Sábado, 20 de Abril, 2019
Media

Em defesa do "slow journalism" para assegurar mais tempo ao leitor

A verdade é que não fomos feitos para absorver tanta informação. Um número crescente de leitores ressente-se do consumo excessivo de conteúdos e da “sobrecarga” de noticiário.
“News is noise” [as notícias são ruído] é o diagnóstico do estado a que chegámos, neste ponto da revolução digital  - e há uma série de novos media voltados para o chamado jornalismo lento, “digerível”, assente mais na reflexão do que na reacção.

Uma proporção significativa dos actuais leitores “sente-se esgotada pela quantidade de notícias” a que é hoje exposta, segundo informação preliminar do próximo Digital News Report do Instituto Reuters, ainda não divulgado. Por troca do conhecido acrónimo FOMO – fear of missing out [corrente entre os “viciados” nas redes sociais], já está em voga o JOMO – joy of missing out.
O que significa assumir “a alegria de perder alguma coisa”, em vez do “medo de perder alguma coisa”, ou “ficar de fora”...

Mas será que a tartaruga do slow journalism vai mesmo conseguir ganhar a corrida contra a lebre? É esta a reflexão  - e a pergunta -  do jornalista Benjamin Bathke, no NiemanLab.

O “jornalismo lento” começou por volta de 2011, com o lançamento da revista trimestral Delayed Gratification no Reino Unido. Depois de cerca de uma dúzia de mais experiências nesta orientação, a questão é séria e persiste: 

Pode o “jornalismo lento” servir como alternativa à fadiga das notícias  - e à fuga das notícias? E serão estes novos media capazes de “capitalizar sobre o desencanto dos consumidores com uma oferta que as pessoas estejam dispostas a pagar”? 

Um dos pontos fundamentais deste tipo de jornalismo é o de “dar aos leitores uma hipótese realista de consumirem tudo antes de chegar mais conteúdo”. 

“É por isso que os membros do jornal britânico Tortoise Media recebem apenas cinco artigos por dia no seu portal slow newsfeed, como lhe chama uma sua co-fundadora e editora, Katie Vanneck-Smith.” 

Não é um produto jornalístico barato, mas os assinantes “membros” adquirem, por 250 libras por ano (cerca de 315 dólares), todo o acesso à edição digital (que tem paywall), a revista trimestral enviada por correio e uma série de programas interactivos em que a Tortoise solicita a sua participação nas conferências editoriais, por exemplo. Tem neste momento 40 empregados e mais de cinco mil membros fundadores. 

O autor do artigo que aqui citamos apresenta, depois, o exemplo do jornal dinamarquês Zetland, que tem uma produção diária “ainda mais lenta do que a da Tortoise”. A média de artigos que chegam à caixa de correio dos seus membros é de apenas dois por dia. 

“O grande problema das pessoas que são atraídas para o Zetland é a sensação de serem bombardeadas com notícias, e de terem dificuldade em encontrar um jornalismo sólido e profundo, em que valha a pena gastarem o seu tempo”  - diz a sua co-fundadora e editora principal, Lez Korsgaard.  “Não conseguimos chegar ao fim de um portal de notícias [news feed], mas conseguimos chegar ao fim do Zetland, e isso é muito bom: ‘OK, foi esta a aula por hoje, agora vou sair e apanhar sol, a conversar com um amigo’.” 

À semelhança do que sucede com a Tortoise, 35% dos assinantes do Zetland afirmam que este “número digerível de artigos” foi a primeira, ou uma das principais razões para se tornarem membros. A assinatura mensal é de 129 coroas (quase 20 dólares), e a anual de 1.288 coroas (196 dólares). Embora o Zetland ainda não seja lucrativo, já tem cerca de dez mil assinantes, está a fazer crowdfunding e espera chegar ao ponto de equilíbrio durante este ano. 

Os artigos são ainda publicados em formato áudio, com o autor a contar ao ouvinte, antes de ler o texto, a importância que aquela notícia teve para si mesmo. A redacção é de 25 jornalistas. (...) 

Outras publicações digitais baseadas na “membrasia” e proporcionando um “jornalismo lento” que se preocupa com os hábitos dos leitores são o jornal alemão Krautreporter, o suíço Republik, o italiano Il Salto, o finlandês Long Play e o holandês (de que já temos aqui falado) The Correspondent

“Este último, que é talvez o mais conhecido jornal de slow journalism, recolheu 2.627 milhões de dólares de cerca de 46 mil pessoas, durante o ano passado, numa campanha para levar o seu ‘antídoto contra a moagem diária das notícias’ aos leitores de língua inglesa.” (...) 

“À medida que cresce o número das pessoas conscientes e preocupadas pelas consequências negativas da tecnologia e do consumo das redes sociais sobre a nossa saúde mental, [sobe] também o número dos possíveis assinantes dos media de ‘jornalismo lento’.” 

A concluir o seu trabalho, Benjamin Bathke interroga-se sobre se estas “tartarugas” vão conseguir ganhar mesmo a corrida. Muito depende da efectiva qualidade do jornalismo que sejam capazes de proporcionar. O outro lado da questão é o de saber se o vício do FOMO [o tal “medo de estar a perder alguma coisa”], induzido como uma droga pelas redes sociais, não vai ter grandes recaídas mesmo entre os assinantes de slow journalism que julgávamos “desintoxicados”. 

Avaliando o movimento do slow journalism como um todo, talvez a grande questão seja a de saber quantas pessoas, entre os milhões das que se sentem “esgotadas pela avalanche de notícias”, vão tornar-se de facto membros contribuintes. (...) 

 

O artigo aqui citado, na íntegra no Nieman Lab.
Uma entrevista de há dois anos com a editora do Zetland. A revista Delayed Gratification. E mais informação no nosso site.

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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