Sábado, 20 de Abril, 2019
Media

Google e Facebook apoiam Imprensa local

A iniciativa é paradoxal, pelo menos. Depois de serem  responsáveis principais pela crise da Imprensa local nos EUA  - absorvendo as suas receitas publicitárias -  o Facebook e a Google manifestam agora interesse em apoiar os jornais regionais.

Em Janeiro de 2018, Mark Zuckerberg declarava, na rede social,  que o Facebook ia “mostrar mais artigos provenientes da sua cidade”  - dirigindo-se aos leitores locais. Mas, um ano mais tarde, os conteúdos que iriam supostamente alimentar a secção Today In, lançada para este efeito, continuam em falta em muitas cidades americanas.

O problema é que “um em cada três utentes vive num sítio onde não encontramos informação local suficiente para lançar a Today In”  - como lamenta agora o mesmo Facebook, num comunicado de 18 de Março.

Segundo Le Monde, que aqui citamos, este obstáculo não surpreende os habitantes dos “desertos mediáticos” que cobrem uma grande parte da América. 

“Mais de 1.800 jornais desapareceram nos Estados Unidos desde 2004, e o número de empregados remunerados nas redacções teve uma quebra de 45%, segundo um estudo feito em 2017 pela Universidade da Carolina do Norte. Uma consequência directa da queda das receitas da Imprensa local, tendo as agências de publicidade desertado das páginas dos jornais, e depois dos seus sites na Internet, para as grandes plataformas digitais.” 

“Será que o Facebook chegou tarde demais, com a Today In? Esta rede social parece ainda decidida a apoiar os media regionais, a avaliar pelos 300 milhões de dólares (cerca de 267,6 milhões de euros) que se propõe investir nos próximos três anos, em bolsas para as redacções locais ou em fundações que sustentam os media de proximidade.” 

“Numa entrevista na sua conta de Facebook, no dia 1 de Abril, Mark Zuckerberg anunciou um programa europeu de formação de jornais locais, para recrutamento de assinantes digitais. Financiado com dois milhões de euros, vai beneficiar, para já, doze editores alemães.” 

Por seu lado, em artigo na Columbia Journalism Review, Emily Bell faz perguntas a respeito da mais recente iniciativa de apoio ao jornalismo local assumida pela Google, a parceria com a McClatchy Company, uma grande editora que detém cerca de três dezenas de diários em 14 Estados. 

Craig Forman, o director executivo da McClatchy, garante que esta empresa manterá o controlo editorial e a posse dos conteúdos, e que a Google não terá “interferência ou envolvimento em quaisquer operações editoriais ou de decisão”. 

Emily Bell tem as suas dúvidas, mas reconhece que pôr questões à Google não é fácil no presente momento, porque esta “tem tido claramente melhor reputação [better press] do que algumas das suas concorrentes, nomeadamente o Facebook”: 

“Isto sucede em parte porque é mais madura, e tem muito melhores relações com a Imprensa (não tenta esconder as suas campanhas de influência, por exemplo). Também gasta mais dinheiro. O dinheiro extra que a Google fornece ao jornalismo não vai directamente para a compra de favores, ou o abafar de oposição, mas certamente faz com que muitos CEO’s e editores que conheço ponham a Google numa categoria subtilmente diferente da de outras plataformas. A sua atitude é que ‘a Google consegue’.” (...) 

“Mas a incursão da Google no jornalismo local não é apenas uma questão de ajuda. Quando a empresa lançou a Digital News Initiative na Europa, foi em resposta directa à pressão vinda dos reguladores da União Europeia.” (...) 

“O núcleo das plataformas tecnológicas é engenharia de software; elas estão no núcleo do nosso negócio, mas nós não estamos no delas. (...)  Os seus executivos de modo geral não se importam assim tanto com o jornalismo. Eles consideram-no como Plutão no sistema solar  - uma parte do que fazem, mas bastante pequena e muito distante.” (...) 

“O Facebook, a Apple e a Google fazem coisas que os jornalistas deviam estar a investigar, e não a tirarem proveito delas. A Google tem negócios com o Departamento de Defesa dos EUA  - embora para horror de metade dos seus funcionários -  e tentou encobri-lo; o Facebook paga mal e trata mal os funcionários que lidam com as listas de conteúdos ofensivos; a Apple lida com regimes que mandam regularmente jornalistas para a prisão e controem campos de concentração de etnias. Todas estas três têm estratégias para lidar com a Imprensa, e publicam muito pouca informação sobre o que sucede nas suas plataformas ou o efeito que isso tem, tornando a reportagem de tecnologia uma forma vital de responsabilização.” (...)

 

Mais informação nos textos citados, em Le Monde  e na Columbia Journalism Review.
Sobre os “desertos de informação” nos EUA.

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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