Sexta-feira, 17 de Janeiro, 2020
Media

Os jornais devem apostar mais em meios humanos do que em produtos

“Tendo crescido no antigo modelo do jornalismo como fábrica de notícias, eu desenvolvi competência nos processos de produção, respeitar os prazos, fazer sair o produto. 
A prioridade era isso: produzir uma quantidade suficiente de conteúdos com um nível de qualidade profissional consistente com as limitações de tempo, dinheiro e espaço disponível (as páginas de noticiário).”

O autor desta reflexão inicial, James Breiner, especializado em direcção de jornalismo digital, descobriu com os anos que vivia num paradoxo:

“Pôr as pessoas em primeiro lugar gera mais proveito.”  Se um gestor de recursos humanos pensar primeiro em desenvolver as pessoas e ajudá-las a atingirem os seus objectivos pessoais e profissionais, o ganho vem a seguir.”

“Quando se cria uma organização onde as pessoas sentem que estão a crescer, a aprender e a participar numa missão maior do que elas mesmas, tornam-se muitíssimo criativas e produtivas.”

O texto que citamos encontra-se na IJNet – International Journalists’ Network.

Esta descoberta, como conta o autor, foi gradual: 

Durante o colapso económico do princípio deste milénio, “quando muitas empresas de media tiveram de fazer cortes de pessoal para manter a rentabilidade, o presidente da nossa enviou uma mensagem forte aos editores dos 40 semanários do grupo: não há despedimentos”: 

“Vamos continuar a ter a bordo as pessoas experientes e, quando a economia recuperar, estaremos em melhor posição para tirar partido disso.” 

O mesmo presidente, que tinha sido um repórter e editor teimoso, sabia que a rentabilidade “dependia de dirigentes que dominassem os chamados soft-skills, competências em capacidades pessoais, mais do que apenas de contabilistas”: 

“Ele mandou os directores e editores para uma formação em leadership que implicava uma análise dos seus talentos. Nós víamos os nossos 12 ou 15 talentos de liderança representados num gráfico [formato de queijo], em que as maiores fatias eram os nossos pontos fortes e as pequenas os pontos fracos.” 

E a mensagem era clara: “concentrem-se nos pontos fortes, desenvolvam ainda mais essas três ou quatro áreas de talento, e rodeiem-se de pessoas que preencham os espaços vazios”. 

“No meu caso, as áreas fortes identificadas foram o desenvolvimento das pessoas, a consolidação de equipas e a responsabilidade profissional. Aquilo em que eu não era bom de todo  - disseram-me eles -  eram os processos administrativos e de organização. O tempo provou que esta avaliação estava correcta.” (...) 

Por sugestão do executive coach [responsável de aconselhamento], James Breiner passou a reunir-se regularmente com cada um dos chefes dos cinco departamentos sob sua tutela. 

“Reservei uma hora por semana para cada um deles, para rever os objectivos, que acções estavam a empreender para os atingir, que obstáculos encontravam, e que soluções eram possíveis. (...) Quando contei a alguns dos meus colegas  - éramos 40 editores -  que estava a encontrar-me durante uma hora, todas as semanas, com cada um dos cinco, eles acharam que eu era maluco. ‘Onde é que arranjas tempo?’  - perguntaram.” 

“Na verdade, essas sessões confidenciais, essas cinco horas por semana, acabaram por me poupar muito tempo. (...) À medida que cada um deles aprendeu a resolver os problemas por si mesmo, os meus problemas foram reduzidos. Fiquei com mais tempo para me focar na melhoria do perfil do jornal na comunidade. Esse foco fortaleceu a marca e resultou em crescimento da receita de publicidade, de recrutamento e retenção de funcionários, presenças nos eventos da empresa, e rentabilidade.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra na International Journalists’ Network

Connosco
Jornalistas sobem ao palco para contar as suas histórias ... Ver galeria

Os jornais deixaram de estar devidamente enraizados no seu lugar, os jornalistas não interagem com a comunidade e as comunidades de leitores estão a desintegrar-se. Uma nova tendência mediática está, contudo, a aproximar, novamente, os jornalistas das audiências. 

A imprensa de alguns países - como a Finlândia, Espanha e França -, está a começar a apostar num formato de "notícias ao vivo", onde os jornalistas estão, literalmente, em cima do palco e conversam com o público sobre as suas histórias, reportagens e vivências, o que está a ajudar o jornalismo a combater a crise de credibilidade. 

O público está pronto a conhecer a pesquisa preliminar dos jornalistas, que se mostram dispostos a partilhar os desenvolvimentos das suas histórias. Ouvir os jornalistas em “carne e osso” humaniza tanto as histórias quanto os escritores e levanta o véu sobre as práticas da redacção. Os participantes dos eventos ficam satisfeitos por terem a oportunidade de fazer perguntas, participar numa discussão e potencialmente influenciar a estratégia editorial.

Em Helsínquia, por exemplo, a “performance” do principal jornal diário está, habitualmente, esgotada. Em Madrid, o "Diário Vivo" oferece "uma noite única em que os jornalistas contam histórias verdadeiras, íntimas e universais pela primeira vez". O público compromete-se a não gravar o evento e, na Finlândia, reúne-se com os jornalistas para "tomar um copo", depois de saírem de cena.


Leitores franceses com reservas em relação aos “media” Ver galeria

Um estudo anual realizado para o diário francês "La Croix", revelou que há um decréscimo no interesse pela actualidade e que os leitores confiam cada vez menos nos "media".

Segundo a pesquisa, apenas 59% dos franceses segue as notícias com interesse "muito elevado" ou "elevado", 41% dizem que estão "muito pouco" ou "bastante pouco" interessados. Esta é a maior queda registada desde que este tipo de inquérito começou a ser realizado, em 1987, o que confirma uma certa apatia.

A confiança nos "media" continua extremamente baixa. Apenas 50% dos franceses considera que as notícias transmitidas na rádio são credíveis e a credibilidade em relação ao conteúdo televisivo é de apenas 40%. Os jornais têm a confiança de 46% das leitores e a internet é considerada o meio de informação menos fidedigno.

O fenómeno parece estar ligado, em parte, ao número de canais de informação, que se multiplica pelas redes sociais, e às notícias que muitas vezes provocam ansiedade e medo.


O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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