas e aflições comuns à generalidade da imprensa escrita. Os seus leitores envelheciam e a publicidade caía, até porque o Google e o Facebook captavam grande parte dessa publicidade “on line”. 

A conjuntura do sector jornalístico na Suécia também não ajudava. A percentagem de adultos suecos leitores diários de jornais era de 75% em 2009; quatro anos depois tinha baixado para 56%. A tiragem do “Dagens Nyheter” em papel passou de quase 370 mil em 2000 para apenas 270 mil em 2015. Nesse ano a edição eletrónica contava só dois mil assinantes.

Agora, passados menos de cinco anos e várias equipas de gestão, este jornal obtém lucros e vendas como nunca antes. Os assinantes da edição digital chegam aos 160 mil (170 mil se contarmos, também, com as assinaturas da edição em papel). 

Esta evolução aconteceu com o preço do jornal a subir e alguma redução de custos, com menos jornais impressos (a tendência de queda aí não se inverteu), a eliminação de ofertas e uma distribuição mais racional.

 Qual foi o segredo desta invulgar recuperação? Parece ter sido a conjugação de dois factores: a valorização dos conteúdos informativos, por um lado, e o aproveitamento do acesso ao jornal pelos “smartphones”, 24 horas por dia.

 A valorização dos conteúdos implicou prioridade às notícias que os outros “media” não publicam. Notícias originais, portanto, mas que os jornalistas do “Dagens Nyheter” frequentemente investigam a partir do que aparece nas redes sociais, que são uma importante fonte de temas e ideias. Por exemplo, colocar perguntas difíceis a políticos, autoridades policiais, dirigentes empresariais, etc.

Outro fator da recuperação deste jornal foi a preocupação de fortalecer as ligações com os seus assinantes. Seguir as redes sociais também permite ao jornal perceber o eco que os seus textos têm nas comunidades digitais. Por outro lado, o “Dagens Nyheter” facilitou o acesso aos seus conteúdos através de pagamentos electrónicos. 

Em suma, esperançosas notícias vindas da Suécia. Um exemplo mostrando que o jornalismo e os jornais não são espécies em vias de extinção. Boa sorte para o “Dagens Nyheter”!

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Agenda
02
Jul
The Children’s Media Conference
16:00 @ Sheffield,Reino Unido
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria