Sexta-feira, 21 de Fevereiro, 2020
Media

Em defesa do "slow journalism" para assegurar mais tempo ao leitor

A verdade é que não fomos feitos para absorver tanta informação. Um número crescente de leitores ressente-se do consumo excessivo de conteúdos e da “sobrecarga” de noticiário.
“News is noise” [as notícias são ruído] é o diagnóstico do estado a que chegámos, neste ponto da revolução digital  - e há uma série de novos media voltados para o chamado jornalismo lento, “digerível”, assente mais na reflexão do que na reacção.

Uma proporção significativa dos actuais leitores “sente-se esgotada pela quantidade de notícias” a que é hoje exposta, segundo informação preliminar do próximo Digital News Report do Instituto Reuters, ainda não divulgado. Por troca do conhecido acrónimo FOMO – fear of missing out [corrente entre os “viciados” nas redes sociais], já está em voga o JOMO – joy of missing out.
O que significa assumir “a alegria de perder alguma coisa”, em vez do “medo de perder alguma coisa”, ou “ficar de fora”...

Mas será que a tartaruga do slow journalism vai mesmo conseguir ganhar a corrida contra a lebre? É esta a reflexão  - e a pergunta -  do jornalista Benjamin Bathke, no NiemanLab.

O “jornalismo lento” começou por volta de 2011, com o lançamento da revista trimestral Delayed Gratification no Reino Unido. Depois de cerca de uma dúzia de mais experiências nesta orientação, a questão é séria e persiste: 

Pode o “jornalismo lento” servir como alternativa à fadiga das notícias  - e à fuga das notícias? E serão estes novos media capazes de “capitalizar sobre o desencanto dos consumidores com uma oferta que as pessoas estejam dispostas a pagar”? 

Um dos pontos fundamentais deste tipo de jornalismo é o de “dar aos leitores uma hipótese realista de consumirem tudo antes de chegar mais conteúdo”. 

“É por isso que os membros do jornal britânico Tortoise Media recebem apenas cinco artigos por dia no seu portal slow newsfeed, como lhe chama uma sua co-fundadora e editora, Katie Vanneck-Smith.” 

Não é um produto jornalístico barato, mas os assinantes “membros” adquirem, por 250 libras por ano (cerca de 315 dólares), todo o acesso à edição digital (que tem paywall), a revista trimestral enviada por correio e uma série de programas interactivos em que a Tortoise solicita a sua participação nas conferências editoriais, por exemplo. Tem neste momento 40 empregados e mais de cinco mil membros fundadores. 

O autor do artigo que aqui citamos apresenta, depois, o exemplo do jornal dinamarquês Zetland, que tem uma produção diária “ainda mais lenta do que a da Tortoise”. A média de artigos que chegam à caixa de correio dos seus membros é de apenas dois por dia. 

“O grande problema das pessoas que são atraídas para o Zetland é a sensação de serem bombardeadas com notícias, e de terem dificuldade em encontrar um jornalismo sólido e profundo, em que valha a pena gastarem o seu tempo”  - diz a sua co-fundadora e editora principal, Lez Korsgaard.  “Não conseguimos chegar ao fim de um portal de notícias [news feed], mas conseguimos chegar ao fim do Zetland, e isso é muito bom: ‘OK, foi esta a aula por hoje, agora vou sair e apanhar sol, a conversar com um amigo’.” 

À semelhança do que sucede com a Tortoise, 35% dos assinantes do Zetland afirmam que este “número digerível de artigos” foi a primeira, ou uma das principais razões para se tornarem membros. A assinatura mensal é de 129 coroas (quase 20 dólares), e a anual de 1.288 coroas (196 dólares). Embora o Zetland ainda não seja lucrativo, já tem cerca de dez mil assinantes, está a fazer crowdfunding e espera chegar ao ponto de equilíbrio durante este ano. 

Os artigos são ainda publicados em formato áudio, com o autor a contar ao ouvinte, antes de ler o texto, a importância que aquela notícia teve para si mesmo. A redacção é de 25 jornalistas. (...) 

Outras publicações digitais baseadas na “membrasia” e proporcionando um “jornalismo lento” que se preocupa com os hábitos dos leitores são o jornal alemão Krautreporter, o suíço Republik, o italiano Il Salto, o finlandês Long Play e o holandês (de que já temos aqui falado) The Correspondent

“Este último, que é talvez o mais conhecido jornal de slow journalism, recolheu 2.627 milhões de dólares de cerca de 46 mil pessoas, durante o ano passado, numa campanha para levar o seu ‘antídoto contra a moagem diária das notícias’ aos leitores de língua inglesa.” (...) 

“À medida que cresce o número das pessoas conscientes e preocupadas pelas consequências negativas da tecnologia e do consumo das redes sociais sobre a nossa saúde mental, [sobe] também o número dos possíveis assinantes dos media de ‘jornalismo lento’.” 

A concluir o seu trabalho, Benjamin Bathke interroga-se sobre se estas “tartarugas” vão conseguir ganhar mesmo a corrida. Muito depende da efectiva qualidade do jornalismo que sejam capazes de proporcionar. O outro lado da questão é o de saber se o vício do FOMO [o tal “medo de estar a perder alguma coisa”], induzido como uma droga pelas redes sociais, não vai ter grandes recaídas mesmo entre os assinantes de slow journalism que julgávamos “desintoxicados”. 

Avaliando o movimento do slow journalism como um todo, talvez a grande questão seja a de saber quantas pessoas, entre os milhões das que se sentem “esgotadas pela avalanche de notícias”, vão tornar-se de facto membros contribuintes. (...) 

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Nieman Lab.
Uma entrevista de há dois anos com a editora do Zetland. A revista Delayed Gratification. E mais informação no nosso site.

Connosco
Literacia mediática como ferramenta contra desinformação Ver galeria

Para além da infecção provocada pelo novo coronavírus, identificado na China, estamos, agora, a assistir à disseminação indiscriminada de notícias falsas sobre o tema, conforme refere Ricardo Torres, num artigo publicado na revista “objETHOS”.

De acordo com Torres, o volume e a nocividade das informações propagadas através dos “media” digitais, são o reflexo de formatos comunicacionais imersos num “ecossistema” que favorece a desinformação.

Em temas sensíveis, como a saúde, os riscos da disseminação maciça de informações falsas são ampliados e podem, mesmo, conduzir ao caos social e a um estado de pânico generalizado. 

A OMS tem tentado evitar situações de pânico e insegurança, fortalecendo a posição científica, desmistificando rumores e esclarecendo dúvidas. No entanto, o cenário difuso e hiperbólico, fortalecido pelo sensacionalismo, torna a missão informativa confusa e complexa.

A era digital veio complicar a narrativa jornalística Ver galeria

A era digital e a revolução tecnológica vieram alterar o panorama do jornalismo. Se, anteriormente, os jornalistas apenas tinham de  preocupar-se com o conteúdo produzido na redacção onde trabalhavam, hoje, terão de manter-se competitivos com outras plataformas, e escrever com base nos artigos de outros jornais.

Muitos jornalistas, da chamada “velha guarda”, ainda não  conseguiram adaptar-se à nova realidade, e continuam a depender de uma cultura profissional baseada num jornalismo linear e sequencial, o que impede, por vezes, a tão desejada diversidade dos formatos de apresentação informativa.

O jornalista Carlos Castilho, especializado em “media” digitais, escreveu um artigo para o “Observatório da Imprensa”, no qual reflecte sobre a urgência de adaptação aos novos modelos. 

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

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Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...