Quarta-feira, 23 de Outubro, 2019
Media

Em defesa do "slow journalism" para assegurar mais tempo ao leitor

A verdade é que não fomos feitos para absorver tanta informação. Um número crescente de leitores ressente-se do consumo excessivo de conteúdos e da “sobrecarga” de noticiário.
“News is noise” [as notícias são ruído] é o diagnóstico do estado a que chegámos, neste ponto da revolução digital  - e há uma série de novos media voltados para o chamado jornalismo lento, “digerível”, assente mais na reflexão do que na reacção.

Uma proporção significativa dos actuais leitores “sente-se esgotada pela quantidade de notícias” a que é hoje exposta, segundo informação preliminar do próximo Digital News Report do Instituto Reuters, ainda não divulgado. Por troca do conhecido acrónimo FOMO – fear of missing out [corrente entre os “viciados” nas redes sociais], já está em voga o JOMO – joy of missing out.
O que significa assumir “a alegria de perder alguma coisa”, em vez do “medo de perder alguma coisa”, ou “ficar de fora”...

Mas será que a tartaruga do slow journalism vai mesmo conseguir ganhar a corrida contra a lebre? É esta a reflexão  - e a pergunta -  do jornalista Benjamin Bathke, no NiemanLab.

O “jornalismo lento” começou por volta de 2011, com o lançamento da revista trimestral Delayed Gratification no Reino Unido. Depois de cerca de uma dúzia de mais experiências nesta orientação, a questão é séria e persiste: 

Pode o “jornalismo lento” servir como alternativa à fadiga das notícias  - e à fuga das notícias? E serão estes novos media capazes de “capitalizar sobre o desencanto dos consumidores com uma oferta que as pessoas estejam dispostas a pagar”? 

Um dos pontos fundamentais deste tipo de jornalismo é o de “dar aos leitores uma hipótese realista de consumirem tudo antes de chegar mais conteúdo”. 

“É por isso que os membros do jornal britânico Tortoise Media recebem apenas cinco artigos por dia no seu portal slow newsfeed, como lhe chama uma sua co-fundadora e editora, Katie Vanneck-Smith.” 

Não é um produto jornalístico barato, mas os assinantes “membros” adquirem, por 250 libras por ano (cerca de 315 dólares), todo o acesso à edição digital (que tem paywall), a revista trimestral enviada por correio e uma série de programas interactivos em que a Tortoise solicita a sua participação nas conferências editoriais, por exemplo. Tem neste momento 40 empregados e mais de cinco mil membros fundadores. 

O autor do artigo que aqui citamos apresenta, depois, o exemplo do jornal dinamarquês Zetland, que tem uma produção diária “ainda mais lenta do que a da Tortoise”. A média de artigos que chegam à caixa de correio dos seus membros é de apenas dois por dia. 

“O grande problema das pessoas que são atraídas para o Zetland é a sensação de serem bombardeadas com notícias, e de terem dificuldade em encontrar um jornalismo sólido e profundo, em que valha a pena gastarem o seu tempo”  - diz a sua co-fundadora e editora principal, Lez Korsgaard.  “Não conseguimos chegar ao fim de um portal de notícias [news feed], mas conseguimos chegar ao fim do Zetland, e isso é muito bom: ‘OK, foi esta a aula por hoje, agora vou sair e apanhar sol, a conversar com um amigo’.” 

À semelhança do que sucede com a Tortoise, 35% dos assinantes do Zetland afirmam que este “número digerível de artigos” foi a primeira, ou uma das principais razões para se tornarem membros. A assinatura mensal é de 129 coroas (quase 20 dólares), e a anual de 1.288 coroas (196 dólares). Embora o Zetland ainda não seja lucrativo, já tem cerca de dez mil assinantes, está a fazer crowdfunding e espera chegar ao ponto de equilíbrio durante este ano. 

Os artigos são ainda publicados em formato áudio, com o autor a contar ao ouvinte, antes de ler o texto, a importância que aquela notícia teve para si mesmo. A redacção é de 25 jornalistas. (...) 

Outras publicações digitais baseadas na “membrasia” e proporcionando um “jornalismo lento” que se preocupa com os hábitos dos leitores são o jornal alemão Krautreporter, o suíço Republik, o italiano Il Salto, o finlandês Long Play e o holandês (de que já temos aqui falado) The Correspondent

“Este último, que é talvez o mais conhecido jornal de slow journalism, recolheu 2.627 milhões de dólares de cerca de 46 mil pessoas, durante o ano passado, numa campanha para levar o seu ‘antídoto contra a moagem diária das notícias’ aos leitores de língua inglesa.” (...) 

“À medida que cresce o número das pessoas conscientes e preocupadas pelas consequências negativas da tecnologia e do consumo das redes sociais sobre a nossa saúde mental, [sobe] também o número dos possíveis assinantes dos media de ‘jornalismo lento’.” 

A concluir o seu trabalho, Benjamin Bathke interroga-se sobre se estas “tartarugas” vão conseguir ganhar mesmo a corrida. Muito depende da efectiva qualidade do jornalismo que sejam capazes de proporcionar. O outro lado da questão é o de saber se o vício do FOMO [o tal “medo de estar a perder alguma coisa”], induzido como uma droga pelas redes sociais, não vai ter grandes recaídas mesmo entre os assinantes de slow journalism que julgávamos “desintoxicados”. 

Avaliando o movimento do slow journalism como um todo, talvez a grande questão seja a de saber quantas pessoas, entre os milhões das que se sentem “esgotadas pela avalanche de notícias”, vão tornar-se de facto membros contribuintes. (...) 

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Nieman Lab.
Uma entrevista de há dois anos com a editora do Zetland. A revista Delayed Gratification. E mais informação no nosso site.

Connosco
Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

Suspensão de acordo do “Brexit” dividiu a imprensa britânica Ver galeria

Suspensa a aprovação do acordo no Parlamento britânico até que haja a regulamentação apropriada, a imprensa londrina apresentou-se dividida em relação ao Brexit.

Por um lado, a esperança de evitar um “não acordo” e uma saída abrupta, por outro a exaltação em relação à votação. 

Os media ingleses evidenciaram posições antagónicas em relação aos últimos acontecimentos e isso foi claro pela forma como abordaram a situação. 

Enquanto que o Sunday Express assumiu uma postura pró-Brexit e foi mais hostil com os deputados, acusando-os de atrasarem o processo, o Independent preferiu focar-se nas ruas, onde perto de um milhão de cidadãos se manifestaram para exigir que lhes seja dada a palavra final. Por sua vez, o Observer realçou a derrota do primeiro ministro, que se viu forçado a suspender a aprovação do acordo.

Le Monde publicou, entretanto, um texto no qual é feita uma análise dos media britânicos neste contexto.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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