Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Google e Facebook apoiam Imprensa local

A iniciativa é paradoxal, pelo menos. Depois de serem  responsáveis principais pela crise da Imprensa local nos EUA  - absorvendo as suas receitas publicitárias -  o Facebook e a Google manifestam agora interesse em apoiar os jornais regionais.

Em Janeiro de 2018, Mark Zuckerberg declarava, na rede social,  que o Facebook ia “mostrar mais artigos provenientes da sua cidade”  - dirigindo-se aos leitores locais. Mas, um ano mais tarde, os conteúdos que iriam supostamente alimentar a secção Today In, lançada para este efeito, continuam em falta em muitas cidades americanas.

O problema é que “um em cada três utentes vive num sítio onde não encontramos informação local suficiente para lançar a Today In”  - como lamenta agora o mesmo Facebook, num comunicado de 18 de Março.

Segundo Le Monde, que aqui citamos, este obstáculo não surpreende os habitantes dos “desertos mediáticos” que cobrem uma grande parte da América. 

“Mais de 1.800 jornais desapareceram nos Estados Unidos desde 2004, e o número de empregados remunerados nas redacções teve uma quebra de 45%, segundo um estudo feito em 2017 pela Universidade da Carolina do Norte. Uma consequência directa da queda das receitas da Imprensa local, tendo as agências de publicidade desertado das páginas dos jornais, e depois dos seus sites na Internet, para as grandes plataformas digitais.” 

“Será que o Facebook chegou tarde demais, com a Today In? Esta rede social parece ainda decidida a apoiar os media regionais, a avaliar pelos 300 milhões de dólares (cerca de 267,6 milhões de euros) que se propõe investir nos próximos três anos, em bolsas para as redacções locais ou em fundações que sustentam os media de proximidade.” 

“Numa entrevista na sua conta de Facebook, no dia 1 de Abril, Mark Zuckerberg anunciou um programa europeu de formação de jornais locais, para recrutamento de assinantes digitais. Financiado com dois milhões de euros, vai beneficiar, para já, doze editores alemães.” 

Por seu lado, em artigo na Columbia Journalism Review, Emily Bell faz perguntas a respeito da mais recente iniciativa de apoio ao jornalismo local assumida pela Google, a parceria com a McClatchy Company, uma grande editora que detém cerca de três dezenas de diários em 14 Estados. 

Craig Forman, o director executivo da McClatchy, garante que esta empresa manterá o controlo editorial e a posse dos conteúdos, e que a Google não terá “interferência ou envolvimento em quaisquer operações editoriais ou de decisão”. 

Emily Bell tem as suas dúvidas, mas reconhece que pôr questões à Google não é fácil no presente momento, porque esta “tem tido claramente melhor reputação [better press] do que algumas das suas concorrentes, nomeadamente o Facebook”: 

“Isto sucede em parte porque é mais madura, e tem muito melhores relações com a Imprensa (não tenta esconder as suas campanhas de influência, por exemplo). Também gasta mais dinheiro. O dinheiro extra que a Google fornece ao jornalismo não vai directamente para a compra de favores, ou o abafar de oposição, mas certamente faz com que muitos CEO’s e editores que conheço ponham a Google numa categoria subtilmente diferente da de outras plataformas. A sua atitude é que ‘a Google consegue’.” (...) 

“Mas a incursão da Google no jornalismo local não é apenas uma questão de ajuda. Quando a empresa lançou a Digital News Initiative na Europa, foi em resposta directa à pressão vinda dos reguladores da União Europeia.” (...) 

“O núcleo das plataformas tecnológicas é engenharia de software; elas estão no núcleo do nosso negócio, mas nós não estamos no delas. (...)  Os seus executivos de modo geral não se importam assim tanto com o jornalismo. Eles consideram-no como Plutão no sistema solar  - uma parte do que fazem, mas bastante pequena e muito distante.” (...) 

“O Facebook, a Apple e a Google fazem coisas que os jornalistas deviam estar a investigar, e não a tirarem proveito delas. A Google tem negócios com o Departamento de Defesa dos EUA  - embora para horror de metade dos seus funcionários -  e tentou encobri-lo; o Facebook paga mal e trata mal os funcionários que lidam com as listas de conteúdos ofensivos; a Apple lida com regimes que mandam regularmente jornalistas para a prisão e controem campos de concentração de etnias. Todas estas três têm estratégias para lidar com a Imprensa, e publicam muito pouca informação sobre o que sucede nas suas plataformas ou o efeito que isso tem, tornando a reportagem de tecnologia uma forma vital de responsabilização.” (...)

 

Mais informação nos textos citados, em Le Monde  e na Columbia Journalism Review.
Sobre os “desertos de informação” nos EUA.

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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